JB, País, p. A5
13 de Out de 2004
Apoena Meireles é enterrado no Rio
Defeito no circuito interno de agência atrapalha investigação
Marco Antônio Martins
A identificação do criminoso que atirou contra o indigenista Apoena Meireles, enterrado ontem no Rio, só poderá ser feita por meio do retrato falado a ser elaborado por duas testemunhas. De acordo com uma das equipes de policiais que investiga o caso, o circuito interno de TV, da agência do Banco do Brasil, em Porto Velho, capital de Rondônia, está com defeito há cerca de uma semana. As polícias Civil e Federal trabalham com a hipótese de que Apoena tenha sido vítima de um assalto.
O defeito no equipamento impede que se possa identificar o assassino. O superintendente da Polícia Federal em Rondônia, delegado Joaquim Cláudio Figueiredo, permanece acreditando que o sertanista tenha sido vítima de um latrocínio (roubo seguido de morte), apesar da prática de assaltos em saída de caixa eletrônico ser pouco comum em Porto Velho. Principalmente, pelo fato de a agência estar localizada em uma das áreas mais seguras da capital, a 30 metros do Palácio do governo estadual.
O indigenista estava há 10 dias em Rondônia, onde foi explicar aos índios o decreto assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva de fechar os garimpos em reservas indígenas. No sábado, Apoena, de 55 anos, foi baleado após retirar R$ 100 de um caixa eletrônico.
No sepultamento do indigenista, na manhã de ontem, no Cemitério do Caju, na Zona Portuária do Rio, integrantes da família discordaram a respeito da causa da morte.
- Ele entregou as armas para a campanha do desarmamento, no mês passado. Um homem que estivesse ameaçado de morte não as entregaria - comentou a filha de Apoena, Tainá, de 28 anos.
Diferentemente da sobrinha, a irmã do sertanista, Lídice Meireles, 59 anos, contou que ele vinha recebendo ameaças por seu trabalho junto aos índios cintas-largas. Em abril, 29 garimpeiros foram mortos por indígenas porque exploravam diamantes na Reserva Roosevelt.
- Existia uma situação de risco muito grande. Ele sofria ameaças - revelou Lídice.
O presidente da Funai, Mércio Gomes, afirmou que Apoena nunca disse que estivesse sendo ameaçado.
- Ele não vivia sob paranóia, nem me disse que fosse seguido por pessoas. Trabalhar na Funai é perigoso - contou Gomes.
O sepultamento teve a presença de parentes e indígenas da tribo xavante. As bandeiras do Flamengo, da Funai e adereços dos cintas-largas seguiram sobre o caixão do sertanista, que foi enterrado ao lado do pai, o também indigenista Francisco Meireles.
- Meu filho, porque foi embora antes de mim? Eu cansei de te dizer para ficar mais em casa e menos no meio do mato. Perdi você, mas não perdi a esperança - desabafou Abigail Meireles, 83 anos, mãe de Apoena.
JB, 13/10/2004, País, p. A5
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