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Alencar: treinamento não preocupa

CB, Brasil, p. 10
10 de Jan de 2006

Alencar: treinamento não preocupa

O ministro da Defesa e vice-presidente da República, José Alencar, disse ontem não ver motivo para a sociedade se preocupar com o fato de índios terem participado de trabalhos de treinamento do Exército na Amazônia. "Oh, meu Deus, não há razão nenhuma para nós nos preocuparmos com isso", afirmou Alencar ontem, em entrevista à emissora GloboNews, sobre fotos publicadas no último domingo no jornal Extra. "O índio é até mais brasileiro do que nós. Porque o índio é nativo. Agora, o índio é uma pessoa", justificou.
O vice-presidente disse ainda que considera positivo os índios fazerem exercícios militares: "Além de ensinar o exercício militar propriamente dito, dá treinamento comportamental à pessoa. É uma formação extraordinária". Alencar garantiu que o Exército não estimula a participação da população indígena nos tais treinamentos. A adesão seria voluntária.
As declarações de Alencar provocaram reação de parlamentares ligados a entidades que trabalham em defesa dos direitos dos povos indígenas. "Isso que ele falou é um absurdo, um despropósito. Demonstra o total desconhecimento das comunidades tradicionais. Ele devia ser o primeiro a querer apurar e punir responsáveis", indignou-se a deputada Iriny Lopes (PT-ES), presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara.
A parlamentar lembra que o ministro foi informado do treinamento no último dia 21 de junho, quando ela enviou um ofício cobrando do Ministério da Defesa explicações para o suposto treinamento. "Até hoje não recebi resposta. Essa demora é, no mínimo, uma demonstração clara de incompetência dos assessores dele", acusa Iriny. O ministério informou que o ofício foi encaminhado para o Exército, que até o momento não se manifestou.
Iriny disse ter sido procurada por militares que extra-oficialmente lhe disseram que as fotos retratariam a curiosidade de populares com a chegada dos soldados. "Não fiquei satisfeita. Quero uma resposta do ministério", afirma. "O Exército não pode treinar civis. Do mesmo jeito que os militares não podem chegar numa grande cidade e entregar as armas para os cidadãos treinarem, também não podem pôr armamento pesado nas mãos de indígenas", sustenta.
Sem confronto
Presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai), o antropólogo Mércio Gomes procurou evitar confronto com o vice-presidente. "Eu não tenho condições de saber o que ele quis dizer com essas declarações", disse. Para Gomes, o vice-presidente da República talvez tenha defendido a participação de todos os brasileiros no caso de um conflito. "Nós somos brasileiros, em caso de guerra temos que estar prontos. No caso dos índios não é diferente".
Gomes disse que ainda não é possível identificar o local onde foram tiradas as fotos, mas que não descarta a possibilidade de serem em um batalhão do Exército. "Ainda não dá para dizer que foi numa aldeia, os índios podem estar visitando um centro de treinamento", cogita Mércio, que também acredita na possibilidade de as fotos serem de décadas passadas. Especialistas, contudo, garantem que o modelo das armas passou a ser utilizado desde 2004.
Embora prometa investigar o episódio, levando as fotos aos líderes das comunidades indígenas para ver se reconhecem alguém, Mércio afirma que não vai cobrar explicações do Ministério da Defesa. "Não vamos cobrar nada. Vamos pedir só para que o Gabinete de Segurança Institucional marque uma reunião", acrescenta.
O Ministério Público Federal deverá ser menos condescendente do que a Funai com o caso. "É muito estranho mulheres e crianças com armas, isso tem que ser esclarecido", afirmou a procuradora Ela Weiko.

CB, 10/01/2006, Brasil, p. 10

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