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As águas doces do Brasil

O Globo, Revista O Globo, p. 26-28
23 de Jan de 2005

As águas doces do Brasil
Casal Gérard e Margi Moss conclui coleta de amostras em rios de todo o país e diz que o avanço do desmatamento ameaça a qualidade de recursos hídricos

Por Roberta Jansen

A primeira e mais trabalhosa etapa do maior levantamento já feito no Brasil sobre a qualidade das águas dos rios e das lagoas do país acaba de ser concluída por Gérard e Margi Moss como parte do projeto Brasil das Águas, que contou com o apoio das mais importantes instituições científicas. O casal, que já deu a volta ao mundo num motoplanador, uniu aventura a trabalho e, ao longo de um ano e dois meses, viajou mais de 120 mil quilômetros a bordo do hidroavião Talha-Mar, adaptado para a missão, e coletou amostras de água em 1.171 pontos de amostragem. A análise final das águas brasileiras ainda demora, mas os resultados preliminares surpreenderam o casal. O desmatamento avança com muita rapidez, comprometendo a qualidade das águas.
- Não ficamos surpresos, por exemplo, com a péssima qualidade do Rio Tietê perto de São Paulo. O cheiro é insuportável e mesmo lavando a garrafa da coleta várias vezes, não consegui eliminar o cheiro, tive que jogar fora. Mas surpreendentemente no baixo Tietê, a água volta a ser transparente, incolor, inodora.... As barragens ao longo do rio funcionam como decantadores, prendendo o pior. Mas com o decorrer dos anos, cada barragem chega a sua plena capacidade e a água ruim vai avançando - contou Margi, que fotografou a missão.
A qualidade das águas dos rios do Nordeste, sobretudo nas proximidades das grandes cidades, revelou-se bem pior do que o esperado, bem como as do Rio São Francisco.
- O Velho Chico é um rio especial. Foi maravilhoso acompanhá-lo até o mar. Porém, as análises mostram que ele não está saudável, o que me chocou. Claro, ele recebe os efluentes das indústrias mineiras, das cidades no seu percurso, mas é tão grande que pensei que o resultado fosse melhor. Agora, com a expansão da frente agrícola, o aumento da irrigação, cultivo de uvas etc., tiram a água e ela volta ao rio com agrotóxicos.
O levantamento é importante, destaca o casal, porque o Brasil detém a maior reserva de água doce do planeta, com 12% do total mundial. Em tempos de escassez, as reservas brasileiras (e, claro, sua qualidade) podem se tornar estratégicas não somente para o país, mas para o mundo.
Chamou particularmente a atenção do casal, acostumado a viajar pelo país, o avanço do desmatamento, sobretudo nas margens de rios.
- O avanço do desmatamento realmente é implacável e assustador. Voando num pequeno avião, temos uma perspectiva melhor desta destruição, vimos milhares e milhares de árvores derrubadas e queimadas. Além do CO2 que isso gera e das mortes de milhares de animais, é um desperdício criminoso de madeira. Mas em termos de recursos hídricos, o mais grave é a eliminação da mata ciliar que, além de proteger as próprias terras, serve para filtrar os produtos nocivos usados nos campos - sustenta o casal. - Infelizmente, não estamos aprendendo com os erros do passado. Sobrevoamos terras onde não sobra uma árvore ao longo dos riachos, e eles secam. Cada riacho é importante, contribui para formar um rio. Para ter água nos grandes rios, temos que cuidar dos pequenos cursos de água também.
Inteiramente adaptado para o projeto, o hidroavião usado pelo casal era capaz de fazer a coleta das amostras em um vôo rasante, sem a necessidade de pousar. Em poucos segundos, era possível encher um recipiente com até quatro litros de água. Uma sonda instalada a bordo analisava alguns parâmetros físico-químicos, como pH e salinidade imediatamente. Em média, a dupla fazia até 15 coletas por dia
Gerard e Margi estão juntos há 20 anos, num casamento afetivo e profissional também. A grande vantagem, dizem, é passar 24 horas por dia juntos não num escritório, mas ao ar livre, conhecendo novos lugares, pessoas diferentes. Ainda assim, contam, como em qualquer parceria, há momentos de comunhão total e outros de puro estresse. Os sucessivos rasantes do Talha-Mar foram responsáveis por alguns momentos ruins.- Era um vôo estressante. O lugar mais seguro para um avião estar é nas alturas, longe do chão. Os momentos mais críticos são o pouso e a decolagem. Mas nosso vôo de coletas era sempre a baixa altitude o dia todo, indo de um ponto de coleta a outro, e fazendo 10, 12, 15 coletas por dia. Significa um número igual de pousos e decolagens... e não em pistas bonitinhas alinhadas com o vento! Dependendo da região, os rios são estreitos, com árvores ou morros nas cabeceiras dos lugares onde fazíamos a coleta. Na Amazônia, de certo modo era mais fácil porque os rios são vastos e não há cabos e fios de alta tensão atravessando os rios, nosso maior medo no resto do país. Porém a água lamacenta é uma incógnita: pode esconder paus, pedras, bancos de areia, rede de pescador - descreve Margi, admitindo a tensão.Mas a chance (rara) de conhecer os mais remotos lugares do Brasil ao lado do companheiro(a) compensa todos os momentos ruins, garantem.- A gente se complementa porque fazemos coisas diferentes. Além de ser o piloto, Gérard sempre cuida de toda a parte que odeio: mecânica, peças, combustível, planos de vôo, burocracia. A mim, cabia tirar as fotos (acho que tirei umas 15.000), manusear as amostras e atualizar o site - conta Margi.

O Globo, 23/01/2005, Revista O Globo, p. 26-28

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