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Aquecimento já chegou às lavouras

OESP, Agrícola, p. 10
27 de Ago de 2008

Aquecimento já chegou às lavouras
Aumento global da temperatura afeta plantios. País pode reverter o quadro com tecnologia já disponível

Tânia Rabello e Fernanda Yoneya

Em meados da década de 90, pesquisadores do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar) começaram a perceber que as lavouras de feijão no Estado já não estavam tão produtivas quanto antes. Onde antes havia alto rendimento, começaram a ocorrer perdas de até 60% da safra. "Altas temperaturas em outubro, na época de florescimento, em sucessivos anos, provocavam o abortamento das flores, impedindo a formação de vagens", conta a pesquisadora em Melhoramento Genético do Iapar, Vania Moda. "As variedades de feijão preto, mais sensíveis ao calor do que as do grupo carioca, sofriam mais perdas", diz.

O café foi outra lavoura que passou por grandes alterações decorrentes de temperaturas acima do normal em regiões tradicionalmente produtoras. "O Estado de São Paulo, que era grande produtor, reduziu em quase 60% sua área plantada com café a partir da década de 90", diz o chefe da Embrapa Informática Agropecuária, Eduardo Delgado Assad. "As regiões mais quentes do Estado foram perdendo café."

Segundo Assad, que também é especialista em agrometeorologia, todas as medições de temperatura mais antigas disponíveis no Brasil indicam a tendência de aumento de temperatura. "As estações de Campinas (SP) e Pelotas (RS), por exemplo, que medem a temperatura há mais de cem anos, mostram essa tendência", diz Assad.

AQUECIMENTO INCONTESTÁVEL

O pesquisador destaca, no trabalho Aquecimento Global e Cenários Futuros da Agricultura Brasileira, feito com o professor Hilton Silveira Pinto, da Universidade de Campinas (Cepagri/Unicamp), e apresentado recentemente em São Paulo (SP), que "com os relatórios do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) de 2001 e 2007 e inúmeros trabalhos científicos produzidos recentemente admitiu-se que a mudança climática é um fato praticamente incontestável e que se deve principalmente à ação humana."

Traça, ainda, cenários para a agricultura brasileira para os anos de 2010, 2020, 2050 e 2070, caso o aquecimento global avance. "Por um lado espera-se que a elevação da temperatura promova um aumento na evapotranspiração vegetal e, conseqüentemente, um aumento na deficiência hídrica, com reflexo direto no crescimento do risco climático (para as lavouras)", relatam. "Por outro, com o aumento das temperaturas ocorrerá redução no risco de geada, o que permitirá que áreas hoje restritas ao cultivo de plantas tropicais sejam favoráveis no futuro."

Segundo os pesquisadores, as culturas que deverão sofrer os maiores impactos são soja, milho e café. Já a cana deve ter expansão de área. "A dinâmica climática deve causar uma migração das culturas adaptadas ao clima tropical para áreas mais ao Sul do País e de altitudes maiores, para compensar a elevação da temperatura", relatam.

DESLOCAMENTO

Assim, poderá haver um deslocamento das culturas de café e cana para áreas de maiores latitudes. O café, por exemplo, poderia voltar ao Paraná, pois o risco de geada seria reduzido. "Em compensação, o aumento da temperatura e da deficiência hídrica deverão expulsar definitivamente a soja do Rio Grande do Sul, Estado que já é considerado de alto risco para a cultura", diz Assad.

"No cenário menos pessimista, o impacto negativo do aquecimento global na produção agrícola deverá ser da ordem de R$ 6,7 bilhões em 2020, chegando a R$ 11,4 bilhões em 2070", relatam os autores do trabalho. "Já no cenário mais pessimista, o impacto negativo no valor da produção deverá ser de R$ 7,4 bilhões em 2020, chegando a R$ 14,9 bilhões em 2070."

O pesquisador adianta, porém, que a atual taxa de emissão de dióxido de carbono na atmosfera - um dos gases do efeito estufa, juntamente com o metano e o óxido nitroso - já está acima da linha do pior cenário previsto no trabalho.

"Para não chegarmos ao pior cenário, temos de adotar, desde já, práticas conservacionistas e de mitigação de gases do efeito estufa na agricultura", diz Assad. "Entre elas, o plantio direto, integração lavoura-pecuária e sistema agrossilvipastoril", diz. "Além, é claro, de acabarmos com as queimadas e o desmatamento", continua. "Só com essas medidas passaríamos de quinto maior emissor de gases do efeito estufa para a 18ª posição", garante Assad.

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OESP, 27/08/2008, Agrícola, p. 10

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