OESP, Economia, p. B1, B3
25 de Jul de 2010
Aposta de R$ 18,5 bilhões do BNDES em frigoríficos assusta concorrentes
JBS e Marfrig receberam cerca de 25% de tudo que o banco investiu na compra de participações em empresas nos últimos quatro anos
Raquel Landim e David Friedlander
A estratégia oficial de turbinar frigoríficos para transformá-los em gigantes mundiais está prestes a bater a marca de R$ 18,5 bilhões recebidos do Banco Nacional de Desenvolvimento e Econômico e Social (BNDES). A maior parte desse dinheiro vem sendo aplicado no JBS e no Marfrig para financiar uma campanha agressiva de aquisições de concorrentes no Brasil e no exterior.
Até agora, o banco estatal já desembolsou R$ 16 bilhões com o setor - R$ 6 bilhões em empréstimos e R$ 10 bilhões na aquisição de participação acionária. Outros R$ 2,5 bilhões foram prometidos na semana passada ao Marfrig, para financiar mais uma compra: a da americana Keystone Foods.
A política do governo de criar grandes multinacionais brasileiras voltou ao debate com a campanha eleitoral e a discussão sobre o papel do BNDES no próximo governo. Nos frigoríficos, a tática de "engorda" começa a entusiasmar os investidores, que enxergam oportunidades de lucro com os papéis dessas empresas. Mas incomoda concorrentes menores e pecuaristas, aborrecidos com a concentração de poder nas mãos de JBS e Marfrig (leia abaixo).
Uma das críticas é que o BNDES estaria subsidiando empresários que poderiam se virar sozinhos. O banco, porém, afirma que a maior parte do dinheiro investido nos frigoríficos não é subsidiado pelo Tesouro Nacional, nem sai do Fundo de Amparo do Trabalhador (FAT). São recursos captados com investidores pela BNDESPar, subsidiária do banco, e repassados aos frigoríficos a custos de mercado.
Empresários do setor, que pedem anonimato por medo de contrariar o governo, questionam a escolha dos parceiros do BNDES. Cerca de três anos atrás, outro frigorífico importante, o Minerva, procurou o banco na tentativa de conseguir apoio para sua expansão. Saiu de mãos vazias. Enquanto isso, apoiado pelo banco estatal, o JBS tornou-se o maior produtor de carne processada do mundo.
No setor, circula a versão de que um dos pontos fortes de JBS e Marfrig são suas conexões políticas. Líderes num setor que exibe margens de retorno baixas e riscos altos, a avaliação do mercado é que essas empresas não teriam ido tão longe sem o BNDES - já que os investidores passaram a olhar os frigoríficos com mais interesse há pouco tempo.
Executivos da área também questionam o perfil das aquisições internacionais - boa parte são companhias em dificuldades financeiras. Há dúvidas sobre a capacidade dos brasileiros de operar as novas aquisições e ganhar dinheiro com elas. Procurados, JBS, Marfrig e BNDES não deram entrevista.
Até 2007, quando essas empresas abriram o capital em bolsa, os frigoríficos eram pouco profissionalizados. Diferentes pecuaristas relataram ao Estado que já foram "roubados na balança" (os bois pesavam menos na balança do frigorífico que na fazenda) e que o uso de caixa dois era uma prática comum.
Cartel. O setor já foi investigado por prática de cartel. Em 2007, o Conselho Administrativo de Defesa da Concorrência (Cade) condenou os frigoríficos Bertin, Minerva, Franco Fabril e Mataboi por manipularem os preços pagos aos pecuaristas. O Friboi ( atual JBS) selou acordo para encerrar as investigações e pagou R$ 13,7 milhões de multa. O Bertin foi incorporado pelo JBS no ano passado.
Nos últimos quatro anos, a BNDESPar investiu mais de R$ 40 bilhões na compra de participações em empresas de setores como telecomunicações, celulose e energia. Cerca de 25% disso foi parar em apenas quatro frigoríficos. A instituição tem 21% do capital do JBS, 14% do Marfrig, 22% do Independência (em recuperação judicial) e uma pequena fatia, de 2,6%, na Brasil Foods (fusão de Sadia e Perdigão).
Os R$ 10 bilhões que o BNDES gastou em compra de participações nos frigoríficos equivalem à metade do valor de mercado do JBS. É também o dobro do que o frigorífico dos irmãos Batista - José, Joesley e Wesley - valia quando abriu o capital, em 2007.
O BNDES diz ter escolhido o setor porque o Brasil é altamente competitivo. Aposta que, com destaque lá fora, JBS e Marfrig vão gerar remessas de lucro e empregos qualificados no País. Nos últimos anos, o JBS comprou empresas como as americanas Swift e Pilgrim"s Pride.
O professor Sérgio Lazzarini, do Insper, entende que o País teria mais benefícios se, em vez de capitalizar os frigoríficos, aplicasse mais dinheiro em infraestrutura. "O setor de frigoríficos é pouco dinâmico. Se é para escolher, faria mais sentido investir em tecnologia de ponta".
http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20100725/not_imp585696,0.php
Para entender
Com aquisições, JBS se tornou líder mundial
O JBS começou sua expansão internacional em 2005, com a aquisição da filial da Swift na Argentina. Em maio de 2007, a empresa abriu seu capital no mercado brasileiro e partiu para seu grande salto. Adquiriu a matriz da Swift nos Estados Unidos por US$ 1,4 bilhão. No ano passado, comprou a também americana Pilgrim"s Pride, em um negócio de cerca de US$ 2,4 bilhões (incluindo dívidas) e incorporou a rival Bertin. Com o movimento, superou a americanas Tyson Foods se tornou a maior processadora de carnes do mundo. Todo esse processo de expansão foi em boa parte financiado pelo BNDES.
http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20100725/not_imp585707,0.php
Pecuaristas dizem estar sendo sufocados pelo JBS
A região de Barra do Garça, em Mato Grosso, já foi o melhor lugar do Estado para vender gado. A presença de unidades dos frigoríficos Independência, Margen, Bertin e JBS garantia competição entre eles e a oferta dos preços mais altos para os pecuaristas. De dois anos para cá, Independência e Margen quebraram e o Bertin foi comprado pelo JBS, que ficou sozinho na região e amassou o preço da arroba.
"O JBS é o dono do pedaço e paga quanto quer. Barra do Garça agora paga um dos piores preços do Estado", diz Luciano Vacari, superintendente da Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat), o Estado que tem o maior rebanho de gado bovino do País.
Os outros frigoríficos, concorrentes de JBS e Marfrig, também reclamam. "Queremos igualdade", afirma Péricles Salazar, presidente da Associação Brasileira de Frigoríficos. "Tudo bem apoiar o Friboi e Marfrig, mas outros frigoríficos precisam de financiamento e o BNDES só tem dinheiro para os grandes."
De acordo com José Vicente Ferraz, analista da consultoria Agra FNP, a política de criação de grandes frigoríficos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) deu ao JBS - e em menor escala, também ao Marfrig - uma força desproporcional em relação aos pecuaristas e mesmo a frigoríficos menores. "Isso provoca um desequilíbrio na cadeia produtiva. É perigoso", afirma Ferraz.
Para José Carlos Hausknecht. sócio da consultoria MB Agro, a estratégia do BNDES é equivocada. "Pelas nossas contas, o JBS hoje tem 80% de seu faturamento no exterior. Por que o BNDES precisa financiar a produção em outros países?", questiona.
O consultor cita como exemplo a compra da Pilgrim"s Pride, uma das líderes no abate de frangos nos Estados Unidos, pelo JBS, com apoio financeiro do BNDES. "Além de gerar empregos lá fora, vão usar dinheiro do BNDES para fortalecer a exportação americana de frangos, que vai competir com a produção brasileira."
http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20100725/not_imp585715,0.php
Apoio do BNDES começa a fazer efeito
Dinheiro do banco melhora perfil da dívida de frigoríficos e atrai investidores
Raquel Landim
Os "anabolizantes" do BNDES estão fazendo efeito e os frigoríficos brasileiros começam a cair nas graças do mercado internacional. O suporte do banco melhorou o perfil da dívida das empresas e deixou os investidores mais seguros.
Duas importantes agências de risco melhoraram a classificação do JBS. A Fitch Ratings deixou as ações a três passos do grau de investimento, que é o patamar que o mercado considera que não há risco de calote. Para a Standard & Poor"s, o risco oferecido pelo JBS hoje é o mesmo da americana Tyson Foods.
É uma mudança significativa de percepção, porque os investidores enxergavam JBS e o concorrente Marfrig com desconfiança. As principais preocupações são o alto nível de endividamento e a consolidação das aquisições. O JBS comprou mais de 30 empresas nos últimos anos, enquanto o Marfrig adquiriu 14 companhias fora do País.
Para a analista sênior da Fitch Ratings, Gisele Paolino, a compra da Pilgrim"s Pride, uma das maiores produtoras de carne de frango dos EUA, diversificou os negócios da JBS. "É um ramo com risco alto, porque existem restrições sanitárias e surtos de doenças. Ao atuar em carne bovina e carne de frango, o JBS minimiza esse problema", explica.
A atuação do BNDES, no entanto, tem sido fundamental. O banco estatal comprou quase todas as debêntures lançadas pelo JBS para adquirir a Pilgrim"s. As debêntures são títulos de dívida, mas o mercado não interpretou como uma pressão sobre o fluxo de caixa da empresa.
"Consideramos como emissão de capital, porque são papéis conversíveis em ações. Foi um veículo para que o BNDES entrasse como sócio da filial americana do JBS, que tem capital fechado", disse Gisele.
Cauê Pinheiro, analista da SLW Corretora, explica que a operação do BNDES reduz a despesa financeira e melhora a margem de lucro da empresa, pois o banco empresta dinheiro a um custo que o mercado não estaria disposto a oferecer. "O BNDES é um parceiro importante, porque as empresas não correm o risco do apetite do mercado", disse.
As duas companhias estão tomando recursos no mercado internacional. O JBS está em processo de captar US$ 700 milhões, enquanto o Marfrig concluiu em abril uma oferta de bônus de US$ 500 milhões.
Os investidores locais também avaliam que existe uma boa oportunidade de lucro no curto prazo. Segundo Rafael Cintra, analista da Link Investimentos, as ações estão relativamente desvalorizadas, porque foram afetadas pela crise na Europa.
Dúvidas. A lua de mel entre o mercado e os frigoríficos, contudo, é recente e persistem dúvidas. O JBS ainda não conseguiu abrir o capital de sua filial nos Estados Unidos.
A empresa já adiou duas vezes a empreitada. Na primeira tentativa, alegou que o mercado externo estava ruim, mas prometeu a oferta para o primeiro semestre deste ano. Na divulgação mais recente de resultados, descartou qualquer possibilidade da operação ocorrer antes de 2011, mas não revelou os motivos.
Outro ponto de desconfiança é o motivo de o mercado não comprar as debêntures dessas empresas. O BNDES subscreveu 99,2% dos R$ 3,5 bilhões em debêntures do JBS e se comprometeu a adquirir os R$ 2,5 bilhões do Marfrig. Em nota enviada pela assessoria de imprensa, o BNDES afirma que esse tipo de papel é para "investidor qualificado" e que "os fundos de investimento não estão autorizados a subscrever títulos híbridos".
Outro fator que explicaria o desinteresse é a liquidez. O prazo das debêntures é de cinco anos, enquanto as ações podem ser vendidas qualquer dia. "As debêntures fazem mais sentido para investidores com visão de longo prazo", diz o BNDES.
http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20100725/not_imp585720,0.php
OESP, 25/07/2010, Economia, p. B1, B3
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