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A Amazônia não é só nossa...

OESP, Espaço Aberto, p. A2
Autor: TAVARES, Flávio
06 de set de 2019

A Amazônia não é só nossa...
Seremos cúmplices de um crime anunciado pela ciência e denunciado pela ONU

Flávio Tavares*, O Estado de S.Paulo
06 de setembro de 2019 | 03h00

A série de absurdos do dia a dia multiplica-se tão aceleradamente neste 2019 que o Brasil já não se vê a si mesmo. Sem estar cegos, deixamos de enxergar aquilo que os olhos podem ver para que o raciocínio entenda e dê solução.

A Amazônia é o exemplo dessa miopia transformada em cegueira. Passamos a nos preocupar com a degradação da floresta somente depois que lá da Europa nos fizeram ver as labaredas. Mesmo assim, não aprendemos o significado dos gritos de longe.

Gritos? Sim, gritos de alerta, como aqueles de quem vê fogo na casa do vizinho (na madrugada) e berra para despertar quem estiver dormindo. Primeiro, Emmanuel Macron, na França, logo Angela Merkel, na Alemanha, viram o perigo concreto que não notamos aqui. Enxergaram o significado e deram o alerta, num gesto de cooperação. Tomamos a cooperação, porém, como "intromissão" ou "afronta" à nossa soberania.

Com desprezo, nosso presidente da República chamou de "esmola" os milhões que os europeus doam aos programas de conservação da Amazônia brasileira. E com desdém irônico aplicável só a "país inimigo", nosso presidente sugeriu que Angela Merkel reflorestasse a Alemanha, algo já feito desde o fim da devastadora 2.ª Guerra Mundial, em 1945...

Tão ameaçadora quanto os incêndios na Amazônia nos oito meses do atual governo, porém, é a falsa visão de patriotismo transmitido a alguns setores, que veem os alertas como "ataques ao Brasil". Mas serão "ataques ao Brasil" ou serão observações sobre o desdém do Brasil, do seu governo e até de seu povo pela Amazônia?

Macron e Angela Merkel nos atacam? Ou nos preservam?

O foco concreto é a preservação da vida amazônica, da população, das florestas e de seus ricos biomas utilizados na pesquisa médica, da fauna e da flora. Num frenesi briguento, porém, inventamos um "patrioterismo" falso substituindo o patriotismo.

Há um detalhe: a Amazônia não é só nossa. Em seus 5,5 milhões de quilômetros quadrados envolve nove países. A exuberância da floresta começa com o degelo nos Andes, lá longe, em picos de montanhas que não temos e não nos pertencem na geografia; mas que nem por isso vamos recusar como água de nossos rios porque provêm de "neve estrangeira".

Os nacionalismos postiços são duplamente bastardos, sem pai nem mãe ou qualquer outra origem, inventados pela fantasia de ver inimigos em toda parte para exterminá-los à bala. Lembram-se de quando Bolsonaro disse que as ONGs preservacionistas incendiavam a floresta?

Nossas queimadas se acentuaram e viraram gigantescos incêndios a partir do momento em que o então candidato presidencial acionou o "farol verde" para o que ele chama de "expansão do agronegócio" na Amazônia. A riqueza da região atraiu, então, cobiçosos aventureiros que desmatam a floresta para vender madeira e, depois, "plantar".

Ignorantes, não sabem que o solo amazônico é pobre, sem nutrientes. A queda das folhas das árvores forma uma fina camada de solo superficial, que sustenta a floresta e a faz exuberante pelo volume d'água dos rios e pela continuidade das chuvas. Mas lá não há terras próprias para pastagem ou lavoura. Sem a guarda e a proteção da floresta densa, tudo se torna estéril.

Os desmatamentos e as "queimadas" farão da Amazônia um imenso Deserto do Saara. E vai se abrir, então, outra porta para o horror do aquecimento global e das mudanças climáticas, já acelerados pela extração e pelo uso de carvão mineral e de petróleo. Também aí o absurdo tenta se impor. No Congresso, a "bancada do carvão" pressiona para que o BNDES mude a política de não financiar novas minas nem termoelétricas. Quer que sejamos um dos grandes violões da degradação, jogando no lixo os compromissos de preservação do planeta, como o Acordo de Paris?

Seríamos, ainda, cúmplices absolutos de um crime anunciado pela ciência, denunciado pela ONU e sobre o qual o papa Francisco adverte de forma direta. Não percebemos que o planeta Terra é único e que o sentido de soberania é político e territorial, uma convenção histórica destinada à administração e ao modo de vida da população, conforme as leis. Ou alguém pensa num "ar brasileiro" e que, passando a fronteira, o ar seja argentino ou venezuelano?

Com a visão ampla e moderna de preservação da vida em si, em 1946, em Paris, o bioquímico Paulo Carneiro, embaixador do Brasil na Unesco (ramo científico da ONU) propôs a criação do Instituto Internacional da Hileia Amazônica, para transformar a região dos nove países em área de pesquisa científica "em prol da humanidade" e, assim, impedir eventual degradação. A soberania política e territorial continuaria com cada um dos países da floresta. Mas a pesquisa e a utilização nos campos da botânica, zoologia, fisiografia, meteorologia, arqueologia, agricultura e afins seria guiada por critérios científicos comuns estabelecidos pelo Instituto da Hileia.

No Brasil, porém, houve protestos similares às tolices de agora, inventando que internacionalizar a pesquisa "quebraria" nossa soberania. E a proposta feneceu. Naqueles anos da guerra fria, o então influente Partido Comunista (mesmo quando ilegal) comandou a campanha contra a transformação da hileia em área de preservação, vendo nela "um cavalo de Troia estrangeiro". Os opositores de hoje, reunidos em torno de Bolsonaro, proclamam os mesmos lugares-comuns...

O visionário e profeta Paulo Carneiro morreu em 1982, com Manaus (na Amazônia) já "internacionalizada" no sentido inverso do que ele tentou. Virou "zona franca", onde grandes empresas de fora usam a mão de obra barata da Amazônia e pisoteiam a riqueza científica da hileia.

Em suma: nossa Amazônia é nossa, mas não é só nossa!

*JORNALISTA E ESCRITOR, PRÊMIO JABUTI DE LITERATURA EM 2000 E 2005, PRÊMIO APCA EM 2004, É PROFESSOR APOSENTADO DA UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA

OESP, 06/09/2019, Espaço Aberto, p. A2

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