OESP, Vida, p. A23-A25
02 de Nov de 2008
Áreas de ponta sofrem falta de pesquisadores
Estudos em áreas como biodiversidade e mudanças climáticas esbarram em déficit de pessoal qualificado
Outro gargalo competitivo que começa a se formar com o aumento dos recursos para ciência e tecnologia no Brasil é a falta de cientistas qualificados em algumas áreas estratégicas de pesquisa para o País, como mudanças climáticas, bioenergia e biodiversidade. À medida que cresceu a economia do País nos últimos anos, cresceu também a demanda por novos conhecimentos e novas tecnologias em todos os setores.
"Mesmo 10 mil doutores por ano é pouco para tudo o que a gente quer fazer", diz o biólogo molecular Marcos Buckeridge, da USP, que trabalha em uma das áreas mais competitivas da ciência brasileira na atualidade: a produção de biocombustíveis.
Ele conta ter dificuldades para encontrar bons cientistas em bioinformática e fisiologia vegetal para trabalhar no Bioen, um projeto de R$ 73 milhões lançado recentemente pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), em parceria com o governo federal, governo de Minas e o setor privado. "Acho que não teremos gente suficiente. Precisamos absorver tudo que temos aqui e, ainda assim, é provável que teremos de trazer gente de fora."
A escassez de cérebros também começa a ser sentida na área de pesquisas climáticas, cruciais para a produção agrícola e a conservação ambiental. Só a Fapesp planeja injetar R$ 100 milhões em estudos sobre mudanças climáticas nos próximos dez anos, mas o especialista Pedro Leite da Silva Dias sente dificuldades para encontrar pesquisadores qualificados no tema, que exige treinamento multidisciplinar extenso.
"Não vamos ter equipes de primeira linha em todas as áreas imediatamente. Entre tomar a decisão de investir numa área e ter pesquisadores formados leva tempo", afirma Dias, diretor do Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC) e professor do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP.
O Brasil tem cerca de 200 mil pesquisadores trabalhando diretamente com pesquisa e desenvolvimento - mais de 70% deles alocados em escolas de ensino superior, segundo dados do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT). É muito pouco, dizem os especialistas.
O País está entre os dez que mais formam doutores no mundo, mas a proporção de titulados em relação à população ainda é baixa, como mostra um estudo recente organizado pelo Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE). Quando se considera o número de doutores por 100 mil habitantes, a posição do País cai de 10o para 27o num grupo de 34 países.
"França e Espanha formam mais ou menos o mesmo número de doutores que nós, com um terço da nossa população", diz o presidente do CNPq, Marco Antônio Zago. "O sistema ainda tem muito espaço para crescer", completa o ministro de Ciência e Tecnologia, Sergio Rezende.
NO LIMITE
Depois de um crescimento explosivo nos últimos 20 anos, a capacidade do sistema acadêmico de formar doutores parece estar perto do limite. Segundo Rezende, o País dificilmente atingirá a meta de formar 16 mil doutores por ano em 2010, como previsto no Plano Nacional de Pós-Graduação. Uma das causas pode ser a falta de estudantes qualificados.
"Há uma certa saturação em termos de matéria-prima e do próprio sistema", diz o ministro. O número de novos alunos matriculados em cursos de doutorado sofreu uma queda brusca entre 2003 e 2004 (de 11.343 para 9.623) e só no ano passado voltou ao patamar dos 11 mil, segundo informações da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), do Ministério da Educação. Os números de 2008 ainda não estão disponíveis.
"Não há dúvida de que a pós-graduação precisa dar um novo salto significativo na formação de doutores, principalmente em áreas aplicadas, como a engenharia", afirma Eduardo Viotti, pesquisador visitante do Centro de Estudos Brasileiros da Universidade Columbia, em Nova York, que foi um dos autores do estudo do CGEE. Historicamente, segundo ele, a expansão do sistema foi no sentido de formar doutores para a própria academia. Não houve ênfase na formação de especialistas com perfil voltado para a inovação tecnológica e a pesquisa de ponta, que é o que o País precisa agora.
CONTRATAÇÃO DIFÍCIL
"Falta muito cientista", reforça o presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Marco Antonio Raupp. "Precisamos formar mais gente e abrir mais vagas de trabalho para que esse novos talentos possam ser contratados. Hoje temos uma evasão de jovens, porque o sistema não consegue absorvê-los."
Segundo o estudo do CGEE, dos 40.271 doutores formados no País entre 1996 e 2003, 64% estavam formalmente empregados em 2004 - a maior parte na área de educação. Falta saber o que aconteceu com os outros 36%.
Segundo Viotti, é provável que muitos estejam fazendo pós-doutorado - ou seja, sobrevivendo à custa de bolsas - ou trabalhando como professor visitante, o que não conta como emprego formal. "Isso não é necessariamente ruim, desde que seja uma fase na vida do profissional", diz. "Mas, se tudo que o pesquisador consegue ao fim do doutorado é um emprego informal, certamente isso compromete a evolução do sistema."
Especialistas defendem não só a abertura de vagas como uma revisão das regras de contratação de pesquisadores, de modo a facilitar a absorção de novos talentos - e eliminar cientistas improdutivos do sistema. H.E.
Fapesp vai em busca de cérebros no exterior
A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) deve colocar nas próximas semanas um anúncio de emprego na revista britânica Nature - uma das mais influentes no mundo da ciência - à procura de pesquisadores estrangeiros interessados em trabalhar com biocombustíveis no Brasil. A proposta é atrair talentos de outros países para reforçar o Programa Fapesp de Pesquisa em Bioenergia (Bioen), lançado em julho, com aporte de R$ 73 milhões.
"É um sinal de que o Brasil está entrando no mercado mundial de ciência e tecnologia para competir pelos melhores pesquisadores disponíveis", diz o pesquisador Marcos Buckeridge, do Instituto de Biociências da USP, um dos coordenadores do programa. "Estamos passando de fornecedores para importadores de cérebros."
Anúncios desse tipo são comuns em revistas especializadas internacionais. Instituições, empresas, Estados e países fazem propaganda de sua infra-estrutura de pesquisa para atrair cientistas de determinadas especialidades. Nos Estados Unidos, grande parte dos pesquisadores é estrangeira.
"Queremos incentivar a internacionalização", diz o diretor científico da Fapesp, Carlos Henrique de Brito Cruz. "Não há razão para o Brasil ficar fora desse mercado. São Paulo tem atrativos de pesquisa que são perfeitamente competitivos com o que é oferecido em outros países."
Tradicionalmente no Brasil, as agências de fomento só fornecem dinheiro para bolsas nominais, em que o aluno já foi selecionado para o projeto. Desde o início do ano, a Fapesp reverteu essa equação: projetos temáticos já incluem dinheiro reservado para bolsas, que pode ser usado como "isca" para atrair pesquisadores de outros países. A única exigência é que o coordenador do projeto publique um anúncio mundial de concorrência para a vaga.
Carência de cientistas é maior na Amazônia
Número pequeno de pesquisadores dificulta estudo da floresta e promoção do desenvolvimento sustentável
Herton Escobar
O lugar onde a escassez de cérebros se apresenta de forma mais grave no Brasil é na Amazônia Legal. A região é formada por nove Estados, cobre metade do território nacional, tem 23,5 milhões de habitantes e abriga a maior reserva de floresta tropical do mundo, mas tem menos doutores empregados do que a Universidade de São Paulo (USP) - cerca de 3.500, comparado aos 5 mil da instituição paulista.
No que depender das universidades locais, esse número não deve mudar tão cedo: segundo o especialista Adalberto Luís Val, a região não forma mais do que 150 doutores por ano. A Amazônia têm o menor número de programas de pós-graduação e a nota média dos cursos na Capes é a mais baixa do País.
"A conseqüência disso é grave", afirma Val, diretor do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), em Manaus. "É impossível suprir a demanda de conhecimento que temos com esse número de pesquisadores." Não é à toa que cerca de 70% dos trabalhos científicos publicados sobre a Amazônia no mundo não têm um único autor com endereço no Brasil. E a maior parte do que é produzido no País vem de instituições do Sul e do Sudeste.
Faltam cérebros para tudo, desde projetar pontes até entender o funcionamento da floresta, do clima, estudar a cultura dos povos tradicionais e, com base nisso tudo, promover o tão sonhado "desenvolvimento sustentável". "Precisamos ampliar drasticamente o número de pesquisadores na Amazônia se quisermos planejar esse desenvolvimento", afirma Val.
BAIXA COMPETITIVIDADE
Os recursos para ciência na região aumentaram nos últimos anos com a descentralização de verbas federais e o fortalecimento das fundações de amparo à pesquisa do Amazonas e do Pará. Difícil mesmo é conseguir bons pesquisadores e bons projetos para gastar o dinheiro.
O Amazonas inteiro - maior Estado do País - tem só quatro pesquisadores de nível 1A ou 1B (os mais altos), na classificação do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), o que limita sua capacidade de competir por recursos em editais federais.
Segundo estudo do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), ligado ao Ministério da Ciência e Tecnologia, o Amazonas formou 73 doutores no período 1996-2003, dos quais 52 ficaram no Estado e 21 foram trabalhar em outros lugares. Acre, Amapá, Maranhão, Rondônia e Roraima não formaram nenhum doutor no período - trouxeram todos de fora.
Val, assim como outras lideranças, pede uma revisão das leis que regem a contratação de pesquisadores, para facilitar a fixação de doutores na região. Hoje, as vagas são poucas e os salários não são competitivos o suficiente para atrair cientistas de outras regiões.
"Só dinheiro não resolve; precisa ter gente e organização", diz o presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Marco Antonio Raupp. "Caso contrário, corre-se o risco de desperdiçar recursos", completa. Ele cita o exemplo do Centro de Biotecnologia da Amazônia (CBA), em Manaus, que nunca conseguiu montar uma equipe completa de cientistas para dar volume e qualidade às pesquisas como se pretendia no projeto.
OESP, 02/11/2008, Vida, p. A23-A25
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