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Ajuda dos países do G7 precisa ser usada por quem conhece a floresta

G1 - https://g1.globo.com/natureza/blog/amelia-gonzalez
Autor: GONZALEZ, Amelia
26 de ago de 2019

Ajuda dos países do G7 precisa ser usada por quem conhece a floresta

Por Amelia Gonzalez
Escreve sobre sustentabilidade e debate temas ligados a economia, meio ambiente e sociedade

Não estive presencialmente na manifestação de ontem (25), em Ipanema, contra os incêndios na Amazônia, mas ouvi muita gente falando bem. É bonito ver a sociedade civil quando se organiza e se manifesta sem causar danos. Dependemos disso para fortificar o regime democrático em que vivemos. Que não se iludam os governantes: eles estão ali porque uma parte da população assim o quis, e não para agirem ao seu próprio gosto, como se não tivessem que prestar contas.

Amigos meus, que sempre se envolveram com as causas ambientais, ao voltarem da passeata, confirmaram esse sentimento e comentaram sobre o tom triste, dissonante: "Há quantos anos estamos protestando, alertando, para a necessidade de se prestar atenção para as florestas, para os bichos, para as pessoas que vivem lá. Tanto que já denunciamos desmatamentos despropositais! Quando estávamos gritando palavras de ordem contra as chamas que estão envolvendo a Amazônia, pensamos nisso. Será que vai ser sempre assim, um protesto sem resposta?"

No site do Instituto Socioambiental, um texto postado no dia 2 de agosto, portanto antes mesmo de ter se alastrado a notícia sobre os focos de incêndio na Amazônia, parece corroborar essa queixa e gritar pela atenção dos governantes e cidadãos. Segundo os dados do 13o boletim Sirad X, sistema de monitoramento de desmatamento da Rede Xingu +, uma articulação de indígenas, ribeirinhos e seus parceiros que vivem ou atuam na bacia do Xingu, uma área maior do que o município de Belo Horizonte, capital mineira, foi desmatada na bacia do Xingu entre maio e junho de 2019.

"Grilagem, avanço da pecuária, garimpo e flexibilização da legislação provocaram o desmatamento de 39 mil hectares de floresta, em um ritmo de 533 árvores por minuto. A diminuição das chuvas no Pará permitiu uma intensificação do desmatamento no estado. O desmatamento detectado em junho dobrou em relação ao mês anterior, pulando de 10.611 hectares para 21.462. Já na porção mato-grossense da bacia, foram derrubados quase sete mil hectares no período, sendo que 99,6% foram desmatados ilegalmente", diz o texto.

Ricardo Abad, especialista em sensoriamento remoto do ISA, comenta no site, expondo sua desesperança:

"Os recursos e o apoio institucional para fiscalização e operações de campo têm diminuído. O problema não é saber onde está o desmatamento, o problema continua sendo a falta de responsabilização dos infratores, que deixa o recado de que o crime compensa".
Até mesmo nos órgãos governamentais há a sensação de que a impunidade pode assumir e piorar o problema. Andrea Coelho, diretora de fiscalização da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semas) do Pará, afirma que o órgão está atento e tomando medidas para coibir as atividades ilegais, mas admite a complexidade.

"Estamos diante de um contexto muito negativo para a área ambiental. A mensagem é que tudo pode: desmatar pode, explorar madeira pode, garimpo ilegal pode, etc".

É importante ouvir essas pessoas, sobretudo numa época em que estamos recebendo as atenções de todo o mundo, em que os sete países mais ricos do planeta decidiram enviar dinheiro para solucionarmos o problema ou, ao menos, parte dele. É importante, acima de tudo, saber a história de cada lugar para que as ações estrangeiras possam ter boa direção. O dinheiro do G7 precisa ser usado com conhecimento de causa, para dar certo.

O que precisa é, basicamente, voltar à fiscalização que, depois do ano 2000, contribuiu para arrefecer o desmatamento e a violência que sempre predominaram nos campos.

Foi só com a criação de Unidades de Conservação e demarcação de terras indígenas no território (ações que atualmente ganham uma saraivada de críticas por parte do governo Bolsonaro) que os crimes de grilagem e violência diminuíram.
No Pará, uma das regiões mais vulneráveis aos crimes de grilagem chama-se justamente Área de Proteção Ambiental Triunfo do Xingu, no arco do desmatamento, na região Sudeste. Lá, entre maio e junho deste ano, 14.891 hectares de floresta foram derrubados, o equivalente a 200 árvores por minuto. Se continuar neste ritmo, a área vai começar a queimar também.

Para o professor Maurício Torres, da Universidade Federal do Pará, a alta incidência de grilagem nessas terras não é casual. É que em todo o entorno houve pressão, o que faltou na APA. "Os grileiros desmatam como um instrumento de empoderamento, de controle territorial", explica ele.

Foi feita uma lei agrária no Pará, sancionada no dia 8 de julho passado, para facilitar a legalização de terras públicas ocupadas ilegalmente e impactar na grilagem de terras. Isso, no entanto, não é garantia de nada, infelizmente. Para Torres, embora importante, a lei pode também acirrar mais os conflitos, a violência e o desmatamento.

O alerta precisa ser ouvido
Quem vive no campo e do campo é quem mais conhece o campo. Daí a necessidade de se valorizar cada vez mais o trabalho de indígenas conscientes, não de sabotá-los ou tentar trazê-los à força para um modo de vida com o qual não se afinam. Daí a necessidade de não menosprezar o trabalho de organizações não-governamentais, nascidas do regime democrático.

De qualquer forma, não é de hoje que pesquisadores, estudiosos e indígenas da Amazônia estão tentando chamar a atenção do mundo para a degradação de uma imensa floresta tropical em nome do desenvolvimento. Não é responsabilidade somente deste governo - o Ministério do Meio Ambiente nunca foi uma pasta que merecesse mais atenção, por exemplo, do que o da Economia.

Mas agora a crise aumentou porque os fanáticos em cortar árvores ouviram eco, em Brasília, de suas ambições.

Projetos de mineração, agropecuários e de extração de energéticos são demolidores de florestas, e isto não é novidade. O que se precisa é ter consciência, inclusive, de nossa parte em tudo isso.

Quantos de nós, cidadãos comuns, já nos preocupamos em saber, só como um exemplo rápido, de onde saiu a madeira dos móveis que temos em casa?

As manifestações em prol da Amazônia serão sempre bem vindas, sobretudo se servirem também para uma profunda reflexão sobre nosso bem estar e qualidade de vida. Que não se tornem, apenas, atos políticos.

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