CB, Opinião, p.19
Autor: MARZAGÃO, Augusto
01 de Jun de 2005
Alerta vermelho na Amazônia
Augosto Marzagão
Jornalista
Imagine-se um crime que com crescente perversidade se repete sob o nosso indignado testemunho e, diante do qual, só nos resta visualizar o flagrante e lamentá-lo clamorosamente. É o que vem acontecendo com a calamidade ecológica representada em cena aberta pelo desmatamento contínuo e crescente da Amazônia. Hoje, o próprio governo se confessa surpreendido e alarmado com as proporções que a devastação florestal está assumindo, um patrimônio nacional que funciona como o maior respiradouro do planeta. O ciclópico crime ambiental, no seu sentido mais abrangente, passa por cima de todo ó aparato de monitoramento e fiscalização em tempo real, incluindo o olho tecnológico e iniludível do satélite do Inpe, montado para ao menos barrar o avanço do avassalador processo predatório.
Entre agosto de 2003 e agosto de 2004 o desmatamento atingiu uma área total de 26,1km2, equivalente à do estado de Alagoas. Foi a segunda maior devastação sofrida pela floresta. Os vilões do ataque ao megassantuário de um tesouro ambiental sem paralelo na terra dos homens se chamam madeireiros ilegais, fazendeiros, posseiros, empresas agrícolas (aquelas sem qualquer compromisso com a sustentabilidade), pecuaristas e outros personagens de uma trama destrutiva, para os quais o enriquecimento ou o próprio desenvolvimento econômico bem intencionado do país nada têm a ver com os compromissos de preservação do meio ambiente e do desenvolvimento sustentado. Assim, tudo que a Amazônia representa em termo de prodigiosa biodiversidade, tudo que a cobiça internacional ali identifica como um paraíso de cobertura florestal, de recursos hídricos, de vasta reserva de água doce, de fauna, e de flora originais, de plantas e insumos medicinas, de habitat, de tribos indígenas, tudo isso não passa de um cenário de portas abertas e impunes ao aventureirismo tão audacioso quanto irresponsável.
Não importa o argumento de que o desmate desenfreado se concentra hoje (40%) no estado de Mato Grosso. Importa que a escalada exterminadora alcança toda a Amazônia, mesmo onde as autoridades do meio ambiente,
particularmente a denodada ministra Marina Silva, vêm aplicando com mais desenvoltura e úrgência o Plano de Prevenção e Combate ao Desmatamento, implantando unidades de conservação florestal e de extrativismo controlado em pontos estratégicos. Nos vácuos da fiscalização e da depressão, o que era floresta se converte em áreas de plantio para exportação de grãos, em pastagens, em movimentos de ocupação e exploração irregulares e fragmentares, deixando um rastro
de terra degradada. Há que se falar ainda nos focos de trabalho escravo que se escondem nos recônditos mais remotos do desmate clandestino. Sem falar também nas queimadas que agravam o cada dia mais temido efeito estufa.
Até o Partido Verde perdeu a paciência com o que considera o fracasso do governo na luta contra o desmatamento e se desligou do Planalto. É possível, porém, atribuir-se uma culpa desmedida às autoridades ambientais? Como pode, por exemplo, o Ibama,
com seus precários recursos humanos, isolar milhões de quilômetros quadrados de florestas dos seus abutres diretos e dos respectivos cúmplices, inclusive os de matrizes internacionais? Como pode o governo dispor da montanha de recursos necessários para executar as múltiplas e complexas providências que a batalha de salvação da Amazônia requer? Vai ser preciso, como tanta gente reclama, um mutirão nacional de esforços conjugados para o cumprimento da imensa tarefa, envolvendo não só governos, mas também empresários e outros combatentes espontâneos movidos pelo interesse público. Pois se trata de uma prioridade nacional a exigir meios e métodos de natureza radical.
Em artigos de imprensa que escrevi em 1999 e incorporei ao meu livro A semeadura e a colheita (editora Ao Livro Técnico), já me permitia escrever sobre o assunto as seguintes linhas: "Criou-se para o Brasil um dever enorme em relação a esse patrimônio que não é do nosso país, mas de toda a humanidade. Não há como repetir a trágica catástrofe da Mata Atlântica, atualmente reduzida a 7%, ou menos, do seu mapa original. Precisamos estar à altura dessa gigantesca e transcendente responsabilidade. Desproteger a Amazônia já é um imperdoável crime lesa-Terra. Entregá-la, sem reação, aos predadores das queimadas e dos desmates nos colocaria numa posição de abdicantes da condição civilizada e do próprio direito aos frutos da vida."
Os sinais do alerta vermelho estão acessos na Amazônia, sobretudo quando novas vozes estrangeiras de alta hierarquia voltaram a bater na sovada tecla da internacionalização da área de maior exposição e mais problemática, sobre o pretexto da incapacidade brasileira de administrar um bem que consideram uma responsabilidade da comunidade das nações, a partir dos interesses de sobrevivência de bilhões de seres humanos. Não é possível que continuemos permitindo a aplicação do estigma da incompetência e do desprezo da própria soberania nacional contra a posição respeitável que já ocupamos no concerto dos povos progressistas e civilizados.
Uma reação de grande envergadura e de agudas repercussões em todo o mundo já não mais admite respostas evasivas, inconsistentes, e protelatórias.
CB, 01/06/2005, Opinião, p. 19
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