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Ambiente-Brasil: Guarapiranga, um manancial em perigo

Envolverde
06 de Jun de 2007

Ambiente-Brasil: Guarapiranga, um manancial em perigo

Por Mario Osava *, da IPS

José Carlos Bezerra reconhece que o esgoto de sua casa flui para a represa de Guarapiranga, de onde se extrai água pra consumo humano. Mas o que fazer, pergunta, se sua renda não lhe permite viver em um lugar mais adequado. Sua casa, colada as de dois vizinhos, fica exatamente sobre o riacho Itupu, que recebe o esgoto direto de milhares de residências pouco antes de desembocar no rio Guarapiranga, que abastece 3,8 milhões de habitantes da Grande São Paulo.

Colunas de concreto encravadas no leito do riacho sustentam a metade posterior das casas, que têm a outra metade apoiada em terra nada firme à beira de um barranco onde a erosão se evidencia pela profundidade de aproximadamente três metros da faixa escavada pelas águas, que sobem muito quando chove. Misturas de azulejo, madeira e plástico compõem essas precárias moradias, que tampouco aparentam solidez. "Se caírem, construiremos outras", disse seu vizinho Luciano da Silva, que como Bezerra deixou o nordeste pobre semi-arido há cerca de 10 anos em busca de trabalho em São Paulo, acompanhado da mulher e uma filha pequena.

Auxiliar de pedreiro em trabalhos eventuais, só restou a Silva viver nesse lugar instável, já que não pode pagar o aluguel de uma casa mais digna, e também se nega a invadir terras alheias. Não se arrepende de ter seguido para São Paulo, onde ganha por um dia de trabalho "cinco vezes mais do que em Alagoas", seu Estado natal. Mas tanto Bezerra quanto Silva terão suas casas demolidas em breve, devido às obras de canalização do riacho que está sendo feita no bairro. Suas únicas esperanças são que a assistência social do município lhes ofereça pelo menos uma área para poderem construir novas casas.

Euclides Lima, de 72 anos e quatro filhos, que também deixou o nordeste, há 40 anos, espera ter melhor sorte. Acredita que perderá apenas um terço de sua casa, que fica em terra firme, mas em uma curva do riacho, compondo um obstáculo na trajetória do canal reto. Pedreiro aposentado e previdente, ele construiu sua casa com a possibilidade de acrescentar um novo piso sobre a parte que restar, substituindo o terço condenado. Estes três imigrantes nordestinos e suas famílias fazem parte dos 950 mil moradores da bacia hidrográfica de Guarapiranga e ameaçam contaminar irremediavelmente a água consumida por um quinto dos 19 milhões de habitantes da Grande São Paulo. No censo de 1991, está área já era ocupada por 550 mil pessoas.

Este explosivo aumento na população, que fez de Guarapiranga "um manancial urbano", se deve à expansão dos chamados "bairros dormitórios" nos arredores da represa, por sua proximidade com o "centro dinâmico" da capital paulista, que se deslocou para sul e oeste, concentrando grandes hotéis e empresas geradoras de empregos, explicou Ricardo Araújo. "Não perder o sistema Guarapiranga", a segunda maior fonte de abastecimento local, é crucial para garantir água potável suficiente para a região metropolitana, cuja população continuará crescendo até 2025, quando, calcula-se, estará entre 23,5 milhões e 24 milhões de habitantes, segundo Araújo, coordenador da Secretaria de Saneamento e Energia do Estado de São Paulo.

Atualmente, o abastecimento já está no limite, com oferta e demanda praticamente no mesmo volume, de aproximadamente 67 metros cúbicos por segundo, que varia segundo as épocas do ano, sem margem de segurança. Qualquer acidente provoca racionamentos em alguns bairros ou cidades. Por isso serão indispensáveis "novos mananciais", para o qual a secretaria tem planos de ampliar as duas fontes existentes na Grande São Paulo e buscar água em uma bacia externa, a do rio Ribeira, que implica altos custos de transporte, além de precisar ser retirada desde 180 metros de profundidade.

O aumento total seria de 12 metros cúbicos por segundo, sem acrescentar excedentes de segurança. Sem a Guarapiranga seria preciso buscar recursos hídricos ainda mais longe, com investimentos e custos operacionais insuportáveis para a população pobre, como energia para bombear água. A energia já representa 20% dos custos de saneamento da área metropolitana, destacou Araújo. Mas, outros mananciais também estão ameaçados pela pressão demográfica, como a represa Billings, com cerca de 900 mil pessoas vivendo em sua área.

A região da Grande São Paulo deixou de atrair imigrantes do interior do país nos anos 80, depois de décadas de fluxos permanentes, o que ajudou a deter o crescimento acelerado de sua população. Mas, essa situação foi substituída por uma "forte migração interna" para a periferia da cidade, com os pobres expulsos das áreas centrais pelo alto valor dos imóveis e invadindo as bacias-chave, afirmou Marussia Whately, coordenadora do Programa Mananciais do não-governamental Instituto Socioambiental (ISA).

Enquanto diminuíram os moradores dos bairros centrais de São Paulo, municípios do sul da área metropolitana, como Embu-Guaçu, registram crescimento demográfico de 5% a 6% ao ano, com isso multiplicando os bairros sem saneamento, afirmou Whately, baseada em estudos e ações do Isa na defesa da represa. É necessário "reverter a lógica urbana" que expande e aumenta a densidade da periferia de São Paulo em detrimento do centro da cidade.

Mas a tendência centrífuga se agrava pela construção do Anel Viário, que o governo estadual constrói para ligar as estradas sem que os veículos pesados de carga cruzem localidades próximas à capital paulista, criticou a especialista. Com é impossível retirar a população da zona mais afetada dos mananciais, é preciso "desconcentrá-la" e evitar que continuem contaminando a água, acrescentou Whateley. Entretanto, esse objetivo encontra dificuldades diante de um modelo ineficiente de saneamento, com poucas estações de tratamento de esgoto, que obriga seu transporte por dezenas de quilômetros de canalização que atravessam as cidades, gerando o fenômeno das "fezes cansadas", ironizou a ativista.

Municípios inteiros não têm esgoto com tratamento e a instalação de encanamentos apenas agrava o problema ao levar toda a contaminação diretamente às represas, perdendo a capacidade de "depuração" dos riachos, que é limitada, mas que se poderia melhorar, lamentou Whately. Por sua vez, Araújo reconhece a falta de adequação do sistema "monopólico" de tratamento, projetado há quatro décadas e que não se pode reestruturar mas substituir em novos assentamentos, porém, negou que a maior parte do esgoto vá para o rio Guarapiranga sem tratamento.

"Boa parte está canalizada pra fora" da bacia, garantiu. O problema é que a separação entre esgoto e água da chuva, adotada no Brasil, não se cumpre especialmente nos bairros pobres, explicou Araújo. Sobre os efeitos do Anel Viário, que inclui pontes sobre as represas de Guarapiranga e Billings, disse acreditar que não atrairá muitos moradores, porque os estímulos para essa emigração para a periferia já foram oferecidos pelas estradas a serem conectadas. Por outro lado, essa obra irá promover uma melhora economia na região metropolitana, reduzindo a pressão contaminadora sobre os mananciais, acrescentou.

Em sua avaliação, a pobreza é o principal fator de deterioração ambiental nas bacias, com ocupações ilegais que dificultam um saneamento completo. A contaminação dos mananciais, de fato, constitui "um problema sócio-ambiental", afirmou Marco Antonio Lucena, administrador do Parque Ecológico de Guarapiranga, criado em 1999 para proteger dois dos 28 quilômetros das margens da represa, conservando 250 hectares de florestas. Um esforço de educação ambiental e atividades culturais, desportivas e sociais desenvolvidas no parte procura conquistar a população vizinha, muito pobre, a defender o recurso natural do qual depende toda a população metropolitana.

Os trabalhadores são recrutados quase todos nos bairros locais. Nos campos de futebol jogam 16 equipes da região, há colaboração com as escolas vizinhas, apresentação de grupos de teatro e música e um telecentro para acesso da população à Internet, explicou Lucena. Clubes desportivos que no passado atraiam as pessoas de classe média são aliados na preservação ambiental, por manterem limpa a costa a impedir sua ocupação, mas lamentou que hoje estejam em decadência porque antigos sócios temem cruzar os bairros pobres e violentos que há em torno da represa.

Mas o governo tem planos para criar cinco novos parques e recuperar atividades de lazer. A carência de moradias para os pobres mantém a pressão sobre os mananciais. O Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, que tem como ação prioritária ocupar terrenos baldios na periferia para levantar assentamentos populares, manteve entre março e meados de maio um acampamento de 3.500 famílias em Itapecerica da Serra, município da bacia do Guarapiranga. O MTST obteve a promessa do governo de construção de casas para boa parte dos acampados.

Essa mobilização reforça a tendência de expansão da metrópole para a periferia, com seus efeitos negativos e contrariando a necessária revitalização do centro de São Paulo, onde há 400 mil moradias desocupadas, disse Nelson Saule, especialista do Instituto Polis. A periferia da cidade não dispõe da infra-estrutura física, dos serviços e das oportunidades de emprego que o centro oferece, acrescentou. Está é uma "visão acadêmica, dos que não conhecem na prática o déficit habitacional, os bairros pobres e a necessidade real das pessoas que moram neles", disse Guilherme Boulos, um dos líderes do MTST. (IPS/Envolverde)

(*) enviado especial

Crédito da imagem: AsBEA - Associação Brasileira dos Escritórios de Arquitetura
(Envolverde/ IPS)

Envolverde, 06/06/2006

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