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Arikâ Xehitâ-ha velho guerreiro Ofaié

Jornal Dia a Dia- http://jornaldiadia.com.br
14 de dez de 2016

"Os passarinhos não cantam mais porque estão foragidos de medo: barulho de maquinários que destroem sem piedade. Fogem sem rumo deixando seus filhotinhos para trás. Perdem as suas vidas sem erro nenhum. Meu Deus, quanta ganância por injustiça! E o índio também sofre o mesmo regime. Quando luta pelo seu direito encontra a desgraça imperfeita, criada pelo inimigo desconhecido. Que pensa o homem? Esquece a própria vida, esquece os próprios filhos quando sai para lugares estranhos. Mexer com o índio que nada pensa porque está na sua terra, no seu ranchinho, mesmo sendo esquecido pelas autoridades competentes, que fingem não saber o problema. Se a decisão chegasse com força o índio estaria tranquilo, ia trabalhar mais sossegado, sem desconfiança nenhuma. O índio espera esta oportunidade".

Este poema (Duas Vítimas) é de autoria de um jovem índio Ofaié chamado Xehitâ-ha, nome indígena que recebeu Ataíde Francisco Rodrigues antes de ser batizado pelos brasileiros, no dia 15 de abril de 1957. Membro da comunidade indígena Ofaié, do tronco macro-jê, descende de uma família de caciques. Antes, porém, era um poeta. Também escritor e líder de seu povo.

Desde jovem dedicou seu trabalho na promoção e defesa da sofrida comunidade a que pertence e a qual ajudou a soerguer-se das cinzas, apontando-lhes uma esperança. Foi muito bem alfabetizado em português, por uma das famílias que, juntamente com outros fazendeiros, acabaram por tomar suas terras. Pode assim, desta forma, através da palavra, falada e escrita, atuar de forma decisiva, levando adiante as aspirações de seu povo. Com a sensibilidade e erudição que lhe foi sempre peculiar, manifestou suas idéias, desenvolveu a poesia, resgatou a história e semeou um rumo para a nação Ofaié.

Na introdução do livro "Ofaié, morte e vida de um povo", editado pelo Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul, em 1996, Xehitâ-ha nos brindou com uma pequena parte da sua produção de escritos paridos dez anos antes, quando o conheci, e que sobreviveu às constantes andanças e perseguições que têm sido vítima estes tradicionais caçadores e coletores da margem direita do rio Paraná e que mantinham sob domínio e controle uma extensa área onde habitavam desde o rio Sucuriú até o rio Ivinhema.

Não poucas vezes seu caderninho de anotações estraviou-se. E, pacientemente, lá o encontramos, sob a lamparina, a escrever tudo de novo, revivendo em silêncio cada momento sofrido nos campos do abandono pelos órgãos oficiais.

Lutador incansável pela sobrevivência de seu povo, sua rica produção de escritos - que hoje integra o acervo do Núcleo de Documentação Histórica Honório de Souza Carneiro, da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Campus de Três Lagoas-MS -, revela o quanto sua luta e seu comprometimento com a luta pela terra ancestral de seu povo marcou a história deste Estado.

De forma admirável, desafia os senhores da terra com seu canto de poesia e dor. Seus relatos, ora em tom áspero e profundo, ora emocionado e pueril, navega entre o lírico e o rasteiro, carregando nas palavras toda a força de sua narrativa.

Sua história, assim como a sobrevivência da língua deste povo, mais do que um lamento a ser ouvido, é o grito, de indignada esperança, que se traduz inteira na carência de solidariedade devida.

Solidariedade que este velho guerreiro, meu irmão que aprendi a admirar e respeitar, no dia de seu passamento, 13 de dezembro de 2016, há de contemplar lá do alto, onde os pássaros voam livres e em paz. E onde o espírito repousa no Agã-chanagui de sua e nossa existência.

Arikâ Kren-graí. Adeus Xehitâ-ha Ofaié.

http://jornaldiadia.com.br/2016/?p=230910

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