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Aumento de 3 graus é inevitável, diz ONU

O Globo, Ciência, p. 49
18 de Dez de 2009

Aumento de 3 graus é inevitável, diz ONU
Temperatura deve crescer além das projeções da comunidade internacional, causando colapso climático

Um estudo confidencial da ONU, que vazou ontem na COP-15, em Copenhague, constrangeu os líderes globais. Segundo o levantamento, as promessas de cortes nas emissões de gases-estufa anunciadas até agora fariam com que a temperatura do planeta aumentasse 3 graus Celsius até o fim do século, em relação aos níveis pré-industriais. A meta da comunidade internacional é de uma elevação de, no máximo, 2 graus.

Se os termômetros seguirem as previsões da ONU, até o fim do século haverá mais 170 milhões de pessoas sofrendo severas inundações em regiões costeiras. Até 4 bilhões terão problemas com a escassez de água.

Cerca de 600 milhões vão passar fome, e metade das espécies existentes no planeta estará ameaçada de extinção.

Até a elevação da temperatura em 2 graus, como desejam os líderes reunidos em Copenhague, provocaria estragos notáveis. Os países tropicais, por exemplo, teriam seus cultivos comprometidos por inundações e estiagens.

O documento vazado contava com os dizeres "não distribua" e "rascunho inicial". A data ali registrada é terça-feira, 23h. Desde então, nenhum país comprometeu-se com cortes mais ambiciosos nas emissões de carbono, o que mostra que os riscos apontados continuam valendo.

O aprofundamento das metas é, de acordo com o estudo, imprescindível para evitar mudanças climáticas mais radicais. Hoje, a diferença entre as metas anunciadas e as necessárias é de até 4,2 gigatoneladas de carbono.

"A não ser que esta diferença seja fechada, e que os países do Anexo 1 (os desenvolvidos) se comprometam a uma ação efetiva (...), as emissões globais seguirão um caminho insustentável", diz o relatório.

O documento da ONU recomenda que os países desenvolvidos aumentem suas metas de redução para, pelo menos, 30% em relação aos níveis iniciais.

As nações em desenvolvimento tampouco são poupadas de cobranças: devem assumir um corte nas emissões de, no mínimo, 20%. Outras iniciativas necessárias seriam a redução do desmatamento e da liberação de poluentes pela aviação internacional ou por navios.

O ativista do Greenpeace Joss Garman alertou para os riscos expostos pela ONU.

- Este é um documento explosivo que mostra como os números levados à mesa até agora levarão a nada além de um colapso climático - condenou.

A ONU já admite privadamente que a situação da Humanidade é perigosa. Um aumento de 3 graus afetaria severamente a Amazônia, promoveria a escassez de água na América do Sul e na Austrália e a quase extinção dos corais de recifes tropicais.

A contenção da temperatura global em até 2 graus é um dos desafios de Copenhague. Cento e dois países, entre os mais pobres do mundo, querem impor um desafio ainda maior: fazer com que o aumento da temperatura seja de, no máximo, 1,5 grau este século. Se a meta não for seguida, argumentam, bilhões de pessoas perderiam suas casas e a agricultura vai se tornar impraticável em numerosas regiões. Inundações vão se tornar mais comuns, assim como a elevação do nível dos mares, que ameaça países insulares e já provocou uma paralisação no plenário da conferência em protesto à resistência de países ricos em apresentar cortes efetivos em suas emissões.

Acesso de ONGs à reunião é limitado
Chegada de chefes de Estado aumenta lotação no Bella Center

Com a chegada dos chefes de Estado e de governo ontem ao Bella Center, e o problema do excesso de credenciais emitidas pela organização da cúpula, a solução encontrada pela Dinamarca foi banir da reunião a maior parte dos integrantes de ONGs. Ontem, apenas mil representantes das organizações foram admitidos no prédio. Hoje a previsão era de que o número não chegaria a cem. Os protestos foram enormes. "Deixaram a sociedade civil de fora do encontro", se lia em cartazes colados pelo Bella Center.

A organização da conferência expediu 45 mil credenciais, mesmo sabendo que a capacidade do Bella Center era para 15 mil pessoas.

- Eu sou o responsável - admitiu o secretárioexecutivo da Convenção das Nações Unidas para Mudanças Climáticas, Yvo de Boer. - Achei que nem todos viriam todos os dias, que haveria muita gente entrando e saindo.

Uma carta assinada por 50 ONGs em protesto foi distribuída ontem. "É inaceitável que os observadores da sociedade civil tenham acesso limitado neste fórum", sustenta a carta. "As negociações têm profundo impacto na vida de milhares de pessoas comuns. Sua participação nas negociações como membros da sociedade civil é absolutamente crucial para garantir que o resultado de Copenhague seja justo e eficiente." (R.J.)

O Globo, 18/12/2009, Ciência, p. 49

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