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Atala lança manifesto culinário

OESP, Paladar, p. D2
Autor: ATALA, Alex; GIL, Bela
11 de Dez de 2014

Atala lança manifesto culinário

Por Jose Orenstein

Na semana passada, o chef Alex Atala lançou, por meio do Instituto ATÁ, que ele criou, o movimento Gastronomia é Cultura. Nas redes sociais, a campanha foi rapidamente replicada: até o início da tarde de ontem, havia mais de 3 mil fotos publicadas no Instagram com a hashtag #eucomocultura.
Mas o que quer o movimento? Ao menos neste primeiro momento, a "aprovação do projeto de lei que visa a reconhecer oficialmente a gastronomia brasileira como manifestação cultural", como diz o texto no site da campanha. O projeto em questão é o 6.562, de 2013, do deputado Gabriel Guimarães (PT-MG), que pede que "eventos, pesquisas, publicações, criação e manutenção de acervos relativos à gastronomia brasileira" possam ser financiados com dinheiro dedutível de imposto de renda, via Lei Rouanet.
O movimento capitaneado por Atala quer reunir 1 milhão de assinaturas para pressionar o Congresso a aprovar a emenda. Na semana passada, o projeto de lei teve parecer favorável do deputado Jean Wyllys, da Comissão de Cultura da Câmara. Antes que se atirem pedras no projeto, Atala afirma que o movimento vai muito além da inclusão na Lei Rouanet. "Nossa causa é maior. Queremos reconhecimento oficial de que a gastronomia é cultura num sentido amplo, e deve ser objeto de políticas públicas", diz. O chef defende também a inclusão de aulas sobre alimentação na grade escolar - no que conta com apoio da nutricionista Bela Gil - e o reconhecimento de processos e produtos que não se encaixam nos padrões das leis sanitárias vigentes.
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Mas a inclusão da gastronomia nos mecanismos de fomento à cultura é inevitavelmente assunto que levanta polêmica e desconfiança no meio cultural. "Será mais um puxadinho danoso para a velha e maltratada Lei Rouanet", diz Paulo Pélico, produtor cultural de teatro e cinema, e estudioso das leis de incentivo fiscal no País. "O projeto vem no vácuo da recente inclusão da moda na lei. É uma tremenda distorção. E, mais ainda, é desnecessário." Isso porque, segundo Pélico, um projeto cultural que se refira à gastronomia já pode ser aprovado no âmbito da Lei Rouanet.
"Claro que gastronomia é cultura, mas pela sua dimensão histórica, da memória e antropológica. Um festival ou exposição que valorize isso deve - e já pode - ser contemplado pela lei. Mas não o lado mais comercial da gastronomia. Chefs não são artistas - e aqui não vai nenhum demérito", diz Pélico.
A inclusão de projetos ligados à moda na Lei Rouanet, na gestão de Marta Suplicy no Ministério da Cultura (de 2012 a 2014), gerou muita discussão. Em agosto de 2013, o estilista Pedro Lourenço havia recebido autorização para captar até R$ 2,8 milhões para um desfile em Paris. A Comissão Nacional de Incentivo à Cultura (Cnic), órgão do ministério que avalia projetos, havia recomendado a rejeição da proposta. Mas Marta decidiu autorizar a captação. A grita foi tanta que o estilista acabou desistindo do desfile.
Atala, no entanto, diz não temer as críticas sobre a inclusão da gastronomia na Lei Rouanet - e repete que seu movimento não se restringe a isso.
O ex-secretário de fomento do Ministério da Cultura Henilton Menezes também afirma que, na forma atual, projetos ligados à gastronomia já podem receber recursos via Lei Rouanet. "Não conheço em detalhes o movimento, mas me parece uma legítima vontade de afirmação do setor", diz Henilton, que lembra de quando chegou ao ministério o projeto do Comida di Buteco, que promovia concurso de petiscos entre bares de Belo Horizonte. "Rejeitamos porque era mais promoção dos bares do que da cultura."
Nossa parte
O Paladar entende que gastronomia é parte fundamental da cultura brasileira - em 2011, defendemos a preservação de pratos e práticas culinárias em extinção e, em 2012, lançamos manifesto, assinado por chefs e outros milhares de pessoas

Gastronomia é cultura

Por Redação Paladar
Por Alex Atala e Bela Gil*

Já desenvolvemos vários projetos ligados à cadeia produtiva do alimento, mas era preciso fazer mais. Daí a ideia da campanha "Gastronomia é Cultura" www.eucomocultura.com.br), organizada pelo Instituto ATÁ. Como passo inicial, nos baseamos no Projeto de Lei 6562/13, que tem como objetivo inserir a gastronomia entre os segmentos contemplados pela Lei Rouanet. Com esse reconhecimento legítimo, será possível proteger e incentivar pesquisas de ingredientes e receitas, acervos sobre o tema, publicação de estudos e livros e colaborar para que comunidades sobrevivam do que plantam e/ou fabricam, mostrando ao Brasil o potencial dos alimentos nativos.
A campanha envolve de agricultores e fazendeiros a populações indígenas, comunidades ribeirinhas e caiçaras. E trará benefício para toda a cadeia. Proteger a natureza não é só cuidar dos rios, mares e florestas. Também é preciso cuidar do homem. Ele também é natureza. E a reestruturação da cadeia do alimento é o mais importante instrumento nesse sentido. Músicos, artistas plásticos, antropólogos, biólogos, atores, atletas, entre outros, já apoiam a campanha por compreenderem a importância desse movimento.
A consciência sobre o alimento e seu valor cultural precisa começar cedo, e incluir na educação primária os estudos sobre culinária nas escolas é fundamental. Instinto necessário para a sobrevivência, respeitar o ingrediente é um saber que está sendo perdido. O ATÁ pretende levar às crianças conhecimento sobre o que observam no prato todos os dias. Outro tema importante são os orgânicos e a batalha por uma agricultura mais sustentável - alguns defensivos químicos proibidos mundialmente ainda são usados no Brasil.
Como diz o amigo biólogo Valdely Kinupp, a agrobiodiversidade quando sai da boca não tem valor, quando entra na boca ganha valor. Precisamos rever nossa relação com o alimento. Da agricultura familiar à grande empresa, das escolas às nossas casas, dos supermercados aos restaurantes. Qual cenário queremos entregar para as futuras gerações? Quais tradições queremos passar para a frente? Essas, sim, são as razões maiores do Instituto ATÁ e da campanha Gastronomia é Cultura.
*Alex Atala é chef e membro do instituto ATÁ; Bela Gil é nutricionista e especialista em culinária natural.

OESP, 11/12/2014, Paladar, p. D2

http://blogs.estadao.com.br/paladar/atala-lanca-manifesto-culinario/

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