CB, Brasil, p. 13
14 de Jan de 2005
Aposta na prevenção
Brasília será a sede do maior laboratório de vigilância epidemiológica do país. O projeto do centro de excelência fica pronto em março, e garantirá a identificação e o combate imediato de doenças, como a hantavirose
Paloma Oliveto
Da equipe do Correio
No ano passado, a população do Distrito Federal (DF) e do Entorno foi surpreendida por uma doença letal e desconhecida. Até ser identificada, a hantavirose fez três vítimas na cidade de São Sebastião. Um diagnóstico rápido e preciso poderia ter minimizado o saldo da epidemia, que matou 16 pessoas e contaminou outras 21. Em março, ficará pronto o projeto de um laboratório, com sede em Brasília, que tem como objetivo identificar e combater rapidamente doenças emergentes, evitando surtos semelhantes ao provocado pelo hantavírus.
Em entrevista ao Correio, o secretário nacional de Vigilância em Saúde, Jarbas Barbosa, disse que foi feito um empréstimo de R$ 20 milhões com o Banco Mundial para a construção do laboratório, que deverá ficar pronto daqui a dois anos. Técnicos do ministério já visitaram unidades de excelência nos Estados Unidos e no Canadá, que vão fornecer capacitação aos cientistas brasileiros.
O laboratório de Brasília será o único da América Latina e o terceiro do mundo a possuir uma unidade de biossegurança 4, destinada à manipulação de microorganismos com alto risco de contaminação.
O centro de análises do DF será específico para vigilância em saúde. Os técnicos, segundo Barbosa, estarão prontos para atender a demandas emergenciais em qualquer região do país. Quando houve o surto de hantavirose em Brasília, foi necessária a cooperação do Instituto Adolfo Lutz (IAL), de São Paulo. Era preciso negociar com o instituto para mandarem uma equipe para cá. Em casos de emergência, não se pode perder tempo negociando com ninguém, explica o secretário.
Novas prioridades
O anúncio do projeto do maior laboratório de vigilância em saúde no Brasil acompanha a onda otimista do Ministério da Saúde em relação à área de epidemiologia. Ano passado, não houve surtos de sarampo nem de febre amarela silvestre; a vacina da gripe imunizou 85% dos idosos, superando a meta de 70%; houve redução nos casos de raiva humana; e a incidência da dengue diminuiu 73% em relação a 2003.
Segundo Jarbas Barbosa, os trabalhos de prevenção foram essenciais para o sucesso no controle das doenças. No caso da dengue, o Levantamento Rápido do Índice de Infestação (LIRa), uma nova metodologia do Programa Nacional de Controle da Dengue (PNCD), conseguiu evitar que casos isolados desencadeassem uma epidemia
Para 2005, as prioridades da epidemiologia são duas doenças estigmatizadas e esquecidas há muito tempo: hanseníase e tuberculose. Segundo o Programa de Controle de Tuberculose do Ministério da Saúde, em 2004, 119 mil brasileiros estavam infectados pelo bacilo de Koch, causador da doença. Oitenta e cinco mil pessoas eram portadoras da tuberculose, o que rendeu ao país a 15ª posição no ranking da Organização Mundial de Saúde (OMS).
Até 2007, a Secretaria de Vigilância em Saúde tem orçamento de R$ 119,5 milhões para investir no controle da tuberculose. Não é preciso montar uma nova estrutura. Temos hoje 24 mil equipes do programa Saúde da Família e mais de 50 mil postos de atendimento em todo o Brasil, diz Barbosa. Ele afirma que o problema tem sido, até agora, operacional. Em 2002, das 18 mil equipes do Saúde da Família, menos de um terço realizava diagnóstico da doença.
Contato contínuo
Praticamente erradicada na população infantil, a tuberculose manteve-se estável até meados da década de 90, quando voltou a crescer, principalmente nas periferias dos centros urbanos. A doença é transmitida quando há contato contínuo entre as pessoas, o que explica sua prevalência em áreas pobres, onde, muitas vezes, várias famílias dividem o mesmo teto.
Por esse motivo, o abandono do tratamento é alto cerca de 12% dos portadores deixam de tomar os remédios antes de terminarem os seis meses necessários para exterminar a doença. Pessoas como sem-teto e migrantes fogem ao controle dos agentes de saúde, explica Jarbas Barbosa. Para atingir essa população, a secretaria firmou acordo com 50 empresas e organizações não-governamentais.
A interrupção do tratamento pode levar a uma resistência posterior aos medicamentos. O problema passa a ser, também, econômico. O custo do remédio de primeira linha é cerca de US$ 10. O ministrado em pacientes resistentes, de segunda linha, sai cinco vezes mais caro.
Com perfil diferente, a hanseníase ainda é um problema grave de saúde pública no Brasil. Embora o país esteja próximo a atingir a meta estipulada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) em 1991, de menos de um caso em cada dez mil habitantes, a distribuição da doença por estados é desigual.
Na média, o país fechou 2004 com prevalência de 1,3 caso em dez mil pessoas. No entanto, em alguns estados, como Rondônia, o índice é de oito casos neste mesmo grupo de pessoas. Já em Santa Catarina, a incidência é de 0,3 e, no DF, de 1,8. A expectativa do ministério é que, este ano, equipes do programa Saúde da Família sejam capacitadas para realizar o diagnóstico precoce da hanseníase em todos os estados, alcançando um índice nacional equilibrado.
Doze centros de pesquisa
O Ministério da Saúde pretende inaugurar, até 2007, 12 centros de pesquisa clínica, implantados em hospitais universitários. O objetivo é investigar novos procedimentos, medicamentos e vacinas, e testá-los em seres humanos. Atualmente, há 15 mil protocolos de pesquisas em andamento no país. A maioria encaminhada por empresas farmacêuticas.
Os centros serão uma alternativa para os pesquisadores ocuparem-se com os assuntos prioritários do Sistema Único de Saúde, explica Reinaldo Guimarães, diretor do Departamento de Ciência e Tecnologia (Decit) do Ministério da Saúde. Como a linha de pesquisa será geral, as unidades estudarão a prevenção e o combate a doenças diversas, da Aids à tuberculose.
O recurso dos centros de pesquisa serão controlados pela instituição, e não pelo pesquisador. Embora admita que, do ponto de vista jurídico, não há impedimento de o pesquisador ficar com o dinheiro que sobra do financiamento, o diretor do Decit acredita que, eticamente, a prática é inaceitável.
A expectativa do Decit é que sejam contratados quatro centros por ano, a partir de 2005. O processo de seleção dos hospitais universitários será feito por meio de edital. Segundo Guimarães, a construção das primeiras unidades deverá custar cerca de R$ 8 milhões. (PO)
``Em um país grande como o nosso, cada estado deveria ter um laboratório voltado à vigilância em saúde``
Jarbas Barbosa, secretário nacional de Vigilância em Saúde
CB, 14/01/2005, Brasil, p. 13
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