CB, Cidades, p. 29-30
06 de Mai de 2004
Água sob suspeita
Caesb investiga as condições do abastecimento em São Sebastião, onde 31 moradores contraíram hepatite A desde o início de janeiro. Técnicos verificam se fossas contaminaram a rede
Larissa Meira
Da equipe do Correio
Um surto de hepatite em São Sebastião levantou a suspeita de contaminação na água consumida pelos moradores da região. Desde janeiro deste ano, a Vigilância Epidemiológica e o Centro de Saúde local constataram o aumento do número de casos de hepatite A, o tipo menos agressivo da doença. A média de registros subiu de dois para seis por semana.
Nos três primeiros meses do ano, as autoridades de saúde notificaram 31 casos. No mês de janeiro, a doença atingiu 18 pacientes a mais que no mesmo período do ano passado. Para conter o avanço da doença, a Vigilância e o Centro de Saúde promoveram uma campanha de educação sanitária. Somente em abril os casos de hepatite foram normalizados.
A Companhia de Saneamento do Distrito Federal (Caesb) investiga há 30 dias o problema em São Sebastião. Em parceria com o Grupo de Vigilância e Controle da Qualidade da Água para Consumo Humano, a empresa realiza coletas de amostras d'água em vários pontos da cidade. A hepatite pode ter sido transmitida por meio da contaminação do sistema de abastecimento hídrico.
Consumo inadequado
Ainda não há confirmação de contaminação da água oferecida pela empresa. A suspeita é de que a manutenção do uso de cisternas ou a mistura do abastecimento da Caesb com água de fossas esteja poluindo a rede. ''Ainda não está claro. Mas como verificamos a utilização inadequada nas casas de pessoas doentes, o mais provável é que a mistura seja a causa da contaminação da água e transmissão da hepatite'', avalia a superintendente de produção industrial de água da Caesb, Tânia Baylão.
De acordo com ela, para economizar na conta da água paga à empresa, alguns moradores, principalmente de áreas desfavorecidas, fazem ligação entre a água das cisternas com a rede da companhia.
Campanha na cidade
Além de investigar as possíveis causas da contaminação, a Caesb fez uma campanha educativa na cidade. ''Iniciamos um alerta para a população. Estamos distribuindo folders explicativos, visitando casas e oferecendo remédios para tratar a água'', esclarece a chefe do Núcleo de Vigilância Epidemiológica e Imunização de São Sebastião, Shirlei Pereira de Medeiros.
A campanha deixou a população apreensiva. Depois de ouvir comentários na cidade, a diretora administrativa Maria Sandra Medeiros do Nascimento, 34 anos, procurou o posto de saúde para obter informações sobre a água da região. ''Não faço uso de cisternas na minha casa e acho um absurdo pagar uma conta de R$ 50,00 e ainda ter que usar remédios antes de tomar a água'', reclama. Há uma semana, ela mistura duas gotas de hipoclorito de sódio - substância oferecida em postos de saúde para evitar contaminação - em cada litro d'água antes de beber.
Na rua da dona-de-casa Elizina Leite Ferreira, 28 anos, houve casos de hepatite. ''Minha cunhada teve, mas já melhorou. Fiquei com medo e também estou tratando a água''.
Controle impreciso
De acordo com a diretora da Vigilância Epidemiológica da Secretaria de Saúde, Disney Antezana, há casos da doença em que a pessoa infectada não detecta os sintomas. ''É difícil a secretaria ter um controle, porque muitos pacientes nem chegam a notificar e a doença, é curada naturalmente'', explica.
O fato pode ter ocorrido na família do marceneiro Fernando Augusto dos Santos, 29 anos. Há dois anos, ele utiliza cisterna na quadra 301 da cidade. Como não tem filtro, a água que sai da torneira na frente do quintal do barraco de chão batido vai direto para a geladeira. ''Não sei se tivemos hepatite, mas vira e mexe tá todo mundo em casa com diarréia e dor na barriga. A gente toma um chazinho e melhora'', relata.
Mananciais ameaçados
Siv-Água alerta para o crescimento urbano desordenado, especialmente em áreas próximas a córregos e reservas de água
Larissa Meira
Da equipe do Correio
A ligação clandestina entre a rede pública de abastecimento de água com cisternas ou fossas não é a única preocupação do Sistema Integrado de Vigilância, Preservação e Conservação de Mananciais do Distrito Federal (Siv-Àgua). Desde o final de março, a direção do órgão realiza uma vistoria nas sete bacias e diversos mananciais do DF. Neste período, foi possível verificar a contaminação de quatro redes hidrográficas (leia quadro). Localizadas nas regiões de Taguatinga, Gama, Planaltina e Brazlândia, elas sofrem, principalmente, com o processo de ocupação desordenada do solo nas regiões.
''Nosso principal problema é a construção à beira de córregos e mananciais. A legislação estabelece uma faixa de limite para proteção dos sistemas hidrográficos, mas as pessoas teimam em agir de má fé, na política do 'ato consumado' e desrespeitam leis. Isso não vai ficar assim'', avisa o subsecretário do Siv-Àgua, Antônio Magno.
Ele afirma que a ocupação do solo à margem dos mananciais compromete o abastecimento do DF, com o lançamento de esgotos sem tratamento e contaminação por produtos agroquímicos. Segundo a legislação ambiental, bordas de córregos e rios são intocáveis, consideradas Áreas de Preservação Permanente (APP) e não podem ter ocupação humana ou construções.
Áreas de risco
A Bacia do Rio Descoberto é responsável por 65% do abastecimento de água no DF, por isso a preocupação do Siv-Àgua. A partir das vistorias, o órgão passará a adotar medidas para recuperação dos sistemas. ''Primeiro, nós desocupamos as áreas de risco e em seguida promovemos o replantio da vegetação nativa à margem da água. São ações integradas com outros órgãos para manter a conservação das bacias'', explica o gerente de vigilância de mananciais do Siv-Àgua, André Luiz da Silva Moura.
O órgão recebe denúncias e esclarece dúvidas da população sobre a qualidade da água consumida. Desde o início do funcionamento, o Siv-Àgua já recebeu 25 denúncias de casos como esgoto clandestino, depósito inadequado de lixo e construção irregular à beira de rios e córregos. Para relatar situações de contaminação da água não é necessário identificação do denunciante.
Em São Sebastião, apesar da redução do número de casos de hepatite em abril, a Vigilância Epidemiológica, em parceria com a Caesb, continua com o processo de orientação à população e a análise da água de São Sebastião. ''É uma região de brejo, que possui lençol freático superficial. Isso contribui para a contaminação da água, principalmente em época de chuva, se os moradores fazem uso inadequado do recurso'', alerta Tânia Baylão.
Surto de Hepatite em São Sebastião
Áreas preocupantes
Bacia Hidrográfica do Riacho Fundo
Abrange partes de Taguatinga, Ceilândia, Candangolândia, Núcleo Bandeirante, Guará, Riacho Fundo e Vicente Pires.
Problema: Comunidades em áreas como Vicente Pires ainda não possuem infra-estrutura sanitária, o que gera contaminação da bacia.
Bacia Hidrográfica do Corumbá
Próxima ao Gama.
Problema: Fábricas antigas não tinham tratamento de esgoto, assim como proprietários rurais da região.
Bacia Hidrográfica do Rio Preto
Ocupações próximas a Planaltina.
Problema: Proximidade com propriedades rurais provocou o depósito de produtos químicos nas águas.
Bacia Hidrográfica do Descoberto
Região de Brazlândia e Águas Lindas.
Problema: Águas contaminadas pela atividade agrícola sem tratamento sanitário na região.
CB, 06/05/2004, Cidades, p. 29-30
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