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Alerta nas praias de São Paulo

JB, Brasil, p. A8
04 de Jan de 2004

Alerta nas praias de São Paulo
Doença típica da selva se aproxima do litoral norte paulista. Possível causa é o desequilíbrio ecológico

RAFAEL SENTO SÉ
Especial para o JB

Em tempos de campanha contra a dengue, o surto de uma outra doença começa a preocupar as autoridades de saúde dos grandes centros urbanos. A leishmaniose tegumentar, popularmente chamada de ferida brava, doença típica da selva, chegou com força ao litoral norte de São Paulo, principal destino turístico dos paulistanos. O verão - estação em que se registra maior incidência de casos - mal chegou, mas, em Ubatuba, já foram notificados 48 casos no ano passado, cinco vezes mais do que os registros dos últimos cinco anos. São Sebastião, Ilhabela e Caraguatatuba também foram atingidas.
O Centro de Vigilância Epidemiológica da Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo vai orientar as prefeituras atingidas a conscientizar a população do perigo do contato com animais silvestres, reservatório do parasita transmissor da doença, e estimular o uso de repelente e inseticida. Os sintomas da doença são feridas na pele, que se não tratadas podem levar à destruição da mucosa do nariz, evoluindo também para as mucosas da boca e da garganta.
Os últimos números da doença no Brasil, segundo o Ministério da Saúde, mostram que houve aumento de quase 10%, passando de 33.720 para 36.681 casos. Enquanto no início da década de 80 foram registrados casos em 19 Estados, nos últimos anos todas as unidades da Federação registraram casos.
A explicação para o surgimento do surto, segundo Carlos Magno Fortaleza, coordenador do Centro de Vigilância Epidemiológica, é o desequilíbrio ecológico, que estaria atraindo animais silvestres, como a preguiça, o tamanduá, marsupiais e roedores para as proximidade das cidades. Outra hipótese, levantada pelo pesquisador da Fiocruz Armando Schubach, coordenador do principal centro de estudos da doença no país, seria a adaptação do mosquito aos centros urbanos.
- Em Belo Horizonte, por exemplo, já foram notificados casos de transmissão no Centro da cidade - revela Armando Schubach.
O aumento do número de casos próximos a cidades preocupa especialistas porque a leishmaniose sempre foi tida como uma doença da selva. No século 19, a doença era comum entre os operários que abriram as primeiras estradas de ferro e, no século passado, entre pessoas que desmatavam a Floresta Amazônica e os bombeiros e militares que trabalhavam na região.
A doença, causada pelo parasita leishmania brazilienses, encontrado em animais silvestres, é transmitida para o homem por um inseto alado semelhante a um mosquito, o flebótomo. A contaminação se dá depois que o inseto, após picar um animal infestado pelo parasita, ataca o homem. Não existe vacina para a doença. O principal tratamento, explica a médica Hiro Goto, do Instituto de Disciplina Tropical da USP, é a aplicação de injeções de antimoniais, elemento que controla o crescimento do parasita.
Assim como a dengue, o número de casos de leishmaniose costuma crescer no verão. Mas as semelhanças páram por aí. O pesquisador da Fiocruz, Armanado Schubach afirma que a leishmaniose é uma doença focalizada.
- Nunca se comprovou um surto de forma explosiva como acontece com a dengue - esclarece Armanado Schubach.

O que é

No Litoral Norte de São Paulo, o Centro de Vigilância Epidemiológica registrou, no ano passado, 48 casos da doença, cinco vezes mais do que nos últimos 5 anos.
Sintomas
Feridas na pele que se não tratadas podem levar à destruição da mucosa do nariz, evoluindo também para as mucosas da boca e da garganta.
Transmissão
É transmitida para o homem por um inseto alado, semelhante a um mosquito, o flebótomo. A contaminação se dá depois que o inseto pica um animal infestado pelo parasita e, em seguida, ataca o homem.
Cuidados
Uso de repelente e inseticida. Evitar contato com animais silvestres.

JB, 04/01/2004, Brasil, p. A8

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