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Águas doces, porém encharcadas de químicos

O Globo, Amanhã, p. 28
02 de Out de 2012

Águas doces, porém encharcadas de químicos
Sem esgoto, Brasil avança pouco no controle da poluição dos rios e até o Xingu já apresenta sinais de contaminação, com índice crítico em algumas de suas áreas

Cleide Carvalho
cleide.carvalho@sp.oglobo.com.br

um país em que apenas apenas 45,7% dos domicílios têm acesso a saneamento e, quando têm, o esgoto tratado não passa de 30,5%, é de se esperar que a natureza, sozinha, não seja capaz de manter ou recompor a qualidade das águas. Mais da metade dos pontos de amostragem monitorados no país apresentam coliformes fecais termotolerantes (que toleram temperaturas acima de 40"C) e 40% registram a presença de fósforo em limites acima dos estabelecidos pelo Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama), segundo o Índice de Qualidade das Águas, da Agência Nacional de Águas (ANA).
O assunto preocupa o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), que reuniu-se em Nairóbi, na África, nos últimos dias, para discutir ações coordenadas entre governos e indústria para reduzir as crescentes ameaças à saúde humana e ao meio ambiente, oferecidas pelo manejo insustentável de químicos no mundo.
Projeções do Programa Global de Químicos do Pnuma apontam para um crescimento de 3% das vendas globais de produtos químicos até 2050. Os países emergentes e em desenvolvimento são, na opinião do subsecretário geral da ONU e Diretor Executivo do Pnuma, Achim Steiner, cada vez mais "dependentes de produtos químicos, desde fertilizantes e petroquímicos até eletrônicos e plásticos". No caso brasileiro, o fósforo e o nitrogênio são considerados especialmente danosos ao meio ambiente.
Do volume de esgoto sanitário tratado no Brasil apenas 10% passam pela fase de remoção do fósforo. Nos ambientes urbanos, os detergentes de uso doméstico são os principais vilões. Nas áreas rurais, o fósforo presente nos fertilizantes pode causar excesso de nutrientes nos corpos d'água superficiais e o nitrogênio, por sua vez, pode contaminar águas subterrâneas.
- Pequenas dosagens são capazes de produzir grandes estragos a longo prazo - afirma Ney Maranhão, superintendente de Recursos Hídricos da ANA.
Outro estudo da agência, sobre os afluentes da margem direita do Rio Amazonas, manifesta preocupação com o desmatamento e a expansão agrícola na Amazônia. Além do assoreamento dos rios, a ANA alerta para a possibilidade de contaminação dos corpos d'água por agrotóxicos e fertilizantes nas bacias dos rios Tapajós, Xingu e Madeira. O documento destaca ainda a preocupação com a bacia do Alto Xingu, cujas nascentes se localizam em áreas agrícolas. As águas drenam justamente para a reserva do Parque Indígena do Xingu.
- Os índios reclamam de diarreias, mas não fica clara a relação com agrotóxicos. A área merece atenção e é preciso pesquisar a presença de substâncias químicas, para que possam ser tomadas medidas de controle e ações pedagógicas - diz Maranhão.
Nas análises feitas na região das nascentes do Xingu foram encontradas amônia na água e perda de oxigênio, além de coliformes. Alguns trechos do Xingu já são considerados altamente críticos, na região de Feliz Natal e Claudia. A ANA alerta para problemas de baixa disponibilidade hídrica entre Altamira e Vitória do Xingu.
Pesquisa da Universidade Federal do Ceará, de 2010, detectou agrotóxicos nas águas subterrâneas do Aquífero Jandaíra, que sofre com um déficit estimado em 4 milhões de me tros cúbicos por ano, entre a quantidade de água retirada para irrigação e a reposição pelas chuvas. De dez amostras, seis delas revelaram resíduos de agrotóxicos carreados ao aquífero pelas chuvas. As 23 amostras colhidas na Chapada do Apodi denunciaram a presença de três até 12 substâncias presentes nos venenos usados para controle de pragas agrícolas. Essas águas são utilizadas para consumo humano.

O Globo, 02/10/2012, Amanhã, p. 28

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