OESP, Geral, p. A11
08 de Jan de 2004
Aquecimento forçará extinção de espécies
Estudo aponta, no prazo de 50 anos, risco para até 37% dos 1.103 animais e plantas avaliados
HERTON ESCOBAR
Milhares de espécies poderão entrar em risco de extinção por causa do aquecimento global nos próximos 50 anos, segundo projeções realizadas por cientistas em várias partes do mundo, incluindo o cerrado brasileiro. A elevação dos termômetros, causada principalmente pelo acúmulo de gases do efeito estufa na atmosfera, forçará a adaptação de plantas e animais a novas condições ambientais. Aquelas populações que não conseguirem se adaptar, nem se deslocar para regiões mais amigáveis, poderão entrar em colapso, segundo os cientistas.
O estudo, publicado hoje da revista Nature, inclui projeções climáticas para a distribuição de 1.103 espécies de fauna e flora na Austrália, Europa, África do Sul, no México e Brasil. Dependendo do grau de aquecimento global previsto, entre 15% e 37% dessas espécies poderão entrar em risco de extinção até 2050, levando em conta apenas mudanças de temperatura e precipitação. Muitas terão seu hábitat perigosamente reduzido; outras perderão totalmente seu parâmetro atual de sobrevivência. Se as projeções forem estendidas para toda a biodiversidade global, isso significaria mais de um milhão de espécies ameaçadas, diz o pesquisador Chris Thomas, da Universidade Leeds, na Inglaterra, que coordenou o trabalho.
"É apenas um palpite, porque não sabemos quantas espécies realmente existem no planeta", afirmou o cientista, em entrevista ao Estado. "Algumas pessoas acham que a Terra possui mais de 10 milhões de espécies. Nesse caso, talvez não seja uma estimativa tão absurda." Thomas deixa claro que as porcentagens não representam espécies que estarão extintas em 2050, mas poderão entrar em processo de extinção nesse período. A extinção definitiva pode levar décadas ou até séculos.
Cerrado - Pelo lado brasileiro, a bióloga Marinez Ferreira de Siqueira, do Centro de Referência em Informação Ambiental (Cria), uma organização não-governamental de Campinas, fez projeções para 163 espécies de árvores do cerrado, bioma que já teve 65% da sua área modificada pelo homem. Entre 39% e 48% poderão entrar em processo de extinção até 2050, caso o processo de aquecimento não seja revertido. Alguns exemplos são o murici, o mercúrio-do-campo e a gritadeira.
O estudo considerou três níveis de aquecimento médio global, segundo projeções do Painel Internacional sobre Mudanças Climáticas (IPCC). Na melhor das hipóteses, com aumento médio de 0,8o C a 1,7o C, cerca de 18% das espécies avaliadas correriam risco de extinção. No pior cenário, com aquecimento acima de 2o C, o risco atingiria 35% das espécies.
"Essas estimativas podem ser otimistas", alertam os pesquisadores J. Alan Pounds e Robert Puschendorf, da Costa Rica, que comentam a pesquisa na Nature. Eles notam que o risco de extinção aumenta à medida que se consideram outros mecanismos de ameaça, como perda de hábitat e competição com espécies invasoras.
Considerados todos os fatores, o aquecimento global merece ser reconhecido como uma força significativa na extinção de espécies, acreditam os pesquisadores. "Contrário a projeções anteriores, é provável que seja a maior ameaça em muitas regiões, senão na maioria delas." O estudo não prevê a capacidade das espécies de se adaptarem às novas temperaturas ou de se deslocar para novas regiões. "O histórico da distribuição de espécies nos últimos 25 mil anos sugere que a maioria prefere migrar para novas regiões em vez de se adaptar onde estão", afirma Thomas.
"As espécies vão sofrer um stress. Resta saber se serão capazes de superá-lo ou não", conclui Marinez.
OESP, 08/01/2004, Geral, p. A11
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