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Autor: Vinicios Araujo
07 de Abr de 2026
Enquanto as comunidades indígenas representam 80% das notificações para a chikungunya em Dourados, condomínios de luxo que contornam o território se revelam como áreas blindadas para o mosquito Aedes aegypti. A região norte da cidade representa o contraste entre o luxo e a miséria. A perspectiva é separada apenas por uma rodovia.
O boletim atualizado da Secretaria Municipal de Saúde consolida o avanço da chikungunya em Dourados, com um total de 3.746 notificações. Até o momento, foram contabilizados 1.387 casos confirmados, 2.690 casos prováveis e 1.831 em investigação, resultando em uma taxa de ataque de 10,2 por 1.000 habitantes.
A curva de positividade, mantida entre 72% e 79%, indica uma circulação viral intensa, uma vez que a Organização Mundial da Saúde estabelece que taxas acima de 5% já sugerem transmissão não controlada. No momento, a UPA (Unidade de Pronto Atendimento) registra uma média de 449,7 atendimentos diários, o que representa um aumento significativo em comparação aos 302 atendimentos registrados antes do dia 23 de março.
Em um dos condomínios mais luxuosos de Mato Grosso do Sul, cerca de 80 famílias vivem cercadas por paisagismo, infraestrutura de primeiro mundo e requinte nos detalhes mais sutis.
Segundo o fundador e presidente da Associação de Moradores e Proprietários, Valdemir de Souza Messias, os cuidados constantes com limpeza, eliminação dos focos de água parada e controle de vetores garantiram que os moradores permanecessem seguros no período mais crítico da epidemia. O condomínio ainda tem apoio do fumacê para aumentar a blindagem epidemiológica.
A política preventiva adotada pelo condomínio não foi considerada pelo prefeito da cidade, Marçal Filho (PSDB).
Dourados vive uma crise escalada da doença. É, atualmente, o município com maior número de casos no país. Entre os óbitos confirmados, estão dois bebês, de um e três meses. Duas mortes seguem ainda em investigação. Todos os óbitos são de indígenas.
Apenas uma rodovia separa a região nobre das aldeias Jaguapiru e Bororó. Do outro lado do anel viário, a situação é bem diferente do que os luxuosos complexos habitacionais proporcionam aos seus investidores.
Fome, sede, insalubridade e extrema vulnerabilidade são marcas na rotina da comunidade indígena. São mais de 20 mil habitantes no território, a maioria nem sequer possui água encanada, o que pressiona a criação de armazenamentos improvisados de água. Foram nesses reservatórios que um primeiro mutirão descobriu mais de 500 focos do Aedes aegypti, nos mais de 2,2 mil imóveis vistoriados.
Além disso, as estradas precárias comprometem o acesso de caminhões de coleta de lixo. A reserva enumera diversas áreas de difícil acesso. Não à toa, diferentemente da maioria dos moradores da área urbana, que contam com captação do lixo ao menos 3 vezes na semana, os moradores da reserva possuem apenas pontos fixos de depósito do lixo, nos quais é feita coleta periodicamente.
Esses pontos ficam instalados nas escolas e nos acessos de vias principais. Contudo, não representam os ideais de manejo de resíduos sólidos e expõem as famílias à infestação de doenças e vetores de endemias. Para driblar a condição, muitos populares acabam queimando lixo no próprio quintal de casa.
A reserva não tem sequer a cobertura dos agentes de endemias, profissionais especializados para visitas domiciliares de orientação e fiscalização. Marçal Filho não se preocupou em recompor o quadro deficitário. Enquanto na cidade a falta de servidores afeta a maioria dos bairros, nas aldeias, a escassez de agentes é regra. No sábado, 4, o Governo Federal empossou 50 servidores temporários para atuarem no combate a endemias. Mas a solução não é permanente.
O prefeito Marçal Filho (PSDB) foi alertado sobre o risco de uma epidemia em Dourados; contudo, não reagiu. Os primeiros esforços só ocorreram após 'puxão de orelha' da Secretaria Estadual de Saúde, que chegou a cobrar a gestão municipal para não "normalizar" as mortes causadas pela chikungunya.
Desde o ano passado o Sindracse (Sindicato dos Agentes Comunitários de Saúde e Endemias) mostra que a baixa de agentes de endemias, somada à falta de uma política preventiva regular nos bairros, poderia escalar uma crise como a que se vê atualmente no município. Desde que foi eleito, Marçal se recusa a receber a categoria para dialogar, terceirizando a recepção das demandas a assessores e secretários.
O sucateamento do setor, conforme classificou a deputada estadual Gleice Jane (PT), materializou-se nas milhares de notificações confirmadas e no descontrole da infestação de Aedes aegypti.
A ausência do poder municipal pressionou a mobilização da União. Foram escaladas equipes da Força Nacional do SUS (Sistema Único de Saúde), da Defesa Civil, do Exército e da Assistência Social. A crise também acelerou a assinatura da ordem de serviço para ampliação das redes de abastecimento de água. O investimento de mais de R$ 53 milhões levará solução para uma das demandas históricas da comunidade indígena de Dourados.
Além disso, para auxiliar no atendimento inicial aos doentes da reserva indígena, um hospital de campanha foi montado na Escola Municipal Tengatuí Marangatú. A estrutura ficou algumas semanas oferecendo suporte clínico e encaminhando casos graves para internação. Atualmente, são 46 pacientes internados.
Populares ouvidos pelo Jornal Midiamax reclamam da ausência do Poder mais próximo da comunidade, o municipal, e a constante transferência de responsabilidades aos outros entes federativos. Eles cobram um olhar humano das autoridades.
"Dizem que é responsabilidade de um ou de outro, mas nós somos seres humanos e temos direitos. Todas as esferas têm obrigação de atender a comunidade indígena", disse a historiadora e professora aposentada Edna Silva de Souza, de 75 anos.
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(Revisão: Dáfini Lisboa)
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