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Autor: RICUPERO, Rubens
28 de Abr de 2021
Amazônia levará país a sanções comerciais, diz Ricupero
Devastação da floresta fará com que nações mais preocupadas com o ambiente barrem exportações brasileiras, afirma embaixador
Por Gabriel Vasconcelos
Do Rio 28/04/2021
O ritmo de devastação da Amazônia no governo Jair Bolsonaro levará as principais nações do mundo, atentas à questão climática, a promover sanções contra as exportações brasileiras no médio ou longo prazo. O prognóstico é do embaixador e conselheiro do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), Rubens Ricupero.
Na Live do Valor de ontem, ele analisou a situação do Brasil à luz da Cúpula do Clima promovida pelo presidente americano, Joe Biden, além da posição do país na fila de potenciais beneficiários das doações de vacinas pelos Estados Unidos. Segundo Ricupero, o Brasil tem chances de receber imunizantes, mas está mal posicionado diplomaticamente e não tem apelo geopolítico estratégico, diferente da Índia, principal candidato. "O Brasil vai acabar sendo vítima de sanções às suas exportações em algum momento. Isso não será no futuro próximo, mas deve acontecer", disse, ao afirmar que o boicote a produtos brasileiros em algumas partes do mundo já é uma realidade. "Os instrumentos de sanção estão sendo desenvolvidos, como uma taxa de fronteira, um imposto que torne impossível aos países que não seguirem as regras de controle climático competirem com os demais", disse o embaixador, que serviu nos EUA, na Itália e no âmbito das ONU. Para Ricupero, apesar das recentes promessas de combate ao desmatamento do presidente Jair Bolsonaro na Cúpula de Líderes sobre o Clima, na semana passada, o governo não deverá frear a devastação da Amazônia. Um indício, disse, são os números "alarmantes" do desmatamento no mês de março: 800 km2 de área devastada em período ainda chuvoso, o que deveria amenizar queimadas. No mais, afirmou, não há nenhuma ação concreta sendo preparada frear o avanço do índice nos meses mais secos à frente. "A única coisa que o governo diz é que poderia reduzir desmatamento se recebesse ajuda externa. Mas não tem credibilidade com o Fundo Amazônia parado, com R$ 3 bilhões acumulados por culpa do governo." Para Ricupero, as ideias do governo de acionar a Força Nacional e as Forças Armadas são ineficazes. A opção teve resultados "pífios" no ano passado, disse. Sobre vacinas, ele afirma que "há muito pouco excedente no mundo", a maior parte nos EUA, além de volumes pouco significativos em países menores, como Israel e Emirados Árabes Unidos. "Mesmo nos Estados Unidos, o que há de concreto são 10 milhões de doses da AstraZeneca. O resto [outras 50 milhões de doses] são estimativas de produção futura, de maio e junho." Na visão do embaixador, no entanto, a doação de imunizantes pelos EUA é movimento em "franca evolução". "Os americanos resistiram muito à ideia de exportar vacina enquanto toda a sua população não fosse vacinada. Mas agora isso mudou, embora ainda não esteja muito claro como vai acontecer. No início deram a impressão que privilegiariam o consórcio Covax Facility, da OMS. Agora devem usar isso como instrumento de influência diplomática direta", afirmou. A Índia permitiu exportação de vacinas prontas e insumos no início, mas mudou de ideia com o agravamento da crise e até 350 mil novos casos diários de covid-19. O país deve ser o principal beneficiário das doações americanas. "Essa preferência tem componente de geoestratégia", disse o diplomata. Ele cita a aliança dos EUA com Índia, Japão e Austrália, com quem formam o "Grupo Quad" (quadrilátero) na região do indo-pacífico a fim de fazer frente à China. "Já o Brasil não tem tanta importância estratégica e isso pesa."
Mas Ricupero diz que o Brasil tem chances, embora tenha dinamitado o "componente de simpatia". "O Brasil está no hemisfério Ocidental, tem relações históricas com os EUA e se qualifica pela dimensão do desastre sanitário. Mas o governo não ajuda." O país, afirmou, também pode comprar ou permutar vacinas com os EUA diferentemente de países mais pobres.
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