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Aos 62, índio obtém certidão de nascimento

OESP, Vida, p. A17
11 de mar de 2009

Aos 62, índio obtém certidão de nascimento

Daniel Piza, ALTO PURUS

No trecho entre São Brás e Santa Rosa, subindo o Rio Purus, há 22 aldeias indígenas dos mais variados tamanhos. A maioria é da etnia kaxinawá e as demais, kulina. Há 104 anos, quando Euclides da Cunha esteve aqui, não encontrou muitos índios, e sim peruanos que extraíam látex do caucho, além de seringueiros brasileiros que com eles muitas vezes brigavam. O escritor e engenheiro era, por nomeação do barão do Rio Branco, o coordenador brasileiro da comissão mista com o Peru para a demarcação do rio, cujas nascentes ficam no país vizinho.

Aristodis Kuerino Bardaro Kaxinawá mostra, orgulhoso, sua certidão de nascimento. Ele tem 62 anos e acaba de tirá-la pela primeira vez. No documento, consta o nome de seu pai, Luis Carron, peruano. Sua mãe era índia kaxinawá na região do Rio Tarauacá, ao norte do Acre, quando eles se conheceram. Aristodis veio há 15 anos para a margem do Purus viver na aldeia Nova Fronteira. Esta aldeia foi a escolhida pelo Projeto Cidadão, do governo acreano, por ser a mais numerosa (360 pessoas) e bem situada.

Anteontem estivemos com kulinas na confluência dos rios Purus e Chandless, que Euclides da Cunha também navegou por um trecho. Ali, onde botos cinzas mergulham e imbaúbas se debruçam à margem, as crianças jogavam futebol e os mais velhos cantaram para os visitantes. Não se viu o menor sinal da hostilidade que é comum atribuir a eles na região. Ontem muitos vieram até Nova Aliança, como Aristodis. Os índios de ambas as etnias recebem o projeto com ansiedade. O Acre tem quase 11% da população sem registro - grande parte nas aldeias. "Mas agora", diz Aristodis, "sou cidadão como os outros brasileiros".

Para celebrar o centenário de morte do autor de Os Sertões,
o Grupo Estado iniciou "O Ano de Euclides" - um trabalho jornalístico, cultural e multimídia. O repórter Daniel Piza e o fotógrafo Tiago Queiroz viajaram ao Acre, onde refazem a expedição à região do Alto Purus, que o escritor Euclides da Cunha empreendeu em 1905.

OESP, 11/03/2009, Vida, p. A17

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