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Ambiente brasileiro & propaganda enganosa

OESP - https://politica.estadao.com.br/blogs/fausto-macedo
Autor: NALINI, JosÉ Renato
08 de jul de 2020

Ambiente brasileiro & propaganda enganosa

José Renato Nalini*

O desastre imposto à tutela ambiental por quem só existe para proteger a natureza custará caro às futuras gerações. O retrocesso tem preço. O julgamento da História será rigoroso em relação aos dendroclastas. Aqueles que não só descuidaram de sua função precípua, mas incentivaram a destruição da floresta, da biodiversidade e a entrega do patrimônio nacional à sanha de criminosos.
O estágio das tecnologias da comunicação e informação é algo que não permite aos interessados esconder a tragédia. A voz da civilização clama por um "basta", porque o prejuízo não se circunscreve aos lindes do território brasileiro. Afeta o planeta e prejudica a Humanidade.
Vexame que se acrescenta à cornucópia das recentes vergonhas que o Estado registra, para tristeza da parca lucidez que ainda não desistiu de implorar por juízo e sensatez, é a carta aberta dos 29 fundos de investimento e pensão, divulgada em todo o planeta. Eles são responsáveis por administrarem 4,1 trilhões de dólares, ou 21,6 trilhões de reais e condenam o desmatamento na Amazônia. No dia 22 de junho de 2020, essa carta foi simultaneamente entregue a sete embaixadas brasileiras na Europa, no Japão e nos Estados Unidos.
Quatro dias antes, em 18.06.2020, 29 deputados do Parlamento Europeu encaminharam correspondência ao Presidente do Congresso, evidenciando sua preocupação com a desfaçatez com que se estimula o extermínio da maior floresta tropical do mundo. É óbvio que isso pesará na aprovação do acordo celebrado com a Comunidade Europeia, a fazer água e destinado a naufragar. Pondo abaixo o laborioso empenho da diplomacia brasileira por pelo menos duas décadas.
Se recuarmos três dias, exatamente no dia 15.06.2020, cinco respeitadas entidades voltadas ao enfrentamento do cataclismo gerado pelas mudanças climáticas fizeram chegar à ombudsman da União Europeia sua posição pela não ratificação do tratado que tanto custou de esforço e investimentos ao Brasil. Não são organizações menores, mas de reconhecido prestígio no globo: ClientEarth, Fern, Veblen Institute, FIDH e Fondation pour la Nature et l'Homme.
Paradoxalmente, é só no Brasil que o tema ecologia desmerece o respeito conquistado em todo o planeta. Aqui, dispensa-se a participação da Escandinávia no fomento da proteção do verde, ofende-se a Primeira Dama de um país-irmão e de imensa influência na consolidação da cultura tupiniquim, ironiza-se a jovem Greta que, no mundo culto, faz os adultos corarem de constrangimento.
Enquanto se ameaça acabar com a regulamentação do uso racional de um patrimônio que ninguém construiu, mas que sabe destruir com inclemência e celeridade, entidades do agronegócio publicam páginas inteiras para louvar, em abominável servilismo, quem fala em "soltar a boiada" e lançar uma "baciada" de flexibilização.
Isso não deixou de ser observado por aqueles que detêm potencial de investimento, artigo de primeiríssima necessidade num país em recessão e mergulhado numa crise nefasta de inúmeras faces: ética, moral, política, econômica e sanitária. É insuficiente a nota ponderada emitida pela Ministra da Agricultura, no sentido de que o Brasil pode produzir ainda mais sem necessidade de cortar sequer uma árvore. Os cientistas execrados pela obtusa visão preponderante, a da "terra arrasada", já cansaram de advertir que a recuperação de terras abandonadas pela exaustão, depois de exploradas sem uso raciona de tecnologia disponível, multiplicaria a produtividade de quem aspira a ser o celeiro do mundo.
O festival de asneiras que se ouve falar sobre a ecologia não permite ecoe a lucidez do Presidente do Banco Central, de que a natureza preservada geraria mais recursos dos quais o Brasil precisa como alguém abandonado no deserto e sem vislumbrar no horizonte o seu oásis. O mercado de títulos verdes seria uma alternativa para um País que já foi exemplo de pioneirismo na preservação da natureza.
A bioeconomia da floresta é um convite escancarado a que o Brasil que tem juízo acorde! Há uma série de alertas eloquentes. Basta ler o climatologista Carlos Nobre, ouvir o Instituto Socioambiental, a SOS Mata Atlântica, todos os ex-Ministros do Meio Ambiente, que legaram sólida teoria e prática de ética ambiental neste Brasil que teria tudo para liderar o planeta no trato consequente do patrimônio natural.
Mas a visão caolha parece prevalecer.
Acenar-se com propaganda e atribuir à "narrativa" (hoje, tudo é "narrativa"...) uma inexata compreensão do que acontece no Brasil é uma falácia. Propaganda alguma convencerá o mundo culto de que em junho a Amazônia deixou de registrar o maior número de queimadas desde 2007. Nem de desmentir a crua realidade de que já exterminamos área verde equivalente ao Chile. Propagandear sobre o irreal é propaganda enganosa. Contribuição que o Código do Direito do Consumidor tornou muito clara para os brasileiros.
O que resta à cidadania? Conformar-se com a fatalidade? Permitir que impere a sanha destruidora? Ou retomar as rédeas do Estado, assumindo a posição de quem acredita na Democracia Participativa?
As redes sociais semeiam a ignomínia e o atraso, mas também servem para acicatar os insensatos. As novas gerações, mais sensíveis e menos iludidas com o pantanal da política partidária, poderão mostrar aos que se consideram onipotentes, que ninguém tem o direito de sepultar a perspectiva de vida hígida para os que ainda não nasceram.
Têm condições de motivar os governantes locais, nos Estados e nos municípios, que assim como parece ocorrer nos Estados Unidos, não se deve permitir que a equivocada concepção do ambiente comprometa um futuro pelo qual todos somos responsáveis.
Impõe-se recordar o lema inicial do ambientalismo, hoje aparentemente negligenciado: pensar globalmente, agir localmente. Há muito a ser feito para mostrar ao mundo que, a despeito de pragas transitórias, pode existir ao Brasil uma alternativa que não seja o caos.

*José Renato Nalini é autor de Ética Ambiental (RT-Thomson Reuters) e integrou a Câmara Reservada ao Meio Ambiente do TJSP, de 2005 a 2015

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