GM, Capa e Agribusiness, p. A1 e B12
20 de Jul de 2004
Arrendamento de terra é novo filão da Brascan
Raymundo de Oliveira
De São Paulo
O grupo canadense em processo de reestruturação. Único país do mundo onde o grupo canadense Brascan possui atividades do chamado agronegócio, o Brasil agora também é pioneiro no casamento dos negócios em agricultura e pecuária e imobiliários do grupo, que acaba de passar por uma reestruturação.
Dono de 100 mil hectares de áreas rurais no Brasil, a filosofia que norteia a aquisição de terras pelo grupo será a valorização imobiliária. Além disso, cultiva árvores para reflorestamento, produz soja e novilhos precoces para o mercado interno e para exportação. A geração de energia elétrica é outro foco considerado prioritário pelo grupo.
Dentro dessa estratégia, as terras do grupo podem, por exemplo, ser arrendadas por 20 anos para a implantação de uma usina de açúcar e de álcool e, no final do contrato, ter o arrendamento prorrogado, caso haja interesse, ou voltar para o controle operacional da Brascan, só que com maior valorização imobiliária, em razão das melhorias feitas no local e do desenvolvimento da região onde está localizada a fazenda.
Segundo o presidente da Brascan no Brasil, Marcelo Marinho, a recente reestruturação do grupo no País teve como objetivo valorizar setores que não recebiam tanta atenção por parte dos executivos, como o Banco Brascan e a Imobiliária Brascan, principais empresas da holding no mercado brasileiro. Após a reestruturação, diz Marinho, "nosso foco principal no País continua ser as áreas financeira e imobiliária. Mas agora também priorizamos os setores de energia elétrica, que, junto com a imobiliária, passou a ser o principal objetivo da Brascan Brasil. Priorizamos igualmente os negócios imobiliários no mercado rural, além de aumentarmos a atuação no segmento de química fina e seguros, por exemplo".
Depois do processo de reestruturação, a holding foi dividida em Banco Brascan e Brascan Brasil, que congrega a Cesbra (extração de cassiterita e produção de estanho), a Comfloresta (reflorestamento nos estados do Paraná e Santa Catarina), a Fazendas Bartira (pecuária), a Brascan Energética, a Brascan Corretora de Seguros e a Brascan Imobiliária. Em seguros, a Brascan antes direcionava sua atuação às empresas do próprio grupo e depois da reintegração passou a atuar no mercado geral.
Grupo canadense prevê investimentos de R$ 120 milhões neste ano em energia elétrica. No segmento de energia elétrica a holding voltou a atuar em geração com a compra de pequenas centrais hidrelétricas (PCHs) e tem como meta chegar aos 550 MW, em ativos próprios, até 2008. Em 2004 a previsão da empresa é investir R$ 120 milhões neste setor.
"Na parte imobiliária, nosso foco foi ampliado dos negócios em incorporação e atuação nas áreas urbanas, onde temos uma forte presença nas capitais do Rio de Janeiro e de São Paulo, para o mercado imobiliário rural com as estratégias de arrendamento e parcerias com outros grupos, afirma. Segundo informações de Marcelo Marinho, os investimentos em melhoria genética na pecuária intensiva e nas florestas de pinus na região Sul também tem sido priorizados pelo grupo no Brasil.
De acordo com informações do diretor da área de agribusiness do grupo, Renato Cavalini, o casamento entre agricultura e pecuária com os negócios imobiliários é feito por meio de parcerias.
Usina de açúcar
"Um grande produtor de açúcar e álcool que deseja instalar uma unidade industrial pode arrendar uma área da Brascan e, com isto, não vai precisar gastar com a aquisição de terras sem ter o risco de arrendar uma propriedade com controle familiar e depois ter que paralisar seu negócio por conta de uma disputa judicial entre herdeiros, por exemplo", afirma ele
Terra valorizada
Ao mesmo tempo, conta o executivo, para a Brascan, além do negócio em agricultura propriamente, a empresa também conta a valorização que esta região terá por conta da implantação da usina. "Um negócio deste porte precisa de investimentos em infra-estrutura, como melhoria e construção de estradas, gera empregos e movimenta a economia local, o que proporciona desenvolvimento regional e isto tudo conta na valorização das terras", afirma.
O diretor de agribusiness afirma que, economicamente, as aquisições de novas áreas rurais em regiões muito valorizadas do País, como comprar terras no estado de São Paulo para a pecuária, por exemplo, apresenta baixo índice de retorno - em torno dos 2% ao ano - o que inviabiliza este tipo de negócio pela empresa e direciona a expansão para áreas mais distantes de regiões desenvolvidas, o que vai de encontro à nova estratégia da empresa canadense.
"Nos Estados Unidos, por exemplo, cerca de 60% das áreas usadas no agribusiness são arrendadas e no Brasil este índice ainda é muito pequeno", afirma.
Segundo Cavalini, o grupo Brascan possui atualmente 100 mil hectares de terras no Brasil. Nos estados de Santa Catarina e Paraná a Comfloresta possui 57 mil hectares utilizados nos projetos de reflorestamento. Nas regiões do Oeste paulista, Triângulo Mineiro e Mato Grosso ficam a empresa Fazendas Bartira, controlada pelo grupo desde 1984, e dedicadas à pecuária intensiva, afirma.
As fazendas contam atualmente com 39 mil matrizes e a previsão é atingir 45 mil até o final deste ano. Por ano, as fazendas colocam no mercado 10 mil novilhos, três mil novilhas e outros três mil animais para abate. A estratégia de parcerias com outros produtores é adotada nas fazendas por meio do fornecimento de matrizes com prenhez garantida. "Atualmente são 25 mil unidades", afirma.
Negócios consorciados
Além da valorização imobiliária como meta na hora de decidir para onde ampliar suas fronteiras agrícolas, o potencial de geração hidrelétrica também passou a ser um item considerado nos processos de aquisição e de operação áreas rurais pelo Grupo Brascan no Brasil, segundo informa o executivo.
Central hidrelétrica
De acordo com o diretor, além dos rios e quedas com potencial de implantação de pequenas centrais hidrelétricas (PCHs), a co-geração por biomassa também é levada em conta na estratégia de negócios rurais da holding. "Nós contabilizamos tudo isto, da valorização imobiliária à geração de energia, na hora de definir onde comprar novas terras no Brasil", diz.
O multiaproveitamento das terras também é uma estratégia para evitar problemas na interpretação dos critérios adotados pela legislação brasileira em relação a produtividade e à função social das propriedades rurais na hora de definir desapropriação para reforma agrária, por exemplo.
"Nossos índices de produtividade são altos em todas as atividades de agribusiness que atuamos, mas há critérios subjetivos em relação à função social das propriedades, por exemplo, que é difícil mensurar", afirma Renato Cavalini.
Segundo o executivo, com a adoção de várias outras utilidades e negócios agregados ao agribusiness o grupo também fica mais longe de uma eventual interpretação desfavorável por parte da Justiça em relação à reforma agrária.
GM, 20/07/2004, Capa e Agribusiness, p. A1 e B12
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