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Alga venenosa ameaça ecossistemas

OESP, Vida, p. A26
03 de set de 2006

Alga venenosa ameaça ecossistemas
Variedade atual de cianobactéria que floresceu há 2,7 bilhões de anos é capaz de liberar mais de 100 toxinas

Kenneth R. Weiss

As algas surgiam na primavera, em tufos, e se espalhavam pelo fundo do mar da Baía de Moreton, na região de Brisbane, na Austrália, com rapidez suficiente para cobrir um campo de futebol em uma hora. Quando os pescadores as tocavam, sua pele ficava cheia de queimaduras. Seus olhos ardiam e inchavam até se fechar.

No início, as autoridades ignoraram as reclamações - até que um balde com a alga peluda chegou ao laboratório de botânica marinha da Universidade de Queensland, em Brisbane. A cientista Judith O'Neil pôs uma amostra no microscópio e observou os longos filamentos negros. Ela identificou a alga como uma variedade da cianobactéria, uma ancestral das atuais bactérias e algas que floresceu há 2,7 bilhões de anos. O'Neil tem vasto conhecimento de antigas formas de vida, mas nunca vira essa espécie em particular, capaz de liberar mais de 100 toxinas, provavelmente como um mecanismo de defesa.

EVOLUÇÃO INVERTIDA

A alga venenosa, conhecida pelos cientistas como Lyngbya majuscula, surgiu em pelo menos uma dúzia de outros lugares ao redor do mundo.

É um dos muitos sintomas de uma virulenta doença que afeta os oceanos do planeta. Em muitos lugares, peixes, corais e mamíferos estão lutando para sobreviver enquanto formas de vida mais primitivas prosperam e se espalham, como algas, bactérias e águas-vivas.

Nos locais onde esse padrão é mais pronunciado, os cientistas falam num cenário de evolução invertida, retornando aos mares primitivos de centenas de milhões de anos atrás. Jeremy Jackson, ecologista e paleontólogo marinho do Instituto de Oceanografia Scripps, em San Diego, afirma que testemunhamos a "ascensão do lodo".

Durante muitos anos, acreditou-se que os oceanos eram vastos demais para que a humanidade os danificasse de modo duradouro. Mesmo nos tempos modernos, quando vazamentos de petróleo, descargas químicas e outros acidentes industriais aumentaram a consciência da capacidade humana de prejudicar a vida marinha, os danos foram freqüentemente considerados temporários. Ao longo do tempo, no entanto, o acúmulo de pressões ambientais alterou a química básica dos mares. A sociedade industrial está sobrecarregando os oceanos.

Os compostos de nitrogênio, carbono, ferro e fósforo que saem das chaminés e exaustores chegam ao mar a partir dos gramados e plantações fertilizados, vazam das fossas sépticas e jorram dos canos de esgoto. São esses poluentes que alimentam o crescimento excessivo de algas e bactérias nocivas.

Ao mesmo tempo, a pesca excessiva e a destruição de pântanos degradam a vida marinha competitiva e as barreiras naturais que antes mantinham os micróbios e algas sob controle. "Estamos levando os oceanos de volta ao início da evolução, para meio bilhão de anos atrás", adverte Jackson.

Acidez, em alta, é sentença de morte para fauna marinha

Um dos efeitos mais devastadores da emissão de poluentes na atmosfera não é visto nem sentido nos continentes.

À medida que a atividade industrial lança imensas quantidades de dióxido de carbono no meio ambiente, mais desse gás é absorvido pelo oceano. Como resultado, a água do mar está ficando mais ácida - e várias criaturas marítimas estão pagando caro por isso.

O gás de efeito estufa está entrando no oceano a um ritmo de quase 1 milhão de toneladas por hora - dez vezes a velocidade natural. No atual ritmo de aumento, a expectativa é que a acidez do oceano no final deste século seja duas vezes e meia o que era antes do começo da Revolução Industrial, há 200 anos.

Tal alteração será devastadora para muitas espécies de peixes e outros animais que têm prosperado em água do mar quimicamente estável por milhões de anos. Em questão de décadas, os recifes de corais restantes no mundo poderão estar tão frágeis que não suportarão o choque das ondas. As conchas poderão ficar fracas demais para proteger seus ocupantes. Com menos probabilidade de serem prejudicadas estão as algas, grama do mar e outras formas primitivas de vida, que já estão proliferando às custas dos peixes, mamíferos marinhos e corais. Alguns biólogos marinhos prevêem que a alteração nos níveis de ácido irá arruinar a indústria da pesca, fazendo desaparecer os degraus mais baixos da cadeia alimentar - minúsculas plantas planctônicas que fornecem a nutrição básica a todos os seres vivos do oceano.

QUESTÃO DE RITMO

Quando o dióxido de carbono é adicionado ao oceano gradualmente, causa poucos danos. Parte dele é absorvido na fotossíntese de plantas microscópicas chamadas fitoplanctons. Parte é usada por microorganismos para construir conchas. Depois que seus habitantes morrem, as conchas vazias caem sobre o fundo do mar como um tipo de neve biológica.

Hoje, porém, o acréscimo de dióxido de carbono ao mar deixou de ser gradual. E a expectativa é que 80% de todo o dióxido de carbono gerado pelos seres humanos vá acabar no mar.

A escala de pH, uma medida do grau de acidez ou alcalinidade de uma substância, varia de 1 a 14, sendo 7 o neutro. Quanto mais baixo o pH, maior a acidez. Cada grau representa uma alteração de dez vezes na acidez ou alcalinidade.

Se as emissões de CO2 continuarem no atual ritmo, o pH do oceano deve cair para 7,9 ou mais baixo até o fim deste século - uma mudança de 150%. A última vez que a química do oceano passou por uma mudança tão radical "foi quando os dinossauros foram extintos", diz Ken Caldeira, especialista em química oceânica.

OESP, 03/09/2006, Vida, p. A26

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