O Globo, Sociedade, p. 30
22 de Out de 2014
Ano de 2014 marca novo patamar no clima
Renato Grandelle
O ano de 2014 pode entrar na História como o mais quente desde o início dos registros, em 1880. O alerta veio da Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera dos EUA ( Noaa), após a divulgação de que os meses de maio, junho, agosto e setembro bateram recordes de calor.
O período de janeiro a setembro registrou a temperatura média de 14,78 graus Celsius - 0,68 grau Celsius a mais do que a verificada no século passado. Desde o início das medições, 2005 e 2010 foram os mais quentes da História. O pequeno intervalo entre eles é um exemplo do efeito crescente das mudanças climáticas. - Os dez anos mais quentes já registrados aconteceram nos últimos 15 anos - alerta Tasso Azevedo, coordenador do Sistema de Estimativa de Emissões de Gases de Efeito Estufa do Observatório do Clima ( Seeg).
Segundo Azevedo, esta é a primeira vez em que o mês de setembro apresenta temperaturas tão altas sem a forte presença do fenômeno El Niño, que, no entanto, ainda pode se manifestar este ano.
Ex- coordenador- geral de Mudanças Climáticas do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, Marcos Heil Costa acredita que o recorde pode ser justificado por três fatores: o aquecimento global - o efeito mais conhecido das mudanças climáticas -, a urbanização e o desmatamento.
- O crescimento das cidades em todo o mundo está provocando ilhas de calor - explica. - A devastação de florestas também contribui para a temperatura em ascensão, porque as árvores são as responsáveis por resfriar a superfície terrestre.
Costa, no entanto, destaca que outros movimentos estão por trás da elevação dos termômetros.
- Há uma variabilidade natural, fazendo com que alguns anos sejam mais quentes do que outros. O problema é que, atualmente, a quebra de recordes parece ocorrer com mais frequência - revela. - Devemos considerar fenômenos como o El Niño, o aumento da radiação solar e a possibilidade de que haja outras influências, que a ciência ainda não conhece.
De acordo com o cientista, 2014 é o início de um "novo patamar" no clima. Nos próximos anos, a temperatura continuará elevada nos níveis de hoje, mas depois voltará a crescer.
O alerta da Noaa não surpreendeu o climatologista José Marengo, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais ( Inpe).
- O verão foi extremamente quente, com recordes de temperatura em todo o mundo - constata. - Agora, isso está ocorrendo também em outras estações. É outono no Hemisfério Norte e, na semana passada, Paris e Frankfurt registraram 25 graus Celsius, marca muito maior do que a normal.
AMEAÇA DO EL NIÑO
Alguns especialistas acreditam que o El Niño já está em formação no Oceano Pacífico, o que aumentaria a temperatura em até 0,5 grau Celsius no mar. O fenômeno, porém, ainda não foi verificado pela Noaa.
- Se o El Niño se formar oficialmente, e há 65% de chances de que isso ocorra ainda este ano, será mais um sinal de que 2014 baterá todos os recordes de temperatura - avalia Jake Crouch, climatologista do instituto americano.
As regiões com maior elevação da temperatura em setembro foram a Costa Leste dos EUA, a Austrália, a Europa e partes da Ásia e da América do Sul.
Outros locais, no entanto, não ficaram impunes ao calor cada vez mais expressivo. Um estudo divulgado em abril pela Agência Espacial Europeia mostrou que a Antártica está perdendo cerca de 169 bilhões de toneladas de gelo anualmente - duas vezes mais do que foi constatado em 2010. No Hemisfério Norte, pesquisadores acreditam que o Oceano Ártico terá apenas água em estado líquido antes de 2050.
Prolongadas estiagens provocaram o aumento dos termômetros no Brasil este ano. Para especialistas, a seca comprometeu a produção de alimentos, a segurança energética e a saúde da população. Estima-se que as mudanças climáticas causarão impactos crescentes no rendimento das safras de trigo, arroz, milho e soja, produtos fundamentais da cesta básica do brasileiro. O déficit hídrico também pode comprometer a pecuária, já que reduziria a capacidade de pastoreio dos bovinos de corte.
ESTIAGEM NO BRASIL
Dois centros de alta pressão atmosférica atingiram o país desde janeiro. O primeiro bloqueou a chegada de chuvas ao Sudeste; o outro, que só agora começa a ceder, aumentou a estação seca em outras regiões.
O verão carioca foi o mais quente dos últimos 50 anos. A média das temperaturas máximas fechou em 36,2 graus Celsius. Houve chuvas em apenas 16 dias - normalmente são 40.
- No Brasil e no resto do mundo, os extremos climáticos provocam a mesma reação do poder público: existe o desejo de tomar medidas para mitigação e adaptação às mudanças climáticas, mas teme o impacto econômico - lamenta Costa. - Se estas operações fossem mais baratas, acredito que haveria mais sensibilidade no trato ao meio ambiente.
O Globo, 22/10/2014, Sociedade, p. 30
http://oglobo.globo.com/sociedade/sustentabilidade/clima-2014-pode-bate…
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