O Globo, Opinião, p. 7
Autor: SILVA, Othon Luiz Pinheiro da
18 de Dez de 2007
Arroz-tropeiro energético
Othon Luiz Pinheiro da Silva
Os tropeiros têm vida árdua. Suportam intempéries e sabem que, embora o arroz seja mais barato do que a carne-seca, não é possível satisfazer as suas necessidades orgânicas comendo somente arroz. Por isso, seu prato típico tem vários ingredientes.
O recente resultado do leilão da usina hidrelétrica de Santo Antônio, no Rio Madeira, cujo lance vencedor foi de R$ 78,89 por megawatthora, fez com que os antinucleares de passaporte ou carteirinha reforçassem sua cantilena sobre os custos das usinas nucleares.
Isto pode ser convincente para aqueles que nada entendem sobre planejamento energético ou não têm tempo para uma reflexão fundamentada sobre a necessidade de segurança de suprimento de eletricidade. À semelhança do trabalho do tropeiro, isto exigiria o preparo para longas jornadas, sujeito às intempéries climáticas.
A hidreletricidade é o arroz do arroz-tropeiro: são necessários outros ingredientes para completá-lo e, assim, garantir confiabilidade ao Sistema Elétrico Interligado Nacional. Note-se que o menor preço do megawatt-hora em relação às outras termoelétricas fez com que a energia nuclear tenha sido a segunda maior fonte brasileira de geração elétrica em 2006.
A energia elétrica é diretamente ligada à qualidade de vida e à produtividade da sociedade moderna. Como qualquer outro consumível, ela requer produção, estocagem, transporte e distribuição.
As exigências ambientais fazem com que as importantes e indispensáveis hidrelétricas, como as do Rio Madeira, sejam construídas sem os grandes reservatórios para armazenagem de água que caracterizam as usinas brasileiras mais antigas. Santo Antonio e Jirau muito contribuirão para a produção de energia, mas, devido à sua característica de operação praticamente a "fiod'água", não ampliarão a capacidade de estocagem, indispensável ao sistema para os períodos de seca.
A afluência ou vazão dos rios varia ao longo de cada ano e de ano para ano em função dos ciclos climáticos plurianuais. A afluência dos rios das regiões Norte, Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste seguem aproximadamente o mesmo regime. Apenas o Sul do país tem um comportamento diferente e aleatório de precipitação hidrológica. Isto faz com que as trocas entre regiões ajudem, mas não resolvam completamente, o problema de garantia de suprimento do sistema.
A nossa estocagem hídrica deixou de crescer a partir da década de 1980, o que muito contribuiu para o "apagão" de 2001. As áreas do nosso país com topografia adequada à construção de hidrelétricas com reservatórios e que já tenham sido desflorestadas pela agricultura ou pecuária já foram praticamente todas aproveitadas. As futuras hidrelétricas serão similares às do Rio Madeira: vão ampliar a produção, mas "agravarão" o problema da estocagem, uma vez que o consumo de eletricidade no Brasil tende a continuar se expandindo.
A única forma de garantir a continuidade e a segurança de fornecimento de eletricidade é priorizar a energia hídrica, que é limpa, barata e renovável, e usar as termelétricas para compensar os humores da natureza. O combustível das termelétricas funcionará como estoque de energia complementar aos reservatórios.
Alguns ambientalistas bem intencionados, porém jejunos em planejamento elétrico e econômico, apresentam a energia solar e eólica como a grande solução para atender ao crescimento da demanda. Esquecem-se os neófitos de que essas formas de energia, de forma similar à hídrica, embora possam e devam contribuir para a produção, também "agravam" o problema da estocagem.
As usinas termelétricas, embora tendam a produzir energia a preços maiores que as hidrelétricas, atuam como elemento regulador, assegurando a indispensável garantia de fornecimento, que requer a composição de um "portfólio" de opções.
Antes da descoberta do campo de Tupi, as reservas medidas de energia sob a forma de urânio eram maiores do que as de óleo e gás juntas. Além disso, a principal aplicação do urânio é gerar energia elétrica em centrais fixas, enquanto gás e petróleo têm outras aplicações mais nobres nos transportes e na indústria. Esse "portfólio", portanto, não pode deixar de considerar a contribuição da energia nuclear.
O arroz-tropeiro energético nacional deverá conter, além dos ingredientes principais (hidrelétricas e nucleares), temperos regionais: carvão no Sul, gás natural no Sudeste, por exemplo. Só assim os tropeiros, que somos todos nós, brasileiros, poderão ter suas necessidades realmente atendidas.
Othon Luiz Pinheiro da Silva é diretor presidente da Eletronuclear.
O Globo, 18/12/2007, Opinião, p. 7
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