VOLTAR

A Amazônia pode salvar sua vida?

OESP - https://sustentabilidade.estadao.com.br/noticias/geral
Autor: PLOTKIN, Mark J.
08 de out de 2020

A Amazônia pode salvar sua vida?
Cientistas estudam o potencial medicinal de plantas e animais na vasta floresta tropical da região

Mark J. Plotkin*, The New York Times
08 de outubro de 2020 | 10h00

A medicina ocidental é o método de cura mais bem-sucedido já desenvolvido e vem se aprimorando conforme a tecnologia avança e os medicamentos sintéticos proliferam. Mas a Mãe Natureza tem sintetizado substâncias químicas medicinais exóticas e maravilhosas por mais de três bilhões de anos, muitas das quais os pesquisadores nem em sonho poderiam prever ou imaginar.
Eles deveriam ir para a Amazônia.
Por mais de três décadas, trabalhei, colaborei e convivi com os xamãs da floresta enquanto aprendia alguns dos seus segredos. Na paisagem de sonhos da Amazônia floresce uma abundância de espécies de plantas e animais que proporcionaram à sociedade uma Farmacopéia de medicamentos de alcance surpreendente, de anticoncepcionais a tratamentos para hipertensão e malária, um analgésico dentário, relaxantes musculares cirúrgicos e substâncias químicas que expandem a mente.
A região é tão vasta e impenetrável que muito dentro dela permanece inexplorado. Não é de se espantar que a riqueza da paisagem e o impressionante conhecimento medicinal dos povos indígenas inspiraram admiração e perplexidade nos primeiros visitantes da Europa.
Já em 1600, o médico holandês Willem Piso observou vários tratamentos locais "muito eficazes" no Brasil, escrevendo: "Esses povos indígenas, apesar de sua completa falta de formação científica, repassaram para a geração seguinte muitos antídotos e remédios desconhecidos pela ciência clássica".
Hoje, as magníficas florestas da região estão sendo destruídas, suas culturas indígenas interrompidas e extintas cada vez mais rapidamente. Mas o potencial medicinal da Amazônia está realmente crescendo, pois novas tecnologias nos permitem encontrar, isolar, avaliar, manipular e empregar substâncias naturais mais rápido do que nunca.
Se pudermos escapar da destruição, não teremos que escolher entre o microchip ou o curandeiro. Ambos podem nos levar a novas curas, se abordadas de maneira responsável e ética.
Nossa falta de conhecimento sobre a flora e a fauna amazônicas continua surpreendente. Um estudo recente estima que existam cerca de 16.000 espécies de árvores na Amazônia, das quais milhares ainda nem foram denominadas pelos cientistas, muito menos avaliadas pelo seu potencial medicinal.
Os cientistas não conseguem nem mesmo concordar sobre quantas espécies de plantas, animais e fungos habitam a floresta tropical sul-americana. Estamos coletando novas espécies mais rápido do que podemos identificá-las: no final de julho, um painel estimou que encontramos uma nova espécie na Amazônia a cada dois dias.
Essas descobertas não são apenas pequenos fungos e insetos. Apenas nos últimos anos, os pesquisadores descobriram criaturas aparentemente óbvias como uma nova espécie de golfinho de água doce, duas novas espécies de enguias elétricas, uma tarântula azul-cobalto e a árvore mais alta da Amazônia, que é quase 30 metros mais alta que a que estava registrada anteriormente. Num mundo onde os recordes são tipicamente quebrados por segundos ou centímetros, este último achado demonstra claramente o quanto ainda temos a aprender.
As maravilhas abundam. Uma delas é o sapo-verde. A análise laboratorial de sua pele rendeu várias proteínas novas, duas das quais foram investigadas como meios potenciais de aumentar a permeabilidade da barreira hematoencefálica, um desafio fisiológico importante para a administração de medicamentos diretamente ao cérebro - um santo graal da medicina moderna.
Dois outros novos grupos de proteínas encontrados no mesmo sapo são antimicrobianos, o que pode ajudar a fortalecer nosso arsenal de antibióticos; a resistência das bactérias aos antibióticos comumente usados é um problema sério e crescente nos hospitais norteamericanos. A descoberta mais impressionante foi o isolamento de um novo opióide, a dermorfina, que é 40 vezes mais potente do que a morfina.
Embora possa um dia servir de base para um novo analgésico não viciante, já provou sua utilidade de uma maneira lucrativa e sinistra: dopando cavalos puro-sangue. Investigadores descobriram que a dermorfina estava sendo administrada a cavalos de corrida para fazê-los correr mais rápido e sem dor; a substância não foi detectada pelos testes convencionais de drogas.
Para compreender melhor a abundância farmacêutica potencialmente disponível na Amazônia, precisamos expandir nosso olhar muito além do arquétipo do cientista ocidental em busca de plantas medicinais e animais conhecidos apenas pelos xamãs da floresta tropical. Algumas das pistas mais intrigantes originam-se de criaturas nocivas ou perigosas que não são usadas e são até mesmo evitadas pelos povos da floresta. Nas palavras do médico suíço Paracelsus, do século 16, o pai da toxicologia, a diferença entre um veneno mortal e um remédio que salva vidas pode ser apenas uma questão de dosagem. Daí um crescente interesse em estudar as plantas, animais e fungos venenosos da Amazônia.
Mesmo quando um veneno ou outro composto peculiar não pode ser convertido em medicamento, pode nos ensinar algo novo: a síntese do AZT, o primeiro tratamento eficaz para o HIV, foi inspirada por compostos exclusivos extraídos de uma esponja caribenha. Os venenos, com os quais a Amazônia está amplamente estocada, desempenharam um papel vital em nos ajudar a entender como os medicamentos funcionam no corpo humano, particularmente no sistema nervoso. Por exemplo, a floresta amazônica abriga aproximadamente 75 espécies de sapos venenosos de cores extravagantes. Mais de 400 novos alcalóides - uma classe de substâncias químicas biologicamente importantes que inclui cocaína, cafeína e estricnina - já foram encontrados em suas peles. O estudo desses novos compostos está levando a um melhor entendimento da função dos anestésicos locais, anticonvulsivos, antiarrítmicos e até mesmo de algumas toxinas no corpo humano.
A Amazônia é o lar de mais de uma dúzia de espécies de cobras venenosas, principalmente víboras da família da cascavel. Uma espécie que habita as pastagens ao sudeste da Amazônia possui um veneno que causa uma rápida queda de pressão arterial na vítima. O estudo desse composto resultou na síntese do captopril, um dos medicamentos mais eficazes e lucrativos já inventados, que por sua vez ajudou a gerar uma classe inteira de medicamentos para pressão arterial - inibidores da ECA, que salvaram a vida de milhões de pessoas com hipertensão.
Uma criatura igualmente assustadora é a temida aranha armadeira, talvez a aranha mais mortal da Terra. A Amazônia é abundante em aranhas - as estimativas atuais são de cerca de 3.000 espécies - e seus venenos tendem a ser coquetéis extraordinariamente complexos de proteínas, peptídeos perigosos e outras toxinas. Um componente do veneno da aranha armadeira está sendo estudado como um tratamento para disfunção erétil. Ao mesmo tempo, os escorpiões amazônicos estão recebendo cada vez mais atenção por causa de seu potencial farmacêutico, principalmente por suas propriedades analgésicas e antimicrobianas.
Outros temidos animais amazônicos geraram indícios terapêuticos potencialmente importantes, incluindo o morcego-vampiro e a sanguessuga-gigante, com 45 centímetros de comprimento. Ambos consomem sangue: o morcego cortando a pele da vítima e sugando o ferimento, e a sanguessuga se ligando a um hospedeiro e sugando o sangue por um órgão em forma de seringa. E cada um carrega um anticoagulante único em sua saliva: a sanguessuga produz hementina, e o morcego, draculina.
Devido ao fato de que ataques cardíacos e derrames provavelmente matam mais pessoas no mundo industrializado do que qualquer outra categoria de doença, e que os derrames são uma das principais causas de incapacidade entre os idosos, há uma necessidade urgente de encontrar e desenvolver novos medicamentos que podem melhorar ou retardar a coagulação do sangue. Ambos os compostos mostraram-se promissores nos primeiros testes clínicos mas não chegaram ao mercado. No entanto, pesquisas com criaturas amazônicas como essas e seus compostos exclusivos podem fornecer novas percepções sobre o processo de coagulação que pode levar a novas e melhores drogas sintéticas.
Numa perspectiva global, os fungos são o grupo de organismos com maior potencial, porém o menos pesquisado. Eles já nos deram a classe de medicamentos mais importante já descoberta: os antibióticos. Mais recentemente, o reino dos fungos nos forneceu outra classe de remédios de grande sucesso: estatinas, medicações para baixar o colesterol que estão entre as substâncias mais importantes e amplamente usadas no mundo industrializado de hoje. Embora ambas as classes de fármacos sejam derivadas de fungos de zonas temperadas, regiões tropicais como a Amazônia abrigam muito mais espécies.
Mais uma vez, a ciência sabe muito pouco sobre a utilidade potencial dos fungos tropicais. Os etnobotânicos no oeste da Amazônia encontram frequentemente o piri-piri, um junco de aparência diferente - uma planta florida semelhante a grama - que tem fama de apresentar muitas qualidades medicinais. Uma pesquisa detalhada pelo etnobotânico americano Glenn Shepard com colegas indígenas no Peru desvendou o segredo: virtudes medicinais atribuídas a essa planta que é relativamente inerte quimicamente, na verdade, vêm de um fungo que a infecta. A pesquisa revelou que este fungo produz oito novos alcalóides relacionados ao LSD, e é empregado pelos povos indígenas para tratar dores de cabeça, feridas de picadas de cobra, melhorar a coordenação, controlar a fertilidade e estancar a hemorragia relacionada ao parto. O Dr. Shepard considera o piri-piri uma espécie de "ginseng da Amazônia", por causa de seus múltiplos usos medicinais, semelhantes a panacéias. Milhares e milhares de fungos na Amazônia continuam inexplorados, seu potencial medicinal desconhecido.
O desenvolvimento médico mais significativo nos últimos anos envolvendo organismos tropicais é a integração dos alucinógenos na medicina ocidental. Eles representam as ferramentas definitivas do xamã indígena, que utiliza plantas e fungos como instrumentos biológicos para investigar, diagnosticar, tratar e, às vezes, curar doenças que têm base parcialmente emocional ou espiritual. É por isso que esses curandeiros geralmente podem aliviar um problema de saúde que não responde às terapias empregadas por médicos ocidentais.
O uso dessas substâncias está ganhando aceitação rapidamente em ambientes clínicos tradicionais. Muitos esforços iniciais se concentraram no uso de alucinógenos administrados por xamãs indígenas: mescalina, psilocibina e ayahuasca - esta última da Amazônia. Foi demonstrado clinicamente que esses remédios que alteram a mente produzem efeitos terapêuticos promissores em alguns casos de dependência química, depressão, transtorno obsessivo-compulsivo e ansiedade de fim de vida em pacientes com câncer terminal.

É provável que ocorram mais estudos formais para o tratamento da anorexia, estágios iniciais da doença de Alzheimer, insônia, dor intratável e TEPT. Este recém-descoberto interesse em terapias alucinógenas não está apenas melhorando nossa compreensão da mente humana, mas também impulsionando uma maior valorização das práticas de cura xamânica. E essa sabedoria terapêutica xamânica não se limita aos alucinógenos: um único xamã pode conhecer e usar 300 plantas diferentes para fins de cura.
Em última análise, a pergunta deve ser feita: quem, em primeiro lugar, deve se beneficiar com os tesouros farmacêuticos da Amazônia?
A resposta é clara: os amazônicos. A Amazônia é o lar de cerca de 30 milhões de pessoas, e quase todos os que vivem fora das grandes cidades dependem, em algum grau, da imensa floresta como fonte de medicamentos.
Infelizmente, eles são os que mais sofrem quando a floresta é destruída ou degradada. Eles devem ter acesso aos compostos terapêuticos e participar dos lucros da comercialização dessas espécies. O mesmo deve acontecer com as comunidades e governos locais. A questão do respeito adequado pelos direitos de propriedade intelectual deve ser uma das principais preocupações.
Um exemplo concreto de como isso deve funcionar é o caso da árvore Sangue de Drago. Sua seiva é um componente básico do armário de curas botânicas de muitos xamãs. Um composto daquela árvore - crofelemer - foi aprovado pela Food and Drug Administration em EUA como o primeiro medicamento antidiarreico para pacientes com HIV / AIDS. Atualmente está sendo avaliado para diarreia induzida por quimioterapia, bem como outras aplicações potenciais. Todos os esforços estão sendo feitos para compartilhar os benefícios desta droga com as comunidades locais, incluindo a geração de empregos por meio do reflorestamento. Esse tipo de reciprocidade, ausente na maioria dos esforços anteriores em que os produtos farmacêuticos foram desenvolvidos a partir de colaboração com povos indígenas da floresta tropical, deve ser obrigatório para todos os esforços semelhantes no futuro.
O mundo inteiro sofrerá se a destruição da floresta tropical continuar, não apenas em termos de transtornos e custos econômicos concretos da mudança climática, mas também em termos de curas perdidas enquanto a floresta queima, apenas para que o mundo possa ter carne e soja a preços baixos.
Não pude voltar à Amazônia desde março. Mas, por meio do WhatsApp, me comunico com os xamãs que conheço há muito tempo. Eles me disseram que estão ingerindo plantas imunoestimulantes para manter o coronavírus sob controle, embora a eficácia desse tratamento ainda não tenha sido verificada de forma independente. Enquanto o fazem, a busca pela medicina continua: os xamãs estão vasculhando a floresta curativa em busca de plantas que possam ser um tratamento eficaz para as pessoas infectadas com o vírus em suas comunidades.
Mas com o advento da temporada de queimadas na Amazônia, causada pelo desmatamento desenfreado, sua prateleira de remédios está pegando fogo.
*Mark J. Plotkin é etnobotânico e presidente do Amazon Conservation Team, que trabalha com as comunidades locais para proteger as florestas amazônicas e as culturas tradicionais. Ele é o autor de "The Amazon: What Everyone Needs to Know". Traduzido do inglês por Ana Beatriz Bersano.
The New York Times Licensing Group - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito do The New York Times.
https://sustentabilidade.estadao.com.br/noticias/geral,a-amazonia-pode-…

As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.