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Alternativa Cacau

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Autor: Leão Serva
10 de nov de 2018

Uma antiga história indígena localiza a origem da humanidade na região que engloba o rio Uraricoera. Ao som de suas corredeiras, que descem das altas montanhas que separam Roraima (no Brasil) e a Venezuela, nasceu Makunaima, herói mítico que inspirou o célebre romance de Mario de Andrade. Hoje o Uraricoera e outros rios que banham as terras habitadas pelos índios Yanomami e Ye'kwana estão poluídos de mercúrio. As comunidades indígenas têm de apelar para poços artesianos, a fim de obter água de beber, e pescam cada vez menos peixes.

Até recentemente, um intenso movimento de barcos e aeronaves revelava a nova explosão do garimpo que voltou à terra indígena depois de ter causado a morte por doenças de cerca de 15% dos índios da região, na final da década de 1980. A crise mundial fez subir o preço do ouro enquanto o fracasso interno reduziu o valor da moeda brasileira. Tudo isso somado aumentou o apetite dos garimpeiros ilegais, com apoio velado do establishment político.

A comunidade indígena de Waikás fica a poucos quilômetros de um grande foco de garimpo, chamado "tatuzão", pelo tamanho da cratera aberta na selva por uma vila de cerca de mil pessoas dedicadas a separar o ouro de aluvião da terra onde está impregnado. A devastação resulta no desmatamento (ali, cerca de 300 mil m2), na produção de lagos com bombas de água e no barro que suja os rios ao mesmo tempo em que o mercúrio é usado para separar o ouro da terra.

Em julho, a avaliação dos órgãos oficiais era de que havia cerca de 2 mil garimpeiros infiltrados ilegalmente na Terra Indígena. As organizações indígenas apontam para 5 mil. Em agosto, uma operação conjunta de diferentes órgãos do Estado brasileiro, sob a liderança do general do Exército Gustavo Henrique Dutra de Menezes, denominada Curare IX, implantou bases permanentes de vigilância nos principais rios da Terra Indígena Yanomami para combater o garimpo ilegal. A presença de soldados em pontos estratégicos impede o abastecimento por água e mesmo por aviões de forma ostensiva, asfixiando a atividade.

Segundo dados do comando militar em Boa Vista, até o dia 1o de novembro, 1.830 garimpeiros deixaram a região, reduzindo drasticamente a atividade, sem, no entanto, conseguir acabar com ela. Em sobrevoos realizados durante o mês de outubro, ainda pude observar acampamentos, alguns buscando manter-se abaixo de copas de árvores para não serem vistos do ar.

Um dos aspectos dramáticos da invasão garimpeira é que ela atrai jovens indígenas em busca de renda em dinheiro, para a aquisição dos bens de consumo industrializados que foram se tornando necessidades correntes, de roupas a celulares, passando por panelas e alimentos. Além de tirar pessoas da cultura tradicional, a adesão ao garimpo acaba legitimando a ação dos invasores.

"Antes fazíamos trocas, nossos avós precisavam de alguma coisa e trocavam. Não usavam dinheiro. Trocavam com canoa, flecha, arco etc. Os antigos diziam: não peguem dinheiro porque vão ficar loucos. Depois, quando queríamos ferramentas, machados, terçados, lima, ferramentas para fazer canoa, também conseguíamos com trocas. Mas agora, os jovens querem outras coisas, mais caras: ninguém vive sem ter um celular, tênis e outras coisas dos brancos que precisam ser compradas com dinheiro", diz Felipe Gimenes, liderança de Waikás.

Foi buscando alternativas não destrutivas para geração de receitas adicionais para as comunidades que alguns líderes Ye'kwana se deram conta de que a selva oferece um outro "ouro": o cacau nativo pode servir de alternativa de renda para evitar que os jovens sejam atraídos como mão de obra barata pelo garimpo. O fruto do chocolate é endêmico na área, havendo referência até mesmo nos mitos de origem Yanomami.

Também chamado "fruto de ouro", o cacau é visto como um possível antídoto contra a invasão de garimpeiros ilegais na Terra Indígena no extremo norte do Brasil. Líderes de comunidades locais, tanto Ye'kwana quanto Yanomami, planejam produzir chocolate para o mercado internacional como alternativa de renda para que os jovens indígenas não tenham interesse em colaborar com os mineradores ilegais.

Em julho, teve lugar na aldeia de Waikás uma oficina promovida pela Associação Wanasseduume Ye'kwana, com apoio do Instituto Socioambiental (ISA), para ensinar aos índios de diferentes comunidades as técnicas de colheita e processamento dos frutos do cacau para produção da matéria prima para chocolates finos.

Naquela oportunidade, algo histórico aconteceu: foi produzida a primeira barra de chocolate da história da Terra Indígena Yanomami.

https://medium.com/@socioambiental/alternativa-cacau-6b8c3f3f8428

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