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Ataque ao terrorismo e defesa da natureza

O Globo, Rio, p. 22
09 de Jul de 2005

Ataque ao terrorismo e defesa da natureza
Escritora inglesa lê texto condenando atentados em Londres e critica lançamento de lama na Baía de Paraty

A inglesa Jeannete Winterson levou ontem para a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) mais do que uma tradicional palestra sobre arte e natureza, como estava previsto. Falando de pé, em tom inflamado, a escritora leu um texto que havia modificado inteiramente depois dos atentados em Londres na quinta-feira, a fim de inserir críticas ao terrorismo, e ainda fez intervenções improvisadas para protestar contra os planos da Petrobras de lançar lama na Baía de Paraty. O imbróglio com a Petrobras e o estaleiro Brasfel, contratado pela estatal, está mobilizando a cidade, porque, segundo autoridades locais, o ecossistema da área pode ser ameaçado.
- Vocês aqui em Paraty estão com um problema. Vamos usar a nossa imaginação, temos de nos levantar, dizer não à Petrobras e ajudá-los a encontrar uma alternativa. Aqui vocês já têm uma nova fonte de renda e emprego: este festival, esta celebração da imaginação. Vamos levar isso mais longe e usar este festival para fazer a Petrobras mudar de opinião. Não joguem o lixo no mar - afirmou Jeannete, que, ao fim de sua palestra, foi a única até agora no festival a ser aplaudida de pé.
Na segunda-feira, será realizada uma audiência pública na Casa de Cultura da cidade com o estaleiro Brasfel para discutir a questão.
'Arte é consolação, mas é também confrontação'
Para transportar de Angra dos Reis até Campos uma plataforma que construiu sob encomenda da Petrobras, o estaleiro precisa fazer uma dragagem no mar, retirando toneladas de lama, a fim de criar espaço para os flutuadores que vão permitir o transporte. Só que a empresa decidiu jogar a lama na Baía de Paraty.
- Eles dizem que não existe o menor risco de um impacto ambiental negativo para a cidade, mas nós sabemos que, se a operação não der certo, a pesca, o mergulho e algumas praias de Paraty podem ser arruinados - alertou a vereadora Leila do PT.
Jeannete fez um discurso político e crítico em relação a instituições como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional, e defendeu o papel da arte como algo transformador da realidade. Também citou positivamente a ação dos governos de Fernando Henrique Cardoso e de Lula no cenário internacional.
- Arte é consolação, mas é também confrontação. Arte é troca: o que se dá, tem-se de volta - afirmou a escritora, que, assim como muitos outros convidados estrangeiros, elogiou as belezas da cidade.
- Se não fosse o mau tempo, tudo estaria perfeito aqui em Paraty - afirmou Salman Rushdie, que hoje lançará na cidade seu mais recente romance, "Shalimar, o equilibrista".
Livro de Rushdie será lançado antes no Brasil
Rushdie está lançando o romance no Brasil antes de a obra chegar a livrarias americanas e inglesas.
- É uma maneira muito divertida de lançar o livro, muito mais que o tour americano que temos de fazer para a divulgação. Temos de ir toda noite a uma cidade diferente e, no fim, já estamos odiando o livro - afirmou Rushdie.
Assim como Jeannete, o escritor, que tem assistido a debates na Tenda dos Autores e passeado pela cidade, também defendeu a liberdade de expressão, sobretudo quando se é tolhido, como aconteceu com ele nos anos em que vivia sob a ameaça da sentença de morte proferida por Khomeini.
- Quando dizem para você não escrever, aí sim é que se deve escrever. Nunca parei de escrever. Liberdade todos nós sabemos o que é quando ela nos é retirada - afirmou o escritor.

O Globo, 09/07/2005, p. 22

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