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Ameaça ambiental em alto-mar

OESP, Vida, p. A25
Autor: EARLE, Sylvia
13 de ago de 2006

Ameaça ambiental em alto-mar

Sylvia Earle

Durante dezenas de milhares de anos, as sociedades baseadas na caça e pesca dependeram do mundo natural ao seu redor para obter alimentos.

Hoje em dia, alguns povos indígenas ainda vivem dessa forma e consomem elementos da vida selvagem de uma maneira sustentável. Seria uma idiotice da parte deles destruírem as florestas e as planícies que lhes proporcionam víveres.

Mas, ironicamente, na nossa sociedade "avançada", fazemos exatamente isso. No mar, cada vez mais são empregadas técnicas de pesca indiscriminadas, negligentes e completamente insustentáveis. Essas técnicas destroem os hábitats que produzem e reabastecem os recursos. A pesca comercial tem causado danos significativos a ecossistemas marítimos em grande parte desconhecidos, exaurido inúmeras espécies de peixes, pássaros marinhos e mamíferos marinhos e condenado muitas outras espécies à extinção.

Com o esgotamento de reservas pesqueiras costeiras no mundo inteiro, tais como a pesca do bacalhau na região nordeste dos Estados Unidos, a indústria da pesca se transferiu para os altos-mares - os 64% do oceano que se estendem além das jurisdições nacionais. As operações de pesca têm por alvo as montanhas vulcânicas subaquáticas, cadeias de montanhas submarinas e platôs no fundo do mar cujas propriedade e responsabilidade não recaem sobre nenhum país.

Imensas redes de arrasto presas a traineiras indicam a escala colossal do ataque e o dano infligidos. Numa ação parecida com a de passar tratores de lâmina nas florestas para pegar pássaros canoros e esquilos, redes instaladas em maciços roletes são arrastadas através do leito do mar, varrendo tudo no seu percurso. Às vezes, uma única rede retira cerca de 5 mil quilos de esponjas, corais, peixes e outras formas de vida do leito do mar, deixando um deserto submarino estéril e desolado.

Os altos-mares são peculiares. Quilômetros abaixo da superfície, na ausência de luz solar, os animais retiram energia dos orifícios vulcânicos. Somente em alto-mar ainda existem alguns hábitats livres de espécies invasivas. E somente em alto-mar encontramos organismos vivos com mais de 8 mil anos de idade, tais como os corais do mar profundo.

Sabemos destes fatos na área relativamente pequena do mar profundo que tem sido explorada. Os recursos naturais vivos na maior parte da área ainda não foram vistos por olhos humanos. O que distingue especialmente o alto-mar de todas as outras áreas marítimas é a quase total falta de proteção desse legado da natureza. Mudar isso é uma dívida que temos conosco mesmos e com as futuras gerações. E por meio da liderança da ONU, isso poderá acontecer dentro em breve.

No mês passado, a Divisão de Assuntos Oceânicos e Direito do Mar da ONU divulgou um relatório analisando medidas para proteger os altos-mares. Encomendado pela Assembléia Geral em 2004, o relatório diz que hábitats extremamente vulneráveis do mar profundo requerem proteção mas que a pesca em alto-mar continua sem regulamentação, a ponto de provocar sérios danos.

O relatório observa que o uso de redes de arrasto no fundo do mar profundo é de particular preocupação, por sua tendência a resultar na pesca em excesso tanto de espécies alvos como de espécies que não são alvo e por danificar ecossistemas vulneráveis que proporcionam hábitat crucial para a vida marinha.

O relatório cita a "necessidade premente" em alguns casos de medidas provisórias tais como uma interrupção nas atividades de pesca com rede de arrasto no leito do mar profundo até que possam ser implantados sistemas de preservação e gerenciamento oficiais.

Os Estados membros da ONU tinham até 7 de agosto para responder ao relatório e oferecer sua opinião sobre a suspensão dessas atividades, que será analisada na próxima Assembléia Geral da organização.

Na preservação, muitas vezes a ação só vem depois que ocorreu a destruição. No caso do alto-mar, a ONU está numa posição privilegiada de atuar antes que danos irreparáveis sejam feitos. Com essa decisão crucial, podemos prevenir a extinção de incontáveis espécies e ecossistemas que apenas agora começam a ser descobertos e que ainda não são compreendidos.

Até o momento, a suspensão temporária dessas atividades conta, em grande parte, com o respaldo de países em desenvolvimento que não têm recursos financeiros para instalar equipamentos caros no mar profundo.

A medida encontra oposição principalmente de uma meia dúzia de países com frotas de grandes embarcações pesqueiras.

Os Estados Unidos têm indicado que, por enquanto, quer restringir a expansão da pesca com rede de arrasto no fundo do alto-mar, com a possibilidade de uma suspensão nas atividades em 2009.

Porém, mais três anos de pesca com rede de arrasto varrendo o leito do mar profundo poderão nos custar milhares de anos de vida marinha.

A recente declaração do presidente Bush sobre a proteção extraordinária do Monumento Nacional Marinho das Ilhas Havaianas do Noroeste foi uma demonstração notável da preocupação dos EUA com os recursos marinhos. Vamos ressaltar nossa liderança na proteção global aos mares com um apoio forte e específico à suspensão temporária das atividades de pesca com rede de arrasto no leito do mar profundo, estabelecendo um exemplo para outros membros da ONU.
Esta é uma oportunidade de proteger nossa última vida selvagem não revelada antes que um dano irreversível ocorra.

Sylvia Earle, bióloga marinha e líder no campo de exploração do oceano, é presidente do conselho marinho da Conservation International de Washington

OESP, 13/08/2006, Vida, p. A25

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