VOLTAR

A Amazônia que ensina

Um só Planeta - umsoplaneta.globo.com
Autor: *Marcelo Cwerner
30 de Mar de 2026

Nas últimas semanas, imagens de deslizamentos de terra e cidades afetadas por chuvas intensas em regiões de Minas Gerais voltaram a evidenciar um fenômeno cada vez mais presente no Brasil: eventos climáticos extremos que transformam a água, essencial à vida, em risco para comunidades inteiras. Em áreas onde a cobertura vegetal foi reduzida e o solo perdeu sua capacidade de absorção, chuvas concentradas podem rapidamente se transformar em tragédia.

Na Amazônia, a chuva também é abundante. Em muitas regiões, ela cai quase todos os dias durante boa parte do ano. A diferença é que, onde a floresta permanece de pé, o território funciona como um sistema natural de regulação: o solo absorve a água, as raízes estabilizam o terreno e a vegetação cria condições para que o ecossistema se recupere continuamente. Da mesma forma, quando o regime se inverte e o período de seca chega, a floresta preserva a umidade e protege o solo do ressecamento e exposição excessiva ao sol.

Essa capacidade de regeneração revela algo importante sobre o papel da floresta no enfrentamento da crise climática. Mais do que um grande reservatório de biodiversidade, a Amazônia também é um território onde a relação entre produção, vegetação e clima ainda guarda lições importantes sobre resiliência ambiental.

Durante muito tempo, as discussões sobre o futuro da Amazônia foram conduzidas a partir de centros de pesquisa, gabinetes técnicos e fóruns internacionais. Embora esses espaços sejam importantes, a experiência cotidiana de quem vive e produz na floresta revela algo essencial: muitas das respostas para o desenvolvimento sustentável da região já existem no território, construídas ao longo de gerações de agricultores e agricultoras, agroextrativistas e populações indígenas, quilombolas e tradicionais.

Em comunidades amazônicas, a regeneração do território não começa em laboratórios ou escritórios, mas no conhecimento acumulado por famílias que aprenderam, ao longo do tempo, a produzir respeitando os ciclos da floresta. Práticas produtivas adaptadas às condições locais, o intercâmbio de experiências entre agricultores e a observação atenta da natureza formam a base de sistemas agroflorestais capazes de conciliar produção, renda e conservação.

Esses sistemas não surgem como uma inovação importada, mas como um processo vivo de aprendizagem coletiva. Em muitos casos, agricultores experimentam combinações de culturas, observam o comportamento do solo, ajustam o manejo das áreas e compartilham os resultados com vizinhos e membros de suas cooperativas. Esse processo contínuo de troca e aperfeiçoamento transforma o território em um espaço de experimentação e construção de conhecimento.

Em municípios da micro-região de Tomé-Açu, por exemplo, agricultores que integram redes apoiadas por iniciativas na região têm ampliado seus conhecimentos sobre sistemas agroflorestais que combinam culturas como cacau, açaí, dendê, frutas e espécies florestais. Um exemplo concreto dessa evolução é o trabalho das mulheres da AMPROFE (Associação de Moradores e Produtores Rurais da Comunidade Fé em Deus e Região), situada no km 18 do município. Ao participarem de encontros e intercâmbios, elas consolidaram a adoção de práticas regenerativas que fortalecem a resiliência do território. Além de diversificar a produção e reduzir riscos econômicos, esses sistemas fortalecem cadeias produtivas que mantêm a floresta viva, capturam carbono e contribuem para a restauração do clima.

Reconhecer essa dimensão é fundamental para pensar caminhos econômicos viáveis para a Amazônia. Em vez de tratar as comunidades apenas como beneficiárias de projetos ou políticas, torna-se necessário enxergá-las como protagonistas de soluções que dialogam diretamente com os desafios contemporâneos da região: produzir alimentos, gerar renda e manter a floresta viva.

Nesse sentido, projetos como o Amana, organizações como a Conexsus e plataformas como a PPA - Parceiros Pela Amazônia, buscam atuar como pontes. Ao coordenar assistência técnica, articulação territorial coletiva e acesso a mercados e a políticas públicas, o objetivo é fortalecer processos que já existem nas comunidades e ampliar sua capacidade de gerar impacto positivo no território.

A Conexsus tem como um dos seus focos o destravamento do acesso à crédito rural, conectando produtores com a política pública de financiamento à agricultura familiar. Enquanto isso, a PPA articula governança territorial multi-atores, com o envolvimento do poder público e setor privado, e o Projeto Amana promove capacitações e intercâmbios, além de mobilizar cooperativas e associações de produtores para engajamento em atividades que focam em transição ecológica. Não se trata apenas de apoiar a produção, mas de contribuir para a construção de cadeias econômicas mais resilientes, baseadas em práticas regenerativas e em relações de confiança entre os diferentes atores envolvidos.

Esse movimento também aponta para uma mudança importante na forma como a Amazônia é percebida. Durante décadas, a região foi frequentemente retratada como um espaço de carência ou como um problema a ser resolvido. No entanto, quando observamos mais de perto as experiências que emergem dos territórios, torna-se evidente que a Amazônia também é um lugar de inovação social, de conhecimento acumulado e de soluções que podem inspirar novos modelos de desenvolvimento.

Valorizar esse conhecimento local não significa romantizar o passado ou ignorar os desafios enfrentados pelas comunidades amazônicas. Pelo contrário: significa reconhecer que a construção de uma economia mais sustentável para a região depende justamente da combinação entre saberes tradicionais, ciência, políticas públicas e novas formas de organização produtiva.

Se a floresta garante hoje essa capacidade de absorver chuvas, regenerar solos e estabilizar o território, a perda acelerada de cobertura vegetal coloca em risco justamente essa resiliência, aproximando a região de um ponto de não retorno, em que a recuperação natural pode deixar de acontecer.

A Amazônia tem muito a ensinar sobre como produzir em equilíbrio com a natureza. Escutar essas experiências e aprender com elas talvez seja um dos passos mais importantes para construir um futuro em que floresta, economia e comunidades possam prosperar juntas.

Talvez o maior desafio não seja inventar novos caminhos para a Amazônia, mas reconhecer e fortalecer aqueles que já existem no território.

*Marcelo Cwerner é economista e foi cofundador do Instituto Aquífero, em Alter do Chão (PA). Atuou por 12 anos no mercado financeiro, tornando-se sócio da KPMG Corporate Finance. Na Amazônia, fundou negócios de ecoturismo e iniciativas socioambientais ligadas a resíduos e conservação. Com passagens pela NESsT Brasil, Conexsus e Amazon Investor Coalition, atualmente, é coordenador-líder do Projeto Amana.

Siga o Um só Planeta:

https://umsoplaneta.globo.com/opiniao/post/2026/03/a-amazonia-que-ensin…

As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.