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Aterro Montovani: PF apura contaminação

JB, País, p. A6
10 de Out de 2004

Aterro Montovani: PF apura contaminação

Hugo Marques

A chacareira Cleide Setin, de 30 anos de idade, tem sinusite, rinite, dores nas pernas e fraqueza. Dois irmãos de Cleide ficaram estéreis e três sobrinhos estão com bronquite. A família Setin planta verduras em Santo Antônio de Posse (SP). 0 sítio fica próximo ao Aterro Mantovani, onde 60 indústrias depositaram lixo tóxico por três décadas. Esta semana, a Polícia Federal instaura inquérito para investigar a contaminação do meio ambiente na região.
- A água que vem do subsolo também está contaminada. Você sente o fedor quando tira da cisterna, que tem uns 12 metros de profundidade -conta Cleide.
A contaminação foi constatada em laudos técnicos encomendados pela Defensoria da Água, organização que tem em seu conselho representantes do Ministério Público, CNBB, UFRJ e Cáritas. Em algumas chácaras, as análises mostram quantidade de chumbo 120 vezes maior que o permitido na água. A extensão da contaminação nos municípios próximos não foi levantada.As frutas e verduras produzidas nas áreas em volta do aterro são vendidas na central de abastecimento de Campinas.
Nos últimos 2 anos, quando a contaminação das águas do subsolo ficou visível e aumentou o mau cheiro, os moradores da região começaram a relacionar seus males com os produtos tóxicos do aterro. O lixo tóxico começou a ser lançado no Aterro Mantovani em 1974. Oficialmente, o aterro foi fechado em 1987, mas testemunhas que serão ouvidas pelo MP e pela PF confirmaram à Defensoria que o lixo continuou sendo despejado até 2001. A Defensoria ouviu moradores, encomendou análises e entregou um dossiê ao MP de Campinas.
Dia 20, as procuradoras Letícia Pohl e Silvana Mocellin instauraram inquérito civil público para recuperar a área degradada e indenizar os danos causados por pessoas físicas e jurídicas. A documentação reunida pelo MP mostra que a contaminação atingiu o córrego Pirapitingui, até as margens do rio Camanducaia.
- Vamos apurar a responsabilidade das empresas que jogaram material no aterro - afirma Letícia.
A procuradora enviou representação à área criminal do MP para investigar o caso e a Delegacia do Meio Ambiente da PF em São Paulo informou que a investigação começa esta semana. Além das diligências e pedidos de laudos técnicos, a PF vai chamar os diretores das empresas responsáveis pela poluição.
0 proprietário da área onde está o aterro, Valdemar Mantovani, não conseguiu recompor o meio ambiente, mesmo após decisão da Justiça. Em 2001, o MP em São Paulo assinou um termo de compromisso com as empresas responsáveis pelo despejo de 300 mil toneladas de lixo tóxico no aterro, para medidas emergenciais de despoluição e recuperação da área. 0 acordo não diminuiu a contaminação em volta do aterro.

JB, 10/10/2004, País, p. A6

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