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Alckmin decreta fim da crise da água; uso de volume morto de represas é cancelado

OESP, Metrópole, p. A11
08 de Mar de 2016

Alckmin decreta fim da crise da água; uso de volume morto de represas é cancelado
Governador destaca que Cantareira chegou a 60% da capacidade e diz que obras a serem entregues em 2017 darão uma 'superestrutura' à região metropolitana; para especialista, afirmação é prematura e nível está abaixo do registro histórico

Fabio Leite e Felipe Resk

A gestão Geraldo Alckmin (PSDB) decretou ontem o fim da crise hídrica em São Paulo, pouco mais de dois anos após seu início declarado. Em evento na capital paulista, o governador disse que a "questão da água está resolvida" e justificou o anúncio dizendo que o Sistema Cantareira, o mais afetado pela seca, chegou a quase 60% da capacidade. Esse índice, contudo, inclui as duas cotas do volume morto do manancial, cuja autorização para captação foi suspensa nesta segunda pelos órgãos reguladores do sistema.
"A questão da água está resolvida, porque nós já estamos chegando a quase 60% do Cantareira e 40% do Alto Tietê. Isso é água para quatro, cinco anos de seca", afirmou Alckmin durante palestra na Associação Comercial de São Paulo, no centro da capital paulista.
"E teremos, a partir do ano que vem, uma superestrutura em São Paulo. A região metropolitana estará bem preparada para as mudanças climáticas", completou, referindo-se às obras do Sistema São Lourenço e da transposição de água do Paraíba do Sul para o Cantareira, previstas para 2017, que devem trazer para a Grande São Paulo mais 11,5 mil litros por segundo, o suficiente para atender 3,4 milhões de pessoas.
Segundo balanço divulgado pela Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), o Cantareira tinha nesta segunda 58% da capacidade, incluindo a reserva profunda. Sem o volume morto, o índice era de 28,7%, patamar que não era atingido desde 22 de dezembro de 2013, antes de a crise ser anunciada. Sem contar a fase crítica, contudo, é o nível mais baixo para o início de março desde 2004, quando o sistema também sofreu estiagem. Março marca o fim do período chuvoso, que começa em outubro.
Uma resolução conjunta assinada nesta segunda pela Agência Nacional de Águas (ANA) e pelo Departamento de Águas e Energia Elétrica de São Paulo (DAEE), subordinado a Alckmin, revogou as autorizações concedidas à Sabesp em julho e novembro de 2014 para captar as duas cotas do volume morto do Cantareira. Ambos afirmam de que não há previsão de que seja necessário usar a reserva novamente. Na prática, a medida faz com que os 287,5 bilhões de litros extras só voltem a ficar disponíveis para captação mediante nova autorização dos órgãos.
Em entrevista concedida ao Estado há três semanas, o presidente da Sabesp, Jerson Kelman, defendeu que o volume morto fosse incorporado ao sistema e disse que a crise hídrica ainda não havia acabado. Mas em entrevista publicada nesta segunda pelo jornal Diário do Grande ABC, ele também decretou o fim do problema de abastecimento. Questionada pela reportagem, a Sabesp afirma que, mesmo sem contar com a reserva profunda, a quantidade de água nas represas hoje já supera março de 2014, quando o sistema tinha 15,8% na mesma data.
A companhia destacou ainda a volta das chuvas acima da média no Cantareira, que elevaram em 55,4% a entrada de água no sistema na primeira semana de março, em relação à média histórica do mês. Na comparação com março de 2014, o pior da história, o avanço é de 441,8%. Apesar do declarado fim da crise, a Sabesp não decidiu se vai acabar com o programa de bônus para quem economiza água e com a multa para quem aumenta o consumo.

Prematuro.
Especialistas ouvidos pelo Estado afirmam que a situação hídrica hoje é "mais confortável" do que nos dois últimos anos, mas que decretar o fim da crise é "prematuro". "Historicamente, o Cantareira tem muito mais do que 30% nesta época do ano. Antes da crise, em 2013, eram 57%. Não considero um nível de segurança, uma vez que estamos no fim do período chuvoso e o prognóstico do segundo semestre é de redução do volume de chuvas com o fim do El Niño", disse Pedro Côrtes, especialista em recursos hídricos e professor da Universidade de São Paulo (USP).

Regra mais rígida faz bônus na conta cair 33%

O número de consumidores na Grande São Paulo que receberam desconto na conta por economia de água caiu 33% em fevereiro, conforme os dados divulgados nesta segunda-feira, 7, pela Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp). Foi o primeiro balanço do programa de bônus após a mudança nas regras, que dificultou a concessão do incentivo, lançado em fevereiro de 2014.
Desde janeiro deste ano, depois que o Sistema Cantareira deixou de operar no volume morto, os clientes da Sabesp precisam consumir 22% menos água para manter o mesmo benefício na fatura. A medida foi aprovada no dia 23 de dezembro pela Agência Reguladora de Saneamento e Energia do Estado de São Paulo (Arsesp) e deve diminuir as perdas de receita da Sabesp com o bônus - R$ 1,38 bilhão de "renúncia" desde o início do programa.
Segundo a Sabesp, o número de clientes que receberam entre 10%, 20% e 30% de desconto na conta por economia de água caiu de 66% em janeiro para 44% no mês passado. Enquanto isso, o total de consumidores que continuaram gastando menos água do que antes da crise, mas não tiveram bônus, subiu de 11% para 33%.
Os dados mostram ainda que o volume economizado pelos cerca de 20 milhões de clientes da Grande São Paulo caiu de 5,6 mil para 5,2 mil litros por segundo. Apesar disso, o número de consumidores que gastaram mais água em fevereiro do que a média antes da crise ficou estável em 23%. Já os clientes multados por gastar mais água chegaram a 15%, índice recorde desde o início da sobretaxa de até 50% na conta, em janeiro de 2015. "Estamos em uma situação mais tranquila, porém precisamos continuar com as medidas de gestão de recursos hídricos e conservação de água", afirma Antonio Eduardo Giansante, professor de Engenharia da Universidade Mackenzie.

OESP, 08/03/2016, Metrópole, p. A11

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