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Ajurus perambulam enquanto não obtêm reserva

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Autor: XICO NERY e MONTEZUMA CRUZ
31 de dez de 2008

Líder denuncia destruição de urnas funerárias, lembra do açúcar envenenado e exige direitos.

ALTO RIO COLORADO, RO - Insatisfeita com o jogo de empurra, a cacique da etnia Ajuru (ou Wayoro), Valda Ibañez Braga, desabafa: "Na verdade, nosso povo não tem mais a quem apelar para ter as terras de volta". Projetos hidrelétricos e fazendas invadem a área indígena e a situação só se reverterá por decisão judicial. Decepcionada com o tratamento recebido das autoridades rondonienses, ela retrata o desalento desses índios encontrados há mais de um século e atualmente sujeitos à contaminação pelo álcool, prostituição e drogas. A 415 quilômetros de Porto Velho, cansados da exploração e combalidos a cada ataque de malária, vivem pedindo socorro à Fundação Nacional de Saúde (Funasa).

Os cerca de 40 índios falam português, um pouco de espanhol e a língua Tupari/Tupi. Eles começaram a ser perseguidos depois que a ditadura militar abriu as fronteiras agrícolas de Rondônia a migrantes procedentes nas regiões sul e sudeste do País. O cerco se tornou inevitável.

Para antropólogos, "felizmente eles ainda se casam entre si". Com seus parentes Tuparis, Kandes e Makurapes, alcançam uma população de cerca de 400 indivíduos. Moram em três aldeias na Área Indígena Rio Guaporé município de Guajará-Mirim, próximos à fronteira com a Bolívia.

Vivem de roças, da caça e pesca, da extração da borracha natural e da comercialização de seus produtos na cidade. Perderam a cultura e estão impedidos de pescar no entorno dos rios de Porto Rolim, Guaporé e em Guajará-Mirim, respectivamente. Enquanto isso, não-índios ocupam rios, igarapés e lagos, sem restrição do Ibama e dos fiscais da Secretaria Estadual de Defesa Ambiental.

"Selvageria"

Segundo Valda Braga, "por causa da selvageria praticada por fazendeiros e madeireiros", esses índios foram vítimas de açúcar envenenado. "Para matar crianças e os índios mais velhos", acusou.

Entre os remanescentes Ajurus, o caso do açúcar e de outras emboscadas são muito discutidos. É a própria auto-defesa da tribo, propalada sucessivas vezes. O governador do Estado, Ivo Narciso Cassol (Sem partido), dono de fazendas e de pequenas centrais hidrelétricas, esquiva-se de responsabilidades. "Comprei a área de um fazendeiro que teria expulsado os índios da região em 1982", ele declarou.

Agora, segundo ela se queixa, além de estarem cercados por grupos econômicos, os índios depararam com a presença de uma organização não-governamental que constrói cabanas para turistas. Com isso, ela denuncia, o que restou de urnas funerárias antigas vem ruindo. "Como se nada valessem para a história do povo Ajuru e para a cultura do Brasil", afirma entristecida.

Luta de 20 anos

Há mais de duas décadas que as lideranças Ajurus lutam pelo reconhecimento, mas têm encontrado barreiras em todas as esferas do Governo Federal. Angustiada, a cacique considera a situação "um verdadeiro descaso da Fundação Nacional do Índio (Funai) e dos órgãos de apoio à causa indígena". "Estão protelando a demarcação das nossas terras e precisamos disso imediatamente", apela. Assim, a penitência desse povo prossegue, em pleno século XXI.

Valda Braga recorda de assembléias entre os remanescentes da etnia e de estudos para justificar a demarcação e a homologação da terra indígena por força do processo exigido pelo Ministério da Justiça e aplicado, na prática, pela Funai. Sem ter a certeza de que são donos de seu chão, eles se tornaram praticamente nômades dentro das próprias terras e sobrevivem da ajuda de terceiros, entre Rolim de Moura, Guajará-Mirim e Porto Velho.

Uma vitória no Ministério Público

PORTO VELHO, RO - Depois de uma "via crucis" por órgãos governamentais, Comitês de Apoio à Causa Indígena, parlamentares da bancada federal de Rondônia e até do Conselho Indigenista Missionário, Valda Braga conseguiu sensibilizar a procuradora geral da República, Andréia Pistono Vitalino, titular da 6ª Câmara, encarregada da defesa de índios e minorias.

A procuradora acenou com a possibilidade de juntar as informações para instaurar um inquérito, a fim de adotar uma solução para os problemas desse território rico em mananciais. A região do rio Guaporé é habitada por índios que vivem próximos aos afluentes da margem direita, quase todos falantes de línguas que se incluem em pequenas famílias do tronco tupi.

A falecida antropóloga Denise Maldi denominou-a de "complexo cultural do marico", porque todos os índios, inclusive os isolados da Reserva Biológica do Guaporé, usam cestas de vários tamanhos, chamadas de "marico". Possuem fibras de tucum, feitas com pontos miúdos ou médios, que não se encontram em outras áreas.

O distrito de Porto Rolim é uma região de ilha de rara beleza natural, no rio Guaporé, onde, segundo Valda Braga, há muitos olhos d'água e áreas com capacidade para serem fixadas cerca de 500 pessoas. As fazendas da região, três delas pertencentes a Ivo Cassol, possuem as melhores terras da região.

"Existem outras propriedades de grandes proporções, todas supostamente pertencentes a autoridades governamentais, políticos e empresários já denunciados numa das assembléias em que esteve presente o procurador da República, Francisco Marinho", ela informa. Marinho verificou a necessidade de homologação da terra dos Ajurus, atualmente confinados na Aldeia Ricardo Franco, em Guajará-Mirim, e outros dispersos por bairros da periferia de Porto Velho; no distrito de Porto Rolim; e em Alta Floresta. (X.N. e M.C.)

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