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Avanço da cana é maior nas pastagens

OESP, Economia, p. B4
20 de Abr de 2008

Avanço da cana é maior nas pastagens
Estudo derruba tese de que etanol reduz a produção de alimentos

Lu Aiko Otta

Estudo inédito que a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) divulgará no fim deste mês vai traduzir em números o que já é visível nos campos brasileiros: os canaviais estão se espalhando para além de suas fronteiras tradicionais do interior paulista. O estudo investiga para onde, e em áreas de quais culturas, esse crescimento ocorre. Mas os números derrubam duas teses que vêm sendo levantadas pelos críticos do etanol: a que o cultivo da cana-de-açúcar diminui a produção de alimentos e a de que os canaviais são agentes indiretos do desmatamento da Amazônia.

"Não é verdade essa história que estamos deixando de produzir alimentos", disse o consultor da Conab e ex-diretor do Departamento de Açúcar e Álcool do Ministério da Agricultura, Ângelo Bressan.

Na safra mais recente, a de 2007/2008, a área plantada com cana-de-açúcar aumentou 653.700 hectares, um crescimento de 12% em comparação com a safra anterior. Desses, 140 mil hectares correspondem a terras onde antes se cultivavam grãos, como milho e soja.

"Parece bastante, mas a cana ocupou 0,4% da área total cultivada com grãos", disse Bressan. "É praticamente nada, é troco." Mesmo perdendo esse pequeno espaço para a cana, a produção de grãos no Brasil não foi prejudicada. Pelo contrário, aumentou 6,8% na safra 2007/2008, comparada com a de 2006/2007. Além disso, os campos estão mais produtivos. A produção maior foi alcançada com uma expansão de apenas 1,1% na área plantada.

Os números da Conab mostram que os canaviais avançaram principalmente sobre as pastagens. De todo o crescimento de área plantada da última safra, 65% ocorreu em terras antes dedicadas à pecuária. Um exemplo é a região de Barretos, no interior de São Paulo. Tradicional na criação de gado, ela foi ocupada por canaviais. Não há, porém, prejuízos para a produção de carne.

"Os produtores estão usando técnicas de confinamento, assim eles reduzem a área e produzem a mesma quantidade de carne", disse o gerente de Avaliação de Safras da Conab, Eledon Oliveira. Parte do crescimento se deu em áreas de pastos abandonados.

O avanço dos canaviais reduziu a área de pastagens do País em cerca de 0,2%, mostra o levantamento. Diante desse número, parece exagerada a teoria de que a cana-de-açúcar está "empurrando" os pastos para o Norte e se convertendo em responsável indireta pelo desmatamento da região.

FISCALIZAÇÃO RÍGIDA

Os pastos ocupam 211 milhões de hectares de terras agricultáveis em todo o País. É mais do que o dobro da área dedicada ao cultivo de alimentos: 60 milhões de hectares. São eles o principal agente do desmatamento do cerrado e da Amazônia.

No zoneamento da cana que está em elaboração no governo, será dada prioridade ao plantio em áreas de pastos. Ainda assim, a instalação de usinas segue padrões de proteção ambiental. "Nos últimos dois ou três anos, a fiscalização tornou-se muito rígida", disse Oliveira.

Para Ângelo Bressan, as críticas ao etanol de cana na comunidade internacional se devem em parte à dificuldade de os especialistas compreenderem o que a cana representa na produção agrícola brasileira. "O pessoal lá fora não tem a dimensão do País", comentou. "Eles esquecem que somos gigantes." Evidentemente, essa não é a única nem a principal causa. "Os europeus querem atingir o Brasil por outros motivos, impor barreiras comerciais."

Segundo o estudo, mais da metade da expansão do cultivo da cana-de-açúcar da safra 2007/2008 ocorreu no Estado de São Paulo. O Estado responde por 53,8% das novas áreas plantadas. Mas as maiores taxas de crescimento foram encontradas em Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso do Sul. Ou seja, esses três Estados são as novas fronteiras da cana-de-açúcar.

OESP, 20/04/2008, Economia, p. B4

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