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Águas sem vida

JB, Ciência, p. A13
16 de out de 2005

Águas sem vida
Especialistas revelam que efeitos da seca na Bacia Amazônica podem durar um ano inteiro

Claudia Bojunga

A mais grave seca que assola a Bacia Amazônica em 4 décadas, afetando rios como o Solimões, já tem contornos de desastre ecológico.
- É uma das oito maiores vazantes dos últimos 100 anos - alerta ao JB José Alberto Lima de Carvalho, geógrafo da Universidade Federal do Amazonas.
Pior: seus estragos poderão ser sentidos por pelo menos um ano. A morte de milhares de peixes, vistos aos montes boiando no que resta das águas dos rios ou ressecados onde ela desapareceu, acaba também com a próxima geração.
- Cerca de 80% das espécies da região desovam só uma vez por ano, entre novembro e março - explica Geraldo Mendes, ictiólogo (especialista em peixes) do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa).
Para se ter uma idéia das conseqüências da mortandade, basta considerar que cada um desses peixes deposita em rios e lagos milhares de ovos, o que eleva muito o potencial da catástrofe.
- Temos um cenário preocupante em termos de impacto ambiental - lamenta o secretário de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia, Virgílio Viana.
A estiagem é parte do ciclo climático da região e acontece anualmente, entre julho e novembro. Normalmente, isso não é problema, pois as florestas tropicais são adaptadas para reter água e se manter. Mas este ano, a seca está pior.
- A região vive em função do nível dos rios, que oscila cerca de 8 metros naturalmente - explica Mendes. - Mas o impacto está sendo tão drástico que atropela a normalidade do ecossistema. A seca está além do que pode ser tolerado para muitas espécies.
Os efeitos do fenômeno chegam à base de toda a cadeia alimentar. Como é o caso do fitoplâncton, microorganismo que não vive sem água e está na base da cadeia alimentar.
As que mais sofrem são justamente as menores espécies que habitam os milhares de lagos da região, muitos já desaparecidos. A morte deles causa uma reação em cadeia, atingindo até os predadores do eixo principal do rio, como o surubim e o dourado. O desequilíbrio também chega aos mamíferos aquáticos - como a lontra, o peixe-boi e o boto.
- Os animais podem passar por um período de fome prolongado, por isso, tendo até o processo reprodutivo afetado - afirma Marcelo Gordo, ecólogo do Inpa.
No topo desse sistema, a escassez de pescado poderá trazer graves reflexos sociais. Afinal, a maior parte das populações ribeirinhas depende dos rios para se alimentar. Em grandes centros receptores, como Manaus e Belém, a indústria pesqueira sustenta inúmeras famílias.
A população que mora às margens de rios e lagos é a mais sacrificada, sofrendo com a fome e problemas sanitários graves decorrentes da seca. A decomposição dos peixes mortos torna a água estagnada imprópria para beber, cozinhar e até para banho.
- Sem a proteção da vegetação, os lagos e rios ficam mais suscetíveis à movimentação do vento, o que faz a lama do fundo subir, misturada com os peixes mortos. As pessoas têm ainda criações de animais. Tudo é muito anti-higiênico - diz o ictiólogo.
A vegetação marginal, muitas vezes, também não resiste e acaba destruída. Em várias fazendas da região, criações de milhares de cabeças de gado passam fome. Outro problema está no fato de animais atolarem na lama ao tentar beber água no rios.
Apesar das expectativas pouco animadoras, o geógrafo José Carvalho afirma que em breve os rios vão voltar a encher:
- As chuvas já começaram nas nascentes dos rios e em cerca de 15 dias a água deve descer do curso superior para o rio principal.
Especialistas consideram que um dos fatores determinantes para essa acentuada seca tenha sido o aquecimento global. A água mais quente no Oceano Atlântico - relacionada também com a formação de furacões de alta intensidade, como o Katrina, que atingiu o Golfo do México - teria alterado o padrão de ventos que levam a umidade necessária para a formação de nuvens e a precipitação na Amazônia.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva culpa a irresponsabilidade de grandes nações que não respeitam a ''mãe natureza''.
- Eu acho que o Protocolo de Kyoto tem que ser levado mais a sério. Os países poluidores do planeta precisam levar em conta que nós temos que tomar mais cuidado. Porque mexe, mexe, mexe e um dia a mãe natureza fica zangada e acontece o tanto de furacão que está acontecendo e o pantanal e a Amazônia tendo problema de seca, coisa em que eu jamais acreditei.
O presidente falou sobre o assunto na saída da 15ª Cúpula Ibero-Americana, encerrada ontem, em Salamanca, na Espanha.

JB, 16/10/2005, Ciência, p. A13

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