O Globo, Ciência, p. 42
25 de Nov de 2010
Aquecimento global afeta grandes lagos
Renato Grandelle
Os maiores lagos do mundo estão mais quentes - o que pode ser o prenúncio de uma mudança radical em sua população e vegetação, facilitando, por exemplo, a chegada de espécies exóticas. O alerta é dos pesquisadores Philipp Schneider e Simon Hook, da Nasa, que coordenaram o primeiro levantamento sobre o efeito das mudanças climáticas nestes ecossistemas.
A dupla usou dados de satélite para medir a temperatura da superfície de 157 dos maiores lagos do mundo. Segundo o estudo, nos últimos 25 anos, a temperatura desses ecossistemas aumentou em um ritmo maior do que o esperado.
Nos locais contemplados pela pesquisa, os lagos aqueceram, em média, 0,45 grau Celsius por década. Em alguns casos, no entanto, este crescimento foi muito maior: 1 grau Celsius a cada dez anos.
- Nossa análise fornece uma nova e independente fonte de dados para quem estuda o efeito das mudanças climáticas - exaltou Schneider, que publicou um artigo sobre o projeto na revista "Geophysical Research Letters", da União Geofísica Americana.
- Os resultados trazem implicações para o ecossistema dos lagos, que podem ser afetados negativamente mesmo por pequenas variações na temperatura da água.
Estas mudanças aparentemente irrisórias proporcionam fenômenos como a formação de florações de algas, tornando um lago tóxico para peixes. Outro efeito indesejado é a introdução de espécies invasoras, também capazes de mudar o ecossistema local ao adaptarem-se facilmente ao novo meio e levarem vantagem na competição por alimentos contra as espécies nativas.
Temperatura da água aumenta mais que a do ar
Há muito os cientistas usam a temperatura do ar, medida próximo à superfície da Terra, para identificar tendências de aquecimento global.
Recentemente os pesquisadores completaram estes dados com um sistema infravermelho termal obtido por satélite, tendo, assim, uma visão mais completa da mudança de temperaturas na superfície. O sistema comprovou o que a dupla já desconfiava: a tendência de aquecimento é mais grave no Hemisfério Norte do que no resto do planeta.
- As áreas com sinais mais consistentes de aquecimento foram o norte europeu e a China, além da Mongólia e do leste siberiano - revelou Simon Hook ao GLOBO. - As tendências também foram significativas, embora menos fortes, próximo aos mares Negro e Cáspio.
A divisão geográfica das áreas mais e menos quentes não chegou a surpreender os pesquisadores. Ainda assim, o levantamento reservou surpresas à equipe:
- Ficamos admirados de constatar que a temperatura da água está aumentando mais do que a do ar.
O Globo, 25/11/2010, Ciência, p. 42
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