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Assassino de Apoena ficará três anos detido

O Globo, O País, p. 10
16 de Nov de 2004

Assassino de Apoena ficará três anos detido
Sentença foi dada a menor de 17 anos que confessou ter matado o sertanista no mês passado, em Rondônia

O juiz Ênio Salvador Vaz, da Vara do Juizado da Infância e da Juventude da Comarca de Porto Velho, sentenciou o adolescente que assassinou o ex-presidente da Funai José Apoena Soares de Meireles, a permanecer por até três anos num centro de custódia da capital do estado. A medida é a máxima prevista pelo Estatuto da Criança e da Juventude. O assassino tem 17 anos de idade.
Apoena foi morto por dois tiros no dia 9 do mês passado, durante assalto a uma agência do Banco do Brasil, quando retirava dinheiro de um caixa eletrônico. Segundo a polícia de Rondônia, o adolescente confessou o crime, quatro dias depois do assassinato.
Ele havia sido reconhecido por Cleonice Alves Mansur, funcionária da Funai, que estava com o sertanista no banco. O adolescente é estudante e filho de uma família de classe média. Não tinha antecedentes criminais.
Ligações de celular levaram a polícia ao criminoso
A Polícia Civil chegou ao adolescente ao rastrear os extratos de ligações feitas pelo assassino com o telefone celular do sertanista, roubado durante o assalto. Posteriormente, o aparelho foi vendido a duas pessoas, que a polícia localizou e deteve pelo crime de receptação. Ainda em outubro, depois de ter sua prisão decretada pela juíza Márcia Cristina, da Vara da Infância e da Juventude, ele chegou a ser liberado pelo juiz Léo Fachin, sob o argumento de que a prisão não fora executada em flagrante. O promotor Valdemir de Jesus Ferreira recorreu da decisão. Para o juiz, o adolescente poderia dar explicações à Justiça em liberdade e não em cárcere privado no centro de reabilitação para menores infratores”.
À época, o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, ao se pronunciar sobre o assassinato, chegou a afirmar que era preciso implementar a reforma do Poder Judiciário.
— Precisamos de um Poder Judiciário mais ágil — disse o ministro.
Antes de a polícia de Rondônia chegar ao assassino, houve especulações quanto ao crime e sua motivação, devido aos conflitos agrários e de mineração em áreas indígenas. Mas Tainá, filha do sertanista, dissera não acreditar nas especulações. Ela veio da Suíça, onde vive, para o enterro de Apoena, realizado no cemitério do Caju, no Rio.
Ela informou à imprensa, durante o velório, que seu pai lhe dissera que havia se desfeito das armas que possuía, entregando-as à campanha do governo federal pelo desarmamento.
— Um homem que estaria sendo ameaçado de morte não entregaria suas armas. Ele não falou que estava sendo ameaçado — disse ela.
Apoena trabalhou na reserva dos cintas-largas
A Polícia Federal chegou a considerar a hipótese de o crime ter sido cometido como vingança. Apoena trabalhou na Reserva Roosevelt, dos índios cintas-largas, coordenando uma investigação sobre o assassinato de garimpeiros, em abril deste ano. Ele foi o primeiro sertanista a contactar os cintas-largas.
José Apoena Soares de Meireles tinha 55 anos. Era filho do também sertanista Francisco Meirelles. Ele nasceu numa aldeia xavante no Mato Grosso e foi batizado em homenagem a um líder indígena. Três índios xavantes compareceram ao enterro do sertanista.
Apoena já havia se aposentado na Funai, mas retornara ao trabalho para coordenar a atuação da fundação no estado de Rondônia.
A sentença do adolescente será executada pela Fundação de Assistência Social do Estado de Rondônia, que terá de apresentará relatórios bimestrais ao juiz.

O Globo,16/11/2004, O País, p. 10

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