Douradosagora.com - http://www.douradosagora.com.br/
Autor: Wilson Matos da Silva
23 de Jun de 2009
Nos dias, meses e anos que se seguiram ao fatídico encontro dos nossos povos indígenas com os inóspitos visitantes portugueses, por ocasião do \"descobrimento\" do Brasil, nossos povos vêm sofrendo massacres sucessivos.
Os povos indígenas já enfrentaram ao longo desses 5009 de invasão colonialista, vários tipos de massacre: o físico (genocídio); o cultural (etnocídio); a discriminação racial (sem alma); e nos dias atuais a DISCRIMINAÇÂO LEGAL.
Esta última drástica e de conseqüências desastrosa e imprevisível! Centenas de indígenas se encontram hoje cumprido pena nas penitenciárias do Estado, serão no futuro, ao retornar ao seio da comunidade, agentes de destruição da própria cultura, já que suas \"formações\" naquela faculdade do crime ultrapassam quase sempre os dez anos de reclusão, trazem consigo outros costumes.
Veja o relato de Mem de Sá, descrevendo seu feito \"heróico\" no assassinato de povos inteiros em carta por ele enviada ao rei de Portugal, de 31/3/1560
\"Na noite em que entrei em Ilhéus fui a pé dar em uma aldeia que estava a sete léguas da vila em um alto pequeno, todo cercado de água, ao redor de lagoas. E a destruí e matei todos os que quiseram resistir e na vinda vim queimando e destruindo todas as aldeias que ficaram atrás. Porque o gentio se ajuntou e me veio seguindo ao longo da praia, lhes fiz algumas ciladas, onde os cerquei e os forcei a lançarem-se a nado ao mar de costa [muito] brava.
Mandei outros índios atrás deles, que os seguiram perto de duas léguas e lá no mar pelejaram de maneira que nenhum tupinikim ficou vivo. E os trouxeram a terra e os puseram ao longo da praia em ordem [de forma] que tomavam os corpos [alinhados] perto de uma légua.
Fiz outras muitas saídas em que destruí muitas aldeias fortes e pelejei com eles outras vezes em que foram muitos mortos e feridos e já não ousavam estar senão pelos montes e brenhas onde matavam cães e galos e, constrangidos da necessidade, vieram a pedir misericórdia e lhes dei pazes com condição que haviam de ser vassalos de Sua Alteza [o Rei] e pagar tributos e tornar a fazer os engenhos. Tudo aceitaram e fizeram e ficou a terra pacífica em espaço de trinta dias. Isto fiz à minha custa dando mesada a toda pessoa honrada.\" In Silva Campos. Crônica da capitania de São Jorge de Ilhéus. Rio de Janeiro, MEC/Conselho Federal de Cultura, 1981. p. 44).
Foi assim que se naturalizou um sistema de poder que afirma a liberdade e a igualdade e pratica a opressão e a desigualdade. A escravidão índia, outrora desabrida com os recursos do aparato sádico da força bruta, hoje se traveste com requintes mais sutis, mas nem por isso menos sombrio. Culturalmente amordaçados, vivemos hoje a pior das vidas; não somos visto; não somos ouvido; não somos lembrado; não somos cidadãos!!!
Séculos de racionalismo embotado os fazem crer que mais evoluídos são aqueles que dominam a tecnologia da morte aos que propaga a cultura da vida como os nossos povos. Pensam serem homens tecnologicamente superiores, portanto titulares da dominação de culturas e povos. \"Neste contexto, o índio é escravo da morte, mesmo sendo propagandista da vida.\"
Recusamos a escravidão do desaparecimento da vida, na vida de nossos povos. Olhamos para frente e não vemos futuro. Olhamos para os lados, pobreza, indigência, miséria, confinamento, exploração, fome, alcoolismo, desemprego, aculturamento, prostituição, preconceito. Olhamos para trás e recordamos, pela oralidade de nossa história, tempos idos em que éramos gente, pois toda gente tem o direito de viver.
Os \"civilizados\" irascíveis e embrutecidos, preocupados com o umbigo de uma civilização decadente e assassina, aprendiz da guerra, apologista da insensibilidade ao próximo. Nós os Índios choramos todos os dias nossos mortos impunemente! Nossos prédios são árvores. Quem são os nossos assassinos? Por que choram os mortos do \"branco\" e ignoram os nossos mortos? Por que sequer estranham o fato de CRIANÇAS ÍNDIAS, ADOLESCENTES COMETEREM SUICÍDIO? CRIANÇAS CEIFANDO A VIDA DE TANTA TRISTEZA, quando não são flageladas pela FOME...
Conter essas práticas maléficas é um desafio a ser perseguido por todos! Índios e não índios, principalmente, aqueles que se dispõe a trabalhar para os índios e não com os índios, como costumam dizer!
Os Não-indios precisam educar os seus espíritos para aprender com nós os índios que a vida é a imanência da natureza, e, portanto não vale a pena ser vivida a não ser com paz, liberdade e justiça.
* É Índio residente na Aldeia Jaguapirú, Presidente da (CEAI OAB/MS), e Advogado diretor Regional do ODIN/MS (Observatório Nacional de advogados Indígenas ). www.matosadv@yahoo.com.br
As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.