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Autor de estudo compara fronteiras a faroeste

O Globo, O País, p. 8
01 de Mar de 2007

Autor de estudo compara fronteiras a faroeste
Entre as cinco cidades mais violentas do país, quatro são de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, segundo pesquisa

Demétrio Weber e Jailton de Carvalho

As altas taxas de assassinatos em pequenas cidades de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul podem ser explicadas pelo crescimento econômico ligado à expansão agrícola em áreas de difícil acesso onde o poder público está ausente e impera a lei do mais forte. A explicação é do sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz, autor do Mapa da Violência dos Municípios Brasileiros, divulgado anteontem pela Organização dos Estados Ibero-Americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura (OEI).

Waiselfisz diz que as manchas escuras no mapa, indicando a concentração de homicídios nos dois estados, foi motivo de surpresa:
- É o faroeste - disse ele.

O município de Colniza, no norte de Mato Grosso, lidera o ranking nacional, com taxa média de 165,3 assassinatos para cada 100 mil moradores - o equivalente a 19 homicídios por ano. Os dados são do triênio 2002-2004. No Brasil, a taxa ficou em 27 homicídios por 100 mil habitantes, em 2004. Coronel Sapucaia (MS) aparece em terceiro lugar, com taxa de 116,4.

Para o sociólogo, o ponto central da violência nos pequenos municípios de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul é a ausência do poder público. Seja na falta de escolas e hospitais de boa qualidade, seja na falta de policiamento. A vasta fronteira terrestre com o Paraguai e a Bolívia, onde proliferam rotas de contrabando de armas e drogas, é um ingrediente a mais para a violência na região.

O diretor da Polícia Federal, Paulo Lacerda, disse que muitas quadrilhas de assaltantes de banco e de seqüestradores estão transferindo suas atividades criminosas das grandes para as pequenas cidades. Os criminosos estariam se deslocando para o interior em busca de alvos mais fáceis e de sistemas de segurança mais vulneráveis.

- Tem que ver cada caso (apontado na pesquisa), mas ao que tudo indica são grupos que, combatidos nos grandes centros, vão para o interior, onde as estruturas de segurança pública são mais frágeis.

Bandidos fazem arrastão em pequenas cidades
Lacerda argumenta que a estrutura de repressão a crimes violentos está se ampliando nas grandes cidades. Ele lembra que os bancos estão reforçando o sistema de vigilância das agências mais movimentadas. Por isso, líderes de organizações criminosas estariam migrando para cidades do interior.

- Os bandos chegam de surpresa, fecham a cidade e fazem um arrastão. Assaltam tudo, não só bancos. Em alguns meses, temos recebido até cinco denúncias desse tipo - afirma o chefe da Divisão de Repressão a Crimes contra o Patrimônio da PF, delegado Antônio Celso.

Há dois anos, a Divisão de Repressão a Crimes contra o Patrimônio começou a fazer um mapeamento nacional das quadrilhas de seqüestradores e assaltantes. Os primeiros números mostram uma alta incidência de roubo e seqüestro em Minas Gerais, Goiás e estados do Nordeste. No Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, os crimes têm origens em problemas locais.

Colniza e Juruena sofrem com tráfico e disputas por terra
'Ali não existe força policial, nem Justiça. Manda quem tem mais força', diz sociólogo

Anselmo Carvalho Pinto e Paulo Yafusso

Colniza e Juruena, em Mato Grosso, proporcionalmente as duas cidades mais violentas do país, segundo o estudo divulgado anteontem, estão localizadas em regiões remotas da Amazônia, onde a abundância de madeira e diamante resultou numa constante tensão pela posse da terra. A questão agrária, a proximidade com a fronteira e o tráfico de drogas deixam as duas cidades de Mato Grosso, e também Coronel Sapucaia, em Mato Grosso do Sul, entre as dez mais violentas do país.

Para o sociólogo e professor da Universidade Federal de Mato Grosso Naldson Ramos, a ausência do Estado permitiu que a disputa pelos recursos naturais fosse resolvida com base na lei do mais forte.

- Nessas localidades, não existe força policial, não existe Ministério Público, não existe Justiça. Então, manda quem tem mais força - disse o professor, que é especialista em segurança pública.
A falta de regularização fundiária e de fiscalização estimulou a grilagem de terras nos anos 90 e propiciou conflitos.
- De um lado estão os grileiros armados. De outro, os proprietários, que também se armam para proteger sua terra. A pistolagem é uma regra nestes lugares - diz Naldson Ramos.

Em Mato Grosso do Sul, a disputa pelo comando do tráfico de drogas na fronteira do Brasil com o Paraguai é a responsável pela violência na região de Coronel Sapucaia, município que apareceu como o terceiro do Brasil em número de homicídios.
Para o coronel Geraldo Garcia Orti, atual comandante-geral da PM do Estado, o período da pesquisa compreende a época em que havia uma ferrenha disputa entre vários grupos pelo comando do narcotráfico, como as quadrilhas de Fernandinho Beira-Mar, João Morel e Líder Cabral.
Assim que fugiu do Brasil, Beira-Mar montou uma estrutura em Capitan Bado, cidade paraguaia que é separada de Coronel Sapucaia apenas por uma avenida.
Essa região do Paraguai concentra a maior parte das lavouras de maconha.

Tragédia nacional

O que já era sabido, pelo acompanhamento do noticiário da imprensa, agora tem comprovação estatística: a violência se alastra pelo interior do país, confirma estudo da Organização dos Estados Ibero-Americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura (OEI).

Nada mais falta para o presidente, governadores e prefeitos coordenarem para valer suas políticas no combate a essa grave crise nacional de segurança pública - e com o apoio do Judiciário e do Congresso.

Existem discursos e algumas ações concretas nessa direção. Mas ainda é muito pouco diante da dimensão de uma onda de violência que ceifa parte da juventude brasileira e compromete o futuro da nação.

O Globo, 01/03/2007, O País, p. 8

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