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Amazônia pode mudar clima da América do Sul

O Globo, Ciência e Vida, p. 37
29 de Jul de 2004

Amazônia pode mudar clima da América do Sul

A destruição da Floresta Amazônica pode acarretar profundas mudanças no clima de toda a América do Sul. A desertificação no norte do país poderia afetar drasticamente o sistema hidrológico do continente, criando grandes áreas secas nas regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil. O alerta foi feito ontem pelo pesquisador Antônio Donato Nobre, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), no segundo dia da III Conferência Científica do LBA - o Experimento em Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia.

- O problema não é apenas a Amazônia se transformar em Cerrado, é mais sério do que isso - afirmou Nobre. - Estamos falando da possibilidade da destruição do ciclo da água na América do Sul, da desertificação de São Paulo, Mato Grosso e Paraná.

Mudança teria grande impacto econômico

O cenário aventado por Nobre foi baseado em observações de satélite sobre a circulação do vapor d'água na atmosfera. O estudo mostrou que a umidade proveniente do Oceano Atlântico penetra no Brasil pelo norte, onde é reciclada pela floresta e espalhada para todo o país, além de Argentina e Paraguai. Contida pelos Andes, a umidade fica sobre o continente e abastece os rios de toda a região.

- Hoje, esse ar é úmido porque a floresta o mantém assim - explica Nobre. - Se essa umidade se perder, vamos espalhar ar seco. É claro que existe um grau de incerteza nisso, mas é muito assustador. Vale lembrar que São Paulo está na mesma latitude do deserto de Kalahari, na África, e dos desertos australianos.

A desertificação dessas regiões do país teria graves conseqüências para a economia nacional, uma vez que elas respondem por 80% do PIB, alertou o pesquisador.

- Hoje, a soja, o gado e a madeira são vistos como produtos importantes, geradores de riqueza para o país - lembrou Nobre, referindo-se às principais atividades econômicas na Amazônia, responsáveis pela maior parte da destruição da floresta. - Mas se começar a faltar água para abastecer as hidroelétricas e para irrigar as plantações no Centro-Oeste, Sudeste e Sul, vamos constatar que essa atividade na Amazônia é totalmente inviável. O que está em jogo é um sistema climático que mantém economias como a brasileira.

De acordo com o pesquisador, a taxa de desmatamento no país pode ser o dobro do anunciado pelo governo. Citando números inéditos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), coletados nas duas últimas semanas, o pesquisador afirmou que estão sendo desmatados mil quilômetros quadrados de floresta por semana

- Isso dá 52 mil quilômetros quadrados de floresta destruída por ano - calculou Nobre, lembrando que segundo as últimas estatísticas oficiais divulgadas, foram desmatados cerca de 24 mil quilômetros quadrados de floresta no ano passado. - Sei que estamos numa época de pico do desmatamento, mas ainda assim o número é assustador, não era para estar sendo derrubada nenhuma árvore.

O Globo, 29/07/2004, Ciência e Vida, p. 37

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