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Aves, butim e discurso

Folha de Boa Vista - http://www.folhabv.com.br
Autor: Jessé Souza
01 de Fev de 2012

Há anos venho tratando da questão fundiária, que inclui em seu bojo a questão indígena, mais especificamente a Terra Indígena Raposa Serra do Sol, apontada pelos políticos e governantes como o "grande entrave" de Roraima, inclusive chegou a ser apontada como fim do mundo (a homologação foi confirmada e o mundo não acabou).

Durante esse período de embate, o discurso mais contundente era que Roraima iria ficar sem terras para o seu desenvolvimento. Portanto, a definição fundiária iria ser a redenção do Estado, o fazendo deslanchar de vez, pois não havia terras para administrar nem para definir o que era agricultável ou não.

O tempo passou, a homologação das terras indígenas foi confirmada pelo Supremo, as terras da União foram transferidas e as titulações iniciaram. Então, eis que surge o presidente do Iteraima (Instituto de Terras de Roraima), Márcio Junqueira, numa entrevista à Rádio Folha, no domingo passado.

Veja o que ele disse e que está gravado nos arquivos: "Roraima não se preparou para receber as terras e enfrenta algumas dificuldades de logística para concluir os processos (...)"; "Temos muita terra e nós não nos preparamos para a transferência para se trabalhar, até mesmo o Incra".

Trocando em miúdos, quando tentava legitimar as terras para os arrozeiros e expulsar os índios das áreas agricultáveis, este mesmo governo afirmava que não havia terras para o Estado se desenvolver e culpava os índios. Era também o discurso do mesmo Junqueira como deputado federal.

Desse espaço, escrevi diversas vezes afirmando que esta sentença não tinha fundo de verdade, pois mesmo entregando as terras aos povos indígenas, ainda sobraria muita terra para o desenvolvimento de Roraima. E agora isto está se confirmando. E o próprio governo, por meio de seu representante fundiário, é quem confirmou.

Existe tanta terra sobrando a ponto de surgirem fortes indícios de uma verdadeira farra de concessões de títulos, fato este que precisa ser passado a limpo e investigado seriamente pelos órgãos fiscalizadores. Ao que indica, aves de rapina estão se apoderando das terras do Estado.

Diante dessa questão, existe outro fato a ser observado: se o discurso de que Roraima precisava de terras é tão antiga quanto a posição de orar, por que o Estado está despreparado para fazer a regularização? Por que é necessário complicar? Para confundir? Por que há algo estranho nisso tudo?

Continuo a repetir que Roraima dispõe de muitas terras, mesmo excluindo as terras indígenas. O discurso de que índios queriam tomar o Estado e decretar o fim do mundo sempre existiu para desviar a atenção para os verdadeiros latifundiários e os rapinadores.

É preciso abrir a "caixa preta" da questão fundiária em Roraima. Como não cola mais acusar os índios, a realidade começa a ficar cristalina. Acreditar nos discursos apocalípticos é concordar com o butim que estão fazendo com as terras do Estado.

http://www.folhabv.com.br/noticia.php?id=123625

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