OESP, Notas e Informacões, p. A3
01 de Nov de 2004
Água mais cara
A Companhia de Saneamento Básico de São Paulo (Sabesp) tomou, em março, uma importante decisão para estimular a economia no consumo de água na Região Metropolitana de São Paulo: lançou o bônus de 20% no valor do fornecimento de água e da coleta de esgotos para os consumidores que reduzissem em 20%, no mínimo, o volume de água utilizado mensalmente. Apesar da pouca divulgação da iniciativa, mais de 50% dos consumidores paulistanos atingiram a meta de poupança, gastando menos de 80% da média aritmética dos volumes consumidos nos seis meses anteriores.
O sucesso alcançado pela campanha levou a crer que a Sabesp manteria, em bases permanentes, a medida que incentivava o uso racional da água, um recurso já cronicamente escasso na área da Grande São Paulo. Há dias, porém, a Sabesp anunciou o fim do desconto de 20% nas contas dos consumidores, para surpresa dos especialistas em recursos hídricos, que continuam alertando para a má situação dos mananciais.
A escassez de água é apontada hoje como um dos maiores problemas dos 39 municípios da Região Metropolitana de São Paulo, em especial, a capital. No início do ano, em entrevista à revista IstoÉ, o pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da USP Aldo Rebouças lembrou que o maior vilão no setor de abastecimento da Grande São Paulo é o desperdício, seguido pela falta de gerenciamento e pela degradação dos mananciais.
Na época, a região metropolitana consumia 63 m3 de água por segundo e distribuía 63 m3 por segundo, ou seja, estava no limite a relação entre demanda e oferta. Graças ao programa do bônus, que previa baixar o consumo para 43 m3 por segundo, os reservatórios ganharam fôlego. A Sabesp informa não ter ainda um balanço do quanto foi economizado nos seis meses de duração do programa.
Pela atual situação dos mananciais, conclui-se que a medida auxiliou, e muito, na melhoria da capacidade de armazenamento, embora outros fatores, como as chuvas fora de época, tenham contribuído. Em 2 de fevereiro, por exemplo, o sistema Cantareira apresentava 6,6% da sua capacidade. Na última quarta-feira, o nível estava em 12% (ou 31,2% considerado o volume morto de 212 milhões de m3 das Represas Jaguari e Jacareí, até pouco tempo atrás não computado).
O engenheiro Júlio Cerqueira César Neto, presidente da Fundação Agência da Bacia Hidrográfica do Alto Tietê, alerta para o fato de que, mesmo que as condições climáticas se mantenham dentro da média histórica, com chuvas fartas no verão, os reservatórios que abastecem a Grande São Paulo só voltarão às condições normais de armazenagem em 2006. Também somente daqui a dois anos serão incorporadas as Represas de Paraitinga e Biritiba-Mirim ao sistema Alto Tietê, ampliando a oferta em 4 m3 por segundo, volume suficiente para abastecer 1 milhão de habitantes.
Assim, por medida de cautela, a Sabesp deveria manter por pelo menos mais dois anos as campanhas de incentivo do uso racional da água. Diante da queda de receita, porém, a empresa preferiu eliminar o bônus e apostar na normalidade do período chuvoso. Atende a problemas imediatos de caixa, mas retarda, mais uma vez, a recuperação dos reservatórios.
A Organização Mundial de Saúde (OMS) estabelece em 120 litros por dia o volume de água suficiente para o consumo de uma pessoa. A média paulistana é de 180 litros. A do Brasil é de 150 litros. Uma abundância que não condiz com a escassez de água disponível não só na Grande São Paulo, mas em todos os grandes aglomerados urbanos do País.
A mudança do comportamento do consumidor é sempre muito lenta, se depender das campanhas convencionais de conscientização. Mas, quando o incentivo é a redução da conta paga pelo consumidor, a mudança se dá em tempo recorde e era isso que a Sabesp estava conseguindo. Representantes da empresa asseguram que, se for necessário, o programa de bônus será retomado em meses de estiagem. Se fosse permanente, no entanto, o uso racional da água se incorporaria definitivamente aos hábitos do consumidor. É certo que, num primeiro momento, as receitas da Sabesp cairiam. Mas, a médio e longo prazos, a empresa poderia reduzir seus investimentos na captação de água, o que vem sendo feito em sistemas hídricos cada vez mais distantes de São Paulo.
OESP, 01/11/2004, Notas e Informacões, p. A3
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