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'Aquecimento é uma ameaça global'

OESP, Economia, p. B3
09 de Jun de 2007

'Aquecimento é uma ameaça global'
Merkel diz que todos têm de estabelecer metas de redução de emissão de CO² e não aceita ponderações do Brasil

Jamil Chade e Denise Chrispim Marin

A cúpula do G-8 marcada pelo embate sobre temas climáticos terminou ontem com a constatação de que os países industrializados não estão dispostos a aceitar o argumento do Brasil e dos demais emergentes de que não poderão ser obrigados a estabelecer metas de redução de emissões de gás carbônico (CO²).

Já o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deixou claro que o G-5 (Brasil, China, Índia, África do Sul e México) não aceitará que limites sejam impostos a suas economias, exatamente no momento em que começam a crescer. "Não abrimos mão da possibilidade de crescimento dos nossos países", afirmou Lula, em sua conferência final.

Para os emergentes, apenas os países industrializados devem ter metas de redução de emissões. Ontem, porém, a chanceler Angela Merkel, deixou claro que tal posição será inaceitável. "Aceitamos que esses países (emergentes) tenham responsabilidades diferenciadas, mas até 2012." Segundo ela, nesse ano vence parte do Protocolo de Kyoto, e os países industrializados do G-8 representarão apenas 30% das emissões mundiais. "As emissões dos países emergentes serão significativas. Não podemos combater o aquecimento sozinhos e deixar os demais países num caminho doce."

Merkel lembrou que a delegação chinesa insiste que um cidadão do país polui apenas um terço que um cidadão americano. "Entendemos essa situação, mas não podemos aceitar que o crescimento das emissões na China ocorra de forma ilimitada", disse. "A ameaca é global, e não a la carte. A Europa pode reduzir suas emissões a zero e ainda assim não conseguiremos nada para o planeta."

O presidente francês, Nicolas Sarkozy, também atacou qualquer possibilidade dos países emergentes em se eximir de responsabilidades. "Imagine se todos os chineses poluírem como os americanos?", questionou o francês.

TECNOLOGIA

Lula, porém, prefere insistir no argumento de novas tecnologias. "É necessário que cada país invista o máximo possível na melhoria tecnológica para que se possa não apenas deixar de emitir a quantidade de gases poluentes de hoje como tentar captar aquele que já está na atmosfera. Esse é o desafio que está colocado para todos nós", disse o presidente. "No caso do Brasil, temos uma vantagem comparativa. Não só pela nossa prática de uso do biocombustível, como também da mistura de 25% de álcool na gasolina e a introdução do biodiesel."

O resultado das diferenças entre os emergentes e o G-8 pode ser vista no documento final aprovado pelos dois grupos. O documento apontas as "responsabilidades comuns, mas diferenciadas" de cada país e garante que todos "vão contribuir para estabilizar emissões". O problema é que não diz nem como e nem quando isso ocorrerá, apenas citando a necessidade de que o futuro sistema seja flexível. O texto ainda cita o uso do etanol e de combustíveis alternativos como opções que podem contribuir, além da eficiência energética.

Sem esforço dos emergentes, meta é inviável

Marcelo Rehder

Cientistas e ambientalistas afirmam que seria impossível deter o aquecimento global sem o engajamento do Brasil e dos outros países emergentes no esforço mundial de redução de emissões de CO². "Mesmo que todos os países industrializados zerassem suas emissões, ainda assim seria insuficiente para atingir o objetivo global de redução em 50% até 2050", diz o climatologista Carlos Nobre, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Para ele, o Brasil está numa situação confortável em relação à China e Índia, que dependem do carvão. A maior fonte de poluição no País são o desmatamento e as queimadas na Amazônia, responsáveis por 70% da emissão de gás. "Ninguém está dizendo que temos de diminuir a expansão da oferta de energia para crescimento, pois nossa matriz é relativamente limpa".

Na avaliação do diretor de Campanhas do Greenpeace, Marcelo Furtado, a reunião do G-8 fracassou dos dois lados.

"Obviamente, temos de cobrar primeiro o compromisso dos países ricos, mas também somos responsáveis pelo problema e, portanto, temos de fazer parte da solução".Segundo ele, em vez de "vender" o etanol, o presidente Lula poderia ter aproveitado para divulgar um programa nacional de mudanças climáticas. "Deveria ter mostrado como vamos acabar com as queimadas na Amazônia, por exemplo".

OESP, 09/06/2007, Economia, p. B3

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