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Babel verde

O Globo, Opinião, p.
04 de Jun de 2008

Babel verde

Com a constatação, feita pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), de que a Floresta Amazônica, apenas em abril, perdeu uma área de 1.123 quilômetros quadrados, do tamanho da cidade do Rio, sobe, mais uma vez, o volume de decibéis no bate-boca que há algum tempo se trava dentro e fora do país sobre a região.
A senha para a primeira elevação do vozerio veio com a informação de que, ao contrário do que fazia crer o governo, a devastação na Amazônia havia voltado com força, após um período de arrefecimento - menos por ação de políticas públicas, e certamente mais em função do comportamento do mercado mundial de carne e grãos ou mesmo da meteorologia. A descoberta deflagrou altercações na cúpula do governo, e, no final da primeira quinzena de maio, a ministra Marina Silva passou a pasta para Carlos Minc. Na outra ponta do cenário, o protagonismo ficou com Blairo Maggi, governador de Mato Grosso, considerado o maior produtor de soja do mundo, um político que virou sinônimo de motosserra para a militância ambientalista.
Instaurou-se uma Torre de Babel verde, sem que se entendessem Executivo federal e governos estaduais que precisam estar envolvidos em qualquer projeto sério de preservação da floresta. 0 clima é propício a que o maniqueísmo roube a cena, e um assunto estratégico como o presente e o futuro da Amazônia seja tratado pela ótica míope de um confronto entre o "bem" e o "mal", um duelo entre "bandidos" e "mocinhos".
Até o fantasma da "desnacionalização' da Amazônia voltou a assustar algumas hostes. Sinal disso é o surto de xenofobia denunciado pelo noticiário sobre possíveis medidas legais para evitar a venda de terras a estrangeiros. Como se o lema "A floresta é nossa" fosse equacionar o problema, ou que uma porteira fechada diante de ONGs internacionais salvasse a lavoura - como se confiáveis fossem ONGs e madeireiras verde-amarelas.
É preciso que arroubos de nacionalismo da década de 50 e idéias como a de caçar "boi pirata" na floresta - lançada pelo ministro Minc, fazendo lembrar os "fiscais do Sarney" atrás de bovinos no pasto - dêem lugar a propostas serenas, sensatas e bem fundamentadas que não partam do pressuposto de que a Floresta Amazônica pode ser um Jardim Botânico de proporções gigantescas, sem gerar renda e emprego decentes para os seus 20 milhões de habitantes.
Caso não haja uma exploração racional que ao mesmo tempo preserve o bioma amazônico, a serraria e o forno de carvão continuarão a ser, infelizmente, o destino da maior floresta úmida do planeta.

O Globo, 04/06/2008, Opinião, p. 6

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