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Ana Paula Lima: "São séculos de políticas públicas para que os índios deixassem de existir"

A tarde http://atarde.uol.com.br/
23 de jul de 2018

Numa terça-feira de julho, uma figura miúda movimentou as ruas do Pelourinho, atraindo um bando de jornalistas, curiosos e admiradores. Era a primeira vez que a paquistanesa Malala Yousafzai, 21, vinha a Salvador. A ativista, baleada aos 14 anos por membros do Talebã por defender o direito de meninas como ela frequentarem a escola, tornou-se em 2014 a pessoa mais jovem a ganhar o Prêmio Nobel da Paz. Um ano antes, ela criou uma fundação que leva seu nome para tornar possível um mundo onde "toda garota possa aprender e liderar". Foi justamente nesta missão que ela veio ao Brasil, onde anunciou apoio a três instituições locais. Uma delas, a Associação Nacional de Ação Indigenista (Anaí), funciona há 40 anos em Salvador. A historiadora mineira Ana Paula Lima, 40, uma das coordenadoras da organização, viveu um frenesi inédito naquele dia. Nunca tanta gente tinha se acotovelado ao mesmo tempo para conversar com ela. Eram repórteres interessados em saber que distinções fizeram com que estivesse entre as três brasileiras escolhidas para carregar o título de "Education Champion"- espécie de militante local pela educação - do Fundo Malala. Nos próximos três anos, ela irá coordenar um programa para diagnosticar e promover a educação de meninas em comunidades indígenas da Bahia, especialmente o ensino médio, considerado o elo mais frágil nas aldeias. No sábado da mesma semana em que conheceu Malala, Ana Paula já estava embarcando para Dubai, onde participaria de cursos de treinamento da fundação. "É tudo muito rápido! Gente do céu, eu fico impressionada!", contou, na última entrevista antes de correr para arrumar as malas.

Como começou o contato com o Fundo Malala?

Essa história começou no final de abril. Foi tudo muito rápido. Uma antropóloga que é parceira da Anaí, Daniela Alarcon, está fazendo sua pesquisa de doutorado no Museu do Índio, no Rio de Janeiro. A Fundação Malala procurou o museu, que indicou Daniela. Eles perguntaram se ela conhecia instituições no Nordeste que trabalhassem com a questão indígena. E aí ela nos indicou. Em maio, dia 8, já veio um representante da Fundação Malala para Salvador. Antes disso, a gente fez algumas reuniões por Skype. Nessa reunião aqui na Anaí, nós convidamos estudantes indígenas da Ufba para participar. Acho que isso foi o que causou uma ótima impressão. Nós conversamos muito, falamos sobre as dificuldades de educação, de como era deficitária a questão das escolas de ensino médio nas aldeias. Os índios puderam relatar um pouco das dificuldades que eles tiveram para estudar e chegar até a universidade.

Quando vocês receberam a notícia de que seriam uma das instituições apoiadas?

Foi pertíssimo de ela vir. Eles ficaram no suspense. A gente soube na sexta (dia 29/6), e ela veio na terça (dia 10/7). A gente teve que guardar segredo por um tempo.

A passagem de Malala em Salvador foi bastante tumultuada. Teve a chance de conversar com ela de maneira mais sossegada?

A gente almoçou junto. Eu sentei bem ao lado dela. A equipe pensa isso justamente para poder aproximar a gente, para quebrar a coisa da formalidade. Ela ficou muito impressionada com a situação que o Brasil está vivendo atualmente. Falei de como foi importante essa escolha dela nesse momento do país, quando as instituições que trabalham com essas questões não estão conseguindo acessar editais. Nem estão saindo editais, na verdade... Dinheiro de cooperação internacional nesse momento é muito, muito bem-vindo. Mais do que o dinheiro, há a projeção do vínculo com o nome dela. Mudou tudo. Desde a terça, quando ela chegou, ganhamos uma projeção que nunca tivemos antes.

Um dos objetivos do projeto apoiado pelo fundo é diagnosticar o ensino indígena na Bahia. Você, que acompanha mais de perto essa realidade, diria que estamos em que pé hoje? A maioria das aldeias tem escolas? Os professores recebem formação para atuar nos conteúdos específicos?

Diria que o ensino fundamental não é ideal, mas é melhor estruturado. Do ensino médio, aí falta muita coisa acontecer. A gente não tem dados mais consolidados, por isso mesmo vamos começar o projeto por esse diagnóstico. A Secretaria Estadual da Educação também não tem esses números. Eles só têm dados gerais, do número de alunos matriculados, mas não sabem quantos não estão matriculados. Nas escolas que existem, do que a gente conhece, eles estudam temas relacionados à questão indígena, têm essa especificidade. Mas a formação de professor aqui na Bahia também é um grande gargalo para que haja escolas de boa qualidade e de nível médio. Por exemplo, o curso do Liceei (Licenciatura Intercultural em Educação Escolar Indígena), da Uneb, foi criado há nove anos, e a primeira turma só irá se formar agora. Há um outro curso superior de formação de professores indígenas em Porto Seguro, no Ifba, que acabou de formar a primeira turma. Acho que essa questão das escolas de ensino médio tocou especialmente o Fundo Malala porque eles têm essa bandeira de defender os 12 anos de educação para as meninas em todos os países onde trabalham.

Recentemente, o governo federal cortou bolsas-permanência voltadas para os universitários indígenas e quilombolas. Como a Anaí está atuando diante disso?

A gente divulga nas nossas redes sociais essas notícias todas, faz todo tipo de denúncia. Acompanhamos esses estudantes indígenas e as várias caravanas que foram a Brasília para pressionar o governo. O trabalho que a gente faz é o que se chama de advocacy: divulgar o que está acontecendo, denunciar, acompanhar. É um absurdo, né, é o que a gente chama de racismo institucional. Foi inclusive um dos temas do almoço com a Malala. Comentei isso e falei da luta para que eles conseguissem essas bolsas-permanência, e agora estão cortando. Eram mais de duas mil bolsas e depois de muita mobilização prometeram realocar 800. Os alunos indígenas que estão na universidade vêm de longe, têm custos altos para se manter na cidade. É toda uma estrutura que um aluno urbano de classe média não precisa.

Nas aldeias, há uma diferença do acesso à educação para homens e mulheres? Pelo menos para quem vê de fora, o protagonismo nas tribos ainda é bem masculino, não é?

Pelos relatos que a gente ouve, tem diferenças. Por exemplo, às vezes quando a escola fica mais longe, é mais difícil, se não têm como ir até lá ou como os pais as levarem. Também tem muito isso ainda de casar cedo, de ter filho cedo, de cuidar da casa... Muitas vezes, escutei também que vender artesanato, fazer algo que gere renda, dá mais futuro do que estudar. Com toda essa coisa agora do feminismo, isso está começando a mudar, mas nas aldeias o protagonismo ainda é muito masculino, mesmo. Eles estão mais à frente. Mas é curioso que quando as meninas conseguem romper a barreira do ensino médio, elas acabam seguindo em frente com os estudos, vão para a universidade, enquanto muitos meninos ficam pelo caminho. Nas universidades, há um equilíbrio entre mulheres e homens indígenas, às vezes há até mais mulheres.

E após esse diagnóstico inicial, que ações serão implementadas em apoio com o fundo?

A gente vai fazer essa pesquisa mais qualitativa, mais voltada para as meninas, e depois nós vamos selecionar 60 delas para participarem de oficinas com várias temáticas de direitos humanos. As oficinas vão acontecer nas escolas do local, em contato com os professores. E além disso, numa terceira etapa, vamos fazer campanhas. Pautar agendas para pressionar o governo. É uma bandeira da fundação, e é também a nossa visão, de que não estamos aqui para construir escolas, mas para pressionar o poder público a assumir o seu papel.

Você pessoalmente será capacitada pelo Fundo Malala como uma 'champion' (campeã), ao lado de lideranças de outros países. Como funciona este programa?

Quando a gente foi convidado para fazer o projeto, eles falaram que precisavam de uma 'champion'. Esse nome, campeão, aqui para o Brasil, eu não sei... Para a gente, é meio estranho, mas acho que para a língua inglesa funciona bem. É uma ativista, uma militante, como a gente fala mais. Amanhã (dia 14/7), estou indo para Dubai. É tudo muito rápido! Gente do céu, eu fico impressionada! Lá vou ter um treinamento com outros selecionados. São 23 pessoas ao todo, do Paquistão, Índia, Afeganistão, Nigéria, Síria. A maioria, mulheres, mas há homens também.

Para além das escolas indígenas, você acredita que as escolas regulares ainda tratam a cultura indígena de modo folclórico?

Geralmente, as escolas só nos procuram em abril. É impressionante como os índios aparecem na história do Brasil quando Cabral chega aqui, em 1500, e depois eles desaparecem por um longo período. Você só vai ouvir falar um pouco de novo quando houve as comemorações pelos 500 anos do Brasil. Aconteceram aqueles confrontos, a pancadaria, a confusão. Então, eles ficaram um grande período da história com uma invisibilidade muito grande, como se não existissem. É um hiato histórico. Isso faz com que as pessoas vejam os índios hoje como resíduos do passado. Eu não tenho mais paciência para responder quando dizem: 'Ah, mas é índio e tá de celular?'. Respondo, né, porque é minha obrigação, mas os índios são povos do nosso tempo. Podem andar de avião, ter computador, usar internet, celular.

Por que, na sua opinião, o movimento indígena não se fortaleceu no Brasil, a exemplo do que ocorreu com os movimentos negros, feministas e LGBTs, ao menos no que se refere à visibilidade? Por que não ganhou projeção?
Há um preconceito imenso com a questão indígena. Essa política anterior de Estado de querer que eles se integrassem, de querer que eles desaparecessem, de querer que eles não fossem índios mais, isso só mudou em 1988. É muito recente. A estimativa é que nós temos um milhão de índios no Brasil. Acho que todo esse trabalho desde a época colonial, depois no Império, depois na República, de trabalhar para o desaparecimento deles teve esse reflexo. Um dos youtubers que veio com a Malala ficou escutando as histórias que a gente contava, as barbaridades sobre as terras que não são demarcadas, e falou: 'Mas, gente, não é possível! Não tem um ativismo indígena no Brasil para denunciar isso?'. E aí eu respondi que sim, que existe um ativismo muito grande. Há todo um movimento indígena organizado. Mas aí a pessoa vê o índio protestando e vê o índio de celular e aí parece que já desmerece. Pelo amor de Deus, gente, os índios do Nordeste, tirando os Pataxós, não têm cabelo lisinho, não, olhinho puxado... Uns até têm, mas não são todos. Tem que entender o processo de como a história aconteceu. Algo muito positivo na escolha de Malala de trabalhar com índios do Nordeste é isso. Porque, do ponto de vista do ativismo europeu, eles só veem os índios da Amazônia, meio que como um complemento das campanhas ambientalistas, como guardiões da floresta, da biodiversidade, o que é verdade. Mas aqui também isso acontece, no semiárido, na caatinga, que são biomas mais discriminados, sem tanta visibilidade. Os índios também estão lá protegendo esses lugares. Nos estudos que fizemos com os Xokós, de Sergipe, é nítido como eles conseguiram recuperar a fauna e a flora num tempo relativamente curto, cerca de 30 anos. Na imagem aérea, você vê a área desmatada fora do território deles, e lá está tudo verdinho. Em pouco tempo já há essa regeneração. Quando fui visitar um dos limites das terras dos Xokós, fiquei impressionada. Tinha uma estrada separando e à esquerda era terra de fazendeiro. À direita, a terra indígena. A dos fazendeiros não tinha nada, era aquela poeira, só. E a dos índios era aquela caatinga bonita, sabe, aquela coisa exuberante.

A gente falava de folclore, e no Carnaval deste ano ativistas reivindicaram que as pessoas não se vestissem de índio, com o argumento de que índio não é fantasia. O que você pensa disso?

Eu não sou contra. Os índios se posicionaram totalmente contra, falaram que não é fantasia, e tal. Mas eu acho muito massa os mexicanos estarem de cocar na Copa, torcendo. É uma forma de representar, meio estereotipada, mas é. Em algumas escolas, no Dia do Índio, as crianças estão lá fantasiadas gritando 'uh, uh, uh'. Não tem nenhuma tribo no Brasil que faça isso. Isso é depreciativo.

Há no Brasil uma mobilização grande por parte dos movimentos negros para que as pessoas se assumam negras e não pardas ou morenas. Em que medida, na sua opinião, essa discussão não acaba apagando ou diminuindo nossa herança indígena?

Tem isso, mas acho que muita gente não se assume indígena por preconceito. Há muitos relatos de índios que moram nas aldeias e preferem não se assumir. Essa identidade está ligada a histórias muito traumáticas. Quando trabalhava no Cedefes [Centro de Documentação Eloy Ferreira da Silva], em Minas, muitas pessoas me ligavam na época que surgiram as cotas dizendo assim: 'Ah, minha vó foi pega no laço'. O que é a avó ter sido pega no laço? É estupro. 'Ah, meu avô amansou ela'... Todas essas palavras que se usam... Então você fundar a sua identidade de uma história assim... São séculos de políticas públicas para que essas pessoas deixassem de existir. A coisa da blackitude, do negro, já é diferente. Há mais tempo de empoderamento, né, do negro é lindo, especialmente aqui na Bahia. Os índios, desde 1549, quando os jesuítas pisaram aqui, foram trabalhados para ser incorporados, invisibilizados. Até o ano 2000, Getúlio [Vargas] previa que não haveria mais índio nenhum aqui. É algo brutal.

Como você começou a se interessar pela questão indígena?

Eu estava na faculdade de História quando fui conhecer o Cedefes. Lá me ofereci para fazer trabalho voluntário. Em qualquer organização que você chega com esse perfil o que mais tem é trabalho para fazer, né? (risos). Pouco tempo depois, fui contratada para trabalhar no setor de educação. E aí comecei a fazer esse trabalho de organizar seminários sobre a questão indígena, quilombola, fazer essa ponte do Cedefes com as escolas.

E o que a fez vir morar na Bahia?

Em 2014, a Anaí teve projetos aprovados para fazer o PGTA (Planos de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas), que foi uma das poucas coisas que Dilma fez em relação à questão indígena. A Anaí foi convidada pelo Ministério do Meio Ambiente para fazer esses planos com os Pankararu, de Pernambuco, e os Xokós, de Sergipe. Eu fui chamada para gerir os projetos. Foi perto da Copa. Faz quatro anos certinho. E era uma coisa de um ano só (risos).

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