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Aquecimento do Atlântico pode ser a causa, dizem especialistas

O Globo, O País, p.13
16 de out de 2005

Aquecimento do Atlântico pode ser a causa, dizem especialistas
Desmatamento e poucas chuvas no verão são outros fatores

O aquecimento do Oceano Atlântico pode ser um dos responsáveis pela seca na Amazônia, explica o meteorologista do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) Gilvan Sampaio. Ele ressalva, porém, que outros dois fatores contribuem para agravar a estiagem: o menor índice de chuvas no verão dos últimos quatro anos e o desmatamento da região.
O aquecimento do Atlântico tem origem desconhecida, apesar das especulações de que poderia estar ligado à poluição ou à ação do homem sobre o meio ambiente. Nos últimos meses, a temperatura média da água no Hemisfério Norte subiu entre meio e dois graus centígrados.
Elevação da temperatura reforçou ventos
Essa elevação reforçou ventos que normalmente já sobem a partir do oceano em direção ao céu. A relação disso com a seca na Amazônia é que, mais tarde, o ar ascendente acaba descendo sobre a floresta em determinado período do ano. Tal movimento dificulta a formação de nuvens e, portanto, reduz a freqüência das chuvas. Não é à toa que a Amazônia convive com períodos secos anualmente, entre maio e setembro.
- Ventos sobem no Oceano Atlântico e vão descer em cima da Amazônia. O pico ocorre entre junho e agosto. Onde desce (o vento), não chove. Com o oceano mais quente, o ar que sobe é mais intenso ainda - diz Gilvan Sampaio.
Este ano, porém, a seca ganhou aliado de peso: a redução das chuvas no verão, fenômeno que vem se repetindo nos últimos quatro anos na região, segundo o meteorologista.
- Tivemos um verão com menos chuva. Logo, havia menos água acumulada na bacia amazônica.
Desmatamento diminui volume de água disponível para a evaporação
Segundo ele, o desmatamento diminui o volume de água disponível para a evaporação. Isso porque as árvores auxiliam a umedecer o ar, uma vez que a água que extraem com a raiz transpira pelas folhas.
Nota conjunta divulgada anteontem pelo centro de previsão e o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) informa que o Sul e o Oeste do Amazonas, além do Acre, tiveram em 2005 o mais baixo índice pluviométrico dos últimos 40 anos. Os dois órgãos prevêem que vai chover menos do que a média histórica no sudoeste do Amazonas e no Acre no próximo trimestre, entre novembro e janeiro. A previsão, no entanto, é de baixa confiabilidade, segundo a própria nota.
- Chuvas localizadas virão nos próximos dias, com o aquecimento da região. Mas chuvas mais freqüentes só a partir de novembro. Não sei se capazes de reverter a atual situação, mas sim de amenizá-las - diz Sampaio.
Medições realizadas pelo Serviço Geológico do Brasil, órgão ligado ao Ministério de Minas e Energia, mostram que o Rio Negro já esteve pelo menos duas vezes com nível mais baixo do que o atual em Manaus: em 1963 (13,64 metros) e 1997 (14,34). Na última sexta-feira, o nível estava em 15,47 metros, dez centímetros a menos do que na véspera. Já o Rio Solimões vem subindo em Tabatinga: saltou de 55 centímetros no último dia 7 para 1 metro na sexta-feira. Para voltar ao normal, porém, falta muito. Em junho, o ponto de medição registrava 12,28 metros de altura.

Oriximiná (PA) decreta situação de emergência
Seca também atinge outros oito municípios, que estão em alerta

O município de Orixinimá, a 1.045 quilômetros de Belém, decretou situação de emergência por causa da seca. Uma equipe da Defesa Civil de Belém vai amanhã ao município para avaliar a situação e traçar um plano de atendimento às comunidades que estiverem em situação mais grave.
Além de Oriximiná, mais oito municípios paraenses entraram em estado de alerta por conta da vazante dos rios e da estiagem que assola o sul e o oeste do Pará: Faro, Curuá, Óbidos, Terra Santa, Monte Alegre, Itaituba, Juruti e Alenquer.
- Até agora só a prefeitura de Oriximiná nos comunicou a situação em que se encontra o município. Enquanto as outras prefeituras não fizerem isso não podemos intervir - disse o capitão Marcos Norat, responsável por coordenar a ação de ajuda aos moradores de Oriximiná.

O Globo, 16/10/2005, O País, p. 13

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