O Globo, Sociedade, p. 21
03 de Jan de 2018
Atividade do homem põe ecossistemas em risco
Desmatamento acelerado ameaça Cerrado, Caatinga e Pampas, que não têm proteção regulamentada
RENATO GRANDELLE
renatograndelle@oglobo.com.br
Entre diversas atividades humanas que degradam o meio ambiente, uma é a principal ameaça a três dos principais patrimônios naturais brasileiros: o desmatamento. A derrubada da vegetação para a expansão agrícola, a abertura de estradas ou exploração de madeira é de longe a protagonista em comum na destruição do Cerrado, da Caatinga e dos Pampas, que somam 35% do território brasileiro. Como O GLOBO mostrou ontem, os três biomas sofrem com falta de regulamentação e monitoramento. Diferentemente da Mata Atlântica e da Amazônia, eles não têm o reconhecimento de ecossistemas diferenciados, protegidos de atividades econômicas predatórias. Enquanto projetos de lei patinam no Congresso, especialistas alertam para a necessidade de regulamentar terras e traçar projetos para o manejo sustentável dessas áreas.
Tiago Reis, do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), observa que o desmatamento no Cerrado, no centro do país, avançou cinco vezes mais rápido do que na Floresta Amazônica entre 2013 e 2015. A devastação ameaça o equilíbrio ambiental que beneficia a produção agrícola no Brasil, já que a perda da vegetação nativa compromete as chuvas.
- Proteger o Cerrado não inviabiliza as atividades econômicas. Mas é preciso reorganizar a região - pondera. - Existem 2,5 milhões de hectares em áreas públicas não-destinadas; são terra de ninguém, ou seja, territórios da União e dos estados que estão abertos à grilagem. Devemos abrigar neles as populações tradicionais, expandir a soja para locais de pasto subutilizados e levar os bois para pontos que não são propícios para a agricultura.
Assim como o Cerrado, os Pampas, no extremo sul do país, são conhecidos pelos campos abertos. Mas no bioma gaúcho, tomado pela vegetação de gramíneas, predomina a confusão sobre o que é área verde e o que de fato foi desmatado.
Coordenador do Centro de Pesquisas e Conservação da Natureza Pró-Mata, vinculado ao Instituto de Meio Ambiente da PUC-RS, Pedro de Abreu Ferreira defende políticas públicas para o combate à devastação do bioma e parcerias internacionais que viabilizem exploração sustentável.
DESCONHECIMENTO TÉCNICO
Em 2008, apenas 36% dos Pampas mantinham a cobertura vegetal original. As culturas agrícolas tomaram porções consideráveis do território.
- Falta conhecimento técnico sobre as características básicas dos Pampas - lamenta Ferreira. - Infelizmente o ativismo ambiental é pouco ouvido no país, então é provável que a PEC que reconheceria os Pampas como um patrimônio não seja aprovada.
A riqueza da biodiversidade é uma característica surpreendente da Caatinga, que é um das mais ricas florestas secas do planeta. Segundo José Maria Cardoso da Silva, professor do Departamento de Geografia da Universidade de Miami, 63% da vegetação do bioma estão seriamente modificados por atividades humanas, como queimadas, desmatamento e a construção de estradas.
- Durante muito tempo pensou-se que essa região é pobre em espécies, mas isso é pura ilusão - diz Silva. - A fauna e a flora são ricas e diversificadas. Infelizmente tudo o que sobrou está dividido em pequenas manchas isoladas. Em uma situação como essa as unidades de conservação são fundamentais para manter o que resta. O governo federal chegou a propor um corredor ecológico com mais de 11 milhões de hectares entre as reservas. Era uma ideia bonita, mas que desapareceu com o tempo.
Cardoso destaca que a Caatinga é lar de uma população de baixa renda que depende muito dos recursos naturais. As mudanças climáticas aumentarão a vulnerabilidade dos mais pobres, já que, segundo prognósticos, existe a possibilidade de que quase 90% da região seja transformada em deserto nas próximas décadas.
- Fazer a transição de uma Caatinga degradada e empobrecida para uma Caatinga sustentável e resiliente exigirá um esforço enorme da sociedade - diz o pesquisador.
O Globo, 03/01/2018, Sociedade, p. 21
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