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Água para poucos

CB, Mundo, p. 18
16 de fev de 2007

Água para poucos
Nações Unidas alertam que dois terços da população mundial sofrerão com a escassez dos recursos hídricos nos próximos 20 anos. Especialistas culpam o homem e defendem uso racional do líquido

Rodrigo Craveiro
Da equipe do Correio

Não bastasse o ônus da culpa pelo aquecimento global, o homem será responsável por outra catástrofe humanitária e econômica: em 2025, 1,8 bilhão de pessoas viverão em países ou regiões com absoluta falta de água, e dois terços da população mundial enfrentarão uma crise relacionada à escassez do líquido. O alerta é da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), que realizará o Dia Mundial da Água em 22 de março. De acordo com o italiano Pasquale Steduto, diretor da unidade de gerenciamento dos recursos hídricos da FAO, o consumo de água tem aumentado mais que o dobro do crescimento populacional no último século, transformando o gerenciamento sustentável e correto do líquido em desafio para o futuro. "A comunidade global possui o know-how para lidar com a escassez de água, mas temos de agir", recomendou.
Atualmente, 1,1 bilhão de pessoas não têm acesso adequado a água potável para suprir suas necessidades básicas diárias e 2,6 bilhões não usufruem de saneamento básico.
Em entrevista ao Correio, Paul Van Hofwegen - diretor do Conselho Mundial de Água, com sede em Marselha (França) - afirmou que o crescimento populacional é a principal causa da escassez do líquido. "Mais pessoas precisam ser saciadas com a mesma quantidade de terra e água. Mas isso só pode ser feito até que os limites físico, econômico e ambiental dos países sejam atingidos", explicou.
Os cientistas consideram que a falta de água pode ter razão física ou econômica. A primeira ocorre quando não há água suficiente para atender à demanda de produção dos alimentos, como na irrigação de lavouras. A segunda se refere à inexistência de infra-estrutura para consumir o líquido disponível. Esse fenômeno é registrado na América Latina, África, Sudeste da Ásia e da Austrália. "As nações serão obrigadas a importar comida de regiões livres do problema, como Estados Unidos, Canadá, Rússia e alguns países europeus", acrescentou.
Segundo Van Hofwegen, o desenvolvimento de biocombustíveis tem um efeito potencial na escassez dos recursos hídricos. Diante disso, o homem terá de fazer uma difícil escolha entre amenizar o aquecimento global com a adoção de fontes de energia renováveis (leia entrevista na página 19) ou prevenir a redução dos mananciais. O cultivo de cana-de-açúcar para a produção de etanol no Brasil e de canola para o biodiesel, por exemplo, exige muita água e fertilizantes. "A demanda global está destruindo os cursos de água fresca, principalmente por meio da agricultura", disse à reportagem a norte-americana Elizabeth Mygatt, pesquisadora do Instituto de Políticas para a Terra, em Washington.
Agricultura
O relatório da FAO revela que a agricultura é a principal consumidora de água no mundo, respondendo por cerca de 70% da extração em lagos, rios e aqüíferos no mundo. No entanto, o índice chega a 90% em vários países em desenvolvimento, responsáveis por três quartos das terras irrigadas. A falta de água é mais aguda nas regiões secas, que abrigam mais de 2 bilhões de pessoas e metade de toda a população pobre do planeta. Oriente Médio, Norte da África, México, Paquistão, África do Sul, Índia e China são os mais afetados pelo fenômeno.
"Em muitas regiões, os fazendeiros tentam produzir comida suficiente e renda diante dos desafios de secas repetitivas e competição pela água", sustentou Pasquale Steduto.
Van Hofwegen admite que a falta de água será inevitável nos países que enfrentam, ao mesmo tempo, crescimento populacional e escassez física. "A importação de alimentos é a única solução", afirmou. Mas o alívio ao setor agrícola para garantir o suprimento do líquido não será tão fácil e representará um custo econômico e geopolítico.
Muitos países não toleram a idéia de serem dependentes de nações exportadoras, sob o medo de ficarem à mercê de uma vulnerabilidade política. Para a FAO, lidar com a escassez de água requer a garantia de proteção do meio ambiente e o controle do aquecimento global. Só assim será possível manter uma distribuição racional do líquido nos usos para irrigação, indústrias e residências.
"A escassez de água piora de modo rápido e contínuo: alguns rios já estão secos e impedem inclusive a navegação", advertiu Elizabeth Mygatt.
Em outubro de 2005, a Floresta Amazônica agonizou ao ver seus imensos rios se reduzirem a filetes d´água na sintomática e mais violenta estiagem dos últimos 60 anos. "O grande desafio é aumentar a disponibilidade dos recursos hídricos", acrescentou Mygatt.
Tarefa difícil, pois em 2050 boa parte da população se concentrará nos trópicos, bastante afetados pela seca.

Brasileiros já racionam

Da redação

Embora o Brasil detenha 12% de toda a água doce superficial do mundo, o país não está imune ao alerta das Nações Unidas sobre os riscos de escassez dos recursos hídricos. Apesar da abundância, o líquido é distribuído de modo irregular no território. Dois terços estão na Amazônia, região onde moram menos de 5% dos brasileiros. Enquanto isso, habitantes do Nordeste, Sudeste e Sul - quase 80% da população - têm à disposição menos de 16% dos recursos hídricos. O resultado é o racionamento, uma realidade em algumas metrópoles, como Rio de Janeiro e São Paulo.
"A explosão dos grandes centros urbanos, a poluição das fontes e a canalização de rios e córregos, entre outras causas, têm levado à escassez de água", explicou o coordenador do Programa Água para a Vida da organização não-governamental WWF, Samuel Barreto. "Esse risco é amplificado pelo perigo das mudanças climáticas, que podem vir a acentuar eventos extremos como secas e inundações", alertou. Além disso, para Barreto, uma das conseqüências mais sérias do racionamento de água é provocar conflitos, já que o recurso é vital em diversos setores - como energia, agricultura e navegação.
"O que precisamos é de um modelo de desenvolvimento mais sustentável."
Distância
Outra dificuldade é a distância entre fontes e centros consumidores. Em São Paulo, com a poluição de inúmeras fontes próximas, captar água em bacias distantes tornou-se rotina. De acordo com o secretário nacional de Recursos Hídricos do Ministério do Meio Ambiente, João Bosco Senra, na região metropolitana de São Paulo, mais da metade das cidades buscam água a mais de 300km de distância. Rio de Janeiro e Recife também são citadas como cidades onde já há racionamento. O desperdício - que em algumas cidades pode chegar a dois terços de toda a água ofertada - prejudica o abastecimento. De acordo com o coordenador do WWF, em determinadas cidades da região Norte, onde o problema é ainda mais grave, apenas 30% da água é aproveitada. "No Brasil há uma cultura da abundância que levou a uma cultura do desperdício e do descaso", resume o secretário do MMA. "Isso precisa ser revertido."

CB, 16/02/2007, Mundo, p. 18

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