CB, Opinião, p. 13
14 de Abr de 2008
América Latina e Caribe discutem agricultura
José Tubino
Representante no Brasil da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO)
De hoje ao dia 18 Brasília será sede da Conferência Regional para a América Latina e Caribe da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO). Delegações de alto nível dos 33 países membros da FAO na região são esperadas nesse encontro ministerial, a mais importante reunião promovida pela FAO na América Latina e Caribe. Entre seus objetivos estão revisar as ações da organização nos últimos dois anos e definir as áreas prioritárias de trabalho para o próximo biênio, de acordo às prioridades nacionais e regionais.
Esta será a trigésima reunião intergovernamental do foro diretivo da FAO e acontece no Brasil após 18 anos. Para a FAO, é de particular relevância fazer a Conferência no Brasil. O país é um líder mundial na produção de alimentos e de biocombustíveis e tem um governo comprometido com a luta contra a fome e a desnutrição crônica. Também conta com as maiores florestas tropicais, biodiversidade e fontes de água doce do planeta.
O Brasil, portanto, é um anfitrião natural para sediar uma conferência que vai tratar a fundo temas como biocombustíveis, segurança alimentar, acesso à terra, agricultura familiar, desenvolvimento rural e as doenças transfronteiriças. Além disso, o Brasil também é um dos 44 países fundadores da FAO, que nasceu em 16 de outubro de 1945, no silenciar dos canhões ao final da Segunda Guerra Mundial.
Um dos principais propósitos da conferência é examinar os progressos alcançados pelos países em relação aos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio: reduzir a fome pela metade até 2015. O combate à fome não só é essencial no plano humanitário, mas também requisito indispensável para o desenvolvimento econômico e social.
Auxiliar os países a combater a fome é tarefa central para a FAO. Sua constituição afirma a missão de elevar os níveis nutricionais das pessoas, aumentar a produtividade agrícola, melhorar a vida da população rural e, assim, contribuir para o crescimento da economia mundial e a erradicação da fome. Não é sem motivo que o Dia Mundial da Alimentação se celebra na data de fundação da FAO.
Desde sua criação, a FAO trabalha com esse rumo. Mas o desenvolvimento é um processo dinâmico e as circunstâncias da agricultura, das florestas e da pesca têm mudado nos últimos tempos. Hoje, mais que nunca, os objetivos da FAO precisam ser conquistados com o uso racional dos recursos naturais. As mudanças climáticas e a deterioração da biodiversidade e da qualidade de solos e água reduzem a capacidade produtiva e sinalizam a necessidade de se investir fortemente na sustentabilidade dos sistemas de produção e na preservação dos ecossistemas para criar uma nova forma de produzir com eficiência econômica e responsabilidade social e ambiental.
E é nesse contexto que precisamos aumentar a produção agrícola para satisfazer uma demanda cada vez maior. Entre 1945 e 2000 a população mundial triplicou de 2 bilhões para 6 bilhões de pessoas. A projeção para 2050 é que sejamos 9 bilhões. Também não podemos nos esquecer das novas demandas, como por bioenergia. Isso não significa a competição entre bioenergia e segurança alimentar. Ambos podem não só conviver, como a bioenergia pode contribuir para a segurança alimentar.
A bioenergia será um dos temas debatidos na Conferência Regional. A FAO propõe aos governos que as políticas e mecanismos de apoio à produção de bioenergia levem em conta fatores como a segurança alimentar, sustentabilidade ambiental e inclusão da agricultura familiar na cadeia produtiva. Se bem aproveitada, ela oferece oportunidade de desenvolvimento para famílias pobres que vivem no campo.
Para a América Latina e o Caribe, combater a fome e a pobreza é fundamental. Hoje existem 52 milhões de pessoas subnutridas na região e 20% das crianças sofrem de desnutrição crônica. É um paradoxo numa região que é uma das maiores exportadoras mundiais de alimentos, que tem um excedente de 31% na oferta de energia alimentária. Essa realidade reafirma que o principal problema não é a falta de comida, mas o acesso a ela: existem populações que não contam com renda suficiente para chegar aos alimentos disponíveis no mercado nem aos recursos para produzi-los.
Os desafios que a região enfrenta são grandes, mas também existem oportunidades escondidas. Há muito que fazer e a FAO reafirma o compromisso de apoiar os países a avançar no combate à fome, à pobreza e no desenvolvimento sustentável do setor agropecuário.
CB, 14/04/2008, Opinião, p. 13
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